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Mário Soares não vai descer o Chiado. Nem almoçar na Trindade. Aparentemente porque os dirigentes do PS o convidaram demasiado tarde. Ou então porque o convidaram depois de terem convidado Manuel Alegre para uma ação de campanha. Até aqui nada que não pudesse acontecer noutra campanha eleitoral. Os humores do fundador do PS nunca foram fáceis de gerir e Soares também nunca morreu de amores nem por Seguro, nem por Assis. Não fosse a falta de outros temas na campanha, e talvez nem merecesse mais do que uma nota de rodapé. O problema é outro. E está condensado numa fotografia.

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Costuma dizer-se que uma imagem vale mais do que mil palavras, e a imagem do cartaz do Syriza não escapa à regra. Tudo nela é eloquente, a começar por no seu centre estar Mário Soares, bem focado e enquadrado, olhando com enlevo para o dirigente da esquerda radical grega e europeia, até ao semi-apagamento de João Semedo, o co-líder do Bloco de Esquerda, atirado para um canto e esfumado quase até à obliteração.
Custa a acreditar. Mário Soares é o político português a quem devemos a luta mais determinada contra a deriva radical em 1974 e 1975, tal como é o homem que nas primárias da esquerda nas presidenciais de 1986 derrotou de forma quase heróica a tentativa de regresso ao poder de uma coligação que ia dos eanistas aos comunistas e envolvia uma parte do PS. Ele não se tornou, creio eu, num compagnon de route de forças com duvidosos créditos democráticos. Então o que faz naquele cartaz?
Basicamente o mesmo que fez ao organizar dois comícios na Aula Magna de Lisboa: a trabalhar para federar todos os setores mais à esquerda do espectro político. Fá-lo por radical oposição à atual maioria, mas fá-lo também porque, nestes últimos anos, foi derivando para posições cada vez mais esquerda, cada vez mais distantes da praxis governativa dos partidos da sua família política e cada vez mais em oposição às políticas europeias. E fá-lo também por imaginar que pode ser ele o federador de todas as oposições, mesmo quando já são outras oposições que usam de forma instrumental a sua figura. Como sucede neste cartaz.
Mas há mais, e mais importante. Ao encostar-se ao Syriza (e a boa parte das figuras que convidou para a Aula Magna) e ao afastar-se da atual direcção do PS, Mário Soares está a aprofundar a clivagem que se está a abrir no interior do PS e da esquerda democrática e que já é, porventura, a principal clivagem do nosso sistema político.
Olhando de forma superficial para os debates que cruzam o espaço público talvez fôssemos levados a considerar que a principal linha de divisão seria a que separa austeritários de anti-austeritários. É aí que se concentra a gritaria, mas é uma gritaria muitas vezes artificial. Por um lado, porque a maior diferença entre a austeridade do atual governo e a que um dia o PS terá de assumir é que este vai tentar chamar-lhe “rigor”. Por outro lado, porque as fortes clivagens que existem na área do PSD têm componentes demasiado pessoais para serem consideradas estruturais.
Não se passa o mesmo à esquerda, não se passa o mesmo no Partido Socialista. As clivagens têm aí pouco a ver com o doseamento da austeridade, pelo contrário. O que separa uma boa parte do PS da sua direção, o que separa Soares de Seguro é o Tratado Orçamental e a atitude perante a dívida (e o manifesto dos 70).
Uma parte da esquerda do PS, onde se inclui Mário Soares, está hoje mais próxima da esquerda anti-capitalista do Bloco, do PCP e do Syriza do que está da esquerda democrática e moderada que aspira a governar em Portugal ou que governa neste momento (em coligação) em países como a Alemanha ou a Holanda, ou mesmo em França ou na Itália. Uma parte dessa esquerda acalmar-se-á quando o PS voltar ao Governo, mas o radicalismo das posições que tem vindo a assumir não minará apenas a autoridade de um executivo de António José Seguro, pode também levar ao agravamento do tipo de clivagens e divisões que ainda podem acabar por estilhaçar ainda mais a esquerda.
A birra de Soares irritou muitos socialistas, a sua virtual deserção é um sinal mais grave, pois mostra até que ponto é profunda a clivagens entre uma esquerda que quer continuar dentro do consenso europeu e uma outra esquerda que, da Aula Magna aos cartazes do Syriza, imagina uma Europa que não existe hoje nem existirá no futuro – e não existirá por boas razões: a Europa é fruto da convergência esforçada de conservadores e social-democratas, não de qualquer aliança estouvada entre socialistas de esquerda e esquerdistas radicais.

 

PS. Já depois de escrito e publicado este texto, o Público revelou um pequeno texto de Mário Soares em que este repete que vai votar PS – partido que “sempre esteve acima de mim próprio” – e que “abomina” a direita. Nada do que escreve justifica que modifique um só linha ao que escrevi acima: Soares não fez nem fará campanha em Portugal pelo PS e aparece na campanha europeia do Syriza.

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