Na semana passada, rebentou um belíssimo escândalo no meio académico internacional. Três académicos, James Lindsay, Peter Boghossian e Helen Pluckrose (que se juntou à equipa quando o projecto já tinha começado), publicaram, propositadamente, artigos fraudulentos em algumas das melhores revistas científicas de determinadas áreas de estudo, a que os autores, depreciativamente, chamam Grievance Studies. Algo que poderíamos traduzir como “Área do Ressentimento” ou da “Vitimização”. O objectivo deste projecto era o de demonstrar que a produção académica nestas áreas é, em grande medida, uma fraude científica. Vende-se ideologia como se de ciência se tratasse.

Para levar a cabo o seu projecto, estes três autores mergulharam na literatura científica num dado domínio — por exemplo, gender studies, estudos de género — e, ao longo de quase um ano, escreveram artigos em tudo iguais a muitos que já estão publicados. Mas, e esta é a parte relevante, os artigos eram absurdos e com falhas metodológicas gritantes ou mesmo eticamente inadmissíveis. A ideia era demonstrar que estes artigos, desde que se conformassem com a ideologia dominante daquelas áreas de estudo, seriam publicados em excelentes revistas das respectivas áreas científicas.

Comecemos pelo artigo que deu o título a esta minha crónica: Going in Through the Back Door: Challenging Straight Male Homohysteria, Transhysteria, and Transphobia Through Receptive Penetrative Sex Toy Use. Nele, os autores advogam que, para se diminuir a transfobia, a homohisteria e a transhisteria homens heterossexuais deviam experienciar prazer anal com uns vibradores. Não estou a gozar. Como forma de terapia para curar os problemas descritos, os autores sugerem que, em ambiente controlado, os homens sigam o tratamento prescrito. Cito a última frase: «A partir destes dados, concluímos que a transfobia e a transhisteria exibem uma relação tão estreita com o erotismo penetrativo anal que a penetração anal em ambientes “seguros” pode servir de remédio.» Este artigo foi mesmo publicado na Sexuality & Culture, uma boa revista académica. É inacreditável, mas é verdade. Não quero, de forma alguma, refrear o leitor de fazer esta experiência. Esteja à vontade, mas faça-o por bons motivos e não para curar qualquer homohisteria de que padeça.

Esta técnica de atirar uma ideia absurda ao ar e ver se a conseguem publicar numa reputada revista académica foi levada ao absurdo no artigo Our Struggle is My Struggle: Solidarity Feminism as an Intersectional Reply to Neoliberal and Choice Feminism. Como o título sugere, basearam-se no Mein Kampf, de Adolf Hitler. Para ser mais preciso, os autores pegam no capítulo 12 do livro e adaptam os argumentos a defender a necessidade de um partido nazi para explicar a necessidade de um feminismo solidário que combata a opressão. O artigo foi aceite para publicação na revista Affilia: Journal of Women and Social Work, uma revista bastante cotada na área de Estudos Feministas. É caso para dizer que o insulto muitas vezes usado contra algumas feministas, feminazi, ganha uma nova vida com esta publicação.

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