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As comunidades humanas são reguladas, acima de tudo, por interditos e recalcamentos, aquilo que consciente ou inconscientemente não podemos dizer ou fazer por ser fundamental para a vida coletiva justamente por estar proibido ou silenciado. Essa é uma característica inerente ao sagrado que persiste nas sociedades laicizadas da atualidade em torno da moral social. Esta não é determinada pelo que podemos dizer ou fazer, antes pelo que não podemos colocar em causa, razão da persistência dos Dez Mandamentos da tradição milenar judaico-cristã, a começar pelo Não Matarás!

Existem recalcamentos ou interditos bem-sucedidos que podem, devem e têm de ficar em silêncio por cumprirem a função da boa regulação da vida social. Mas também existem recalcamentos e interditos malsucedidos, as fontes das crises das sociedades, pelo que resolvê-las mais não é do que libertar a crítica social nestes casos.

Tornar a liberdade suporte da tranquilidade social, da justiça social e da prosperidade económica coletiva só é possível em sociedades que sabem gerir os seus interditos. Está longe de ser o caso da sociedade portuguesa por responsabilidade do atual regime político que impôs a cristalização da mente coletiva vai para meio século, afundando o país numa crise endémica.

Dois exemplos. Num extremo, salta aos olhos do senso comum o recalcamento falhado do lado não-violento, de normalidade institucional, de tranquilidade social e de prosperidade económica legados pelo regime de Salazar. No extremo oposto, não é mais possível omitir o recalcamento falhado do lado desumano e estéril indissociável do socialismo e do comunismo. Alargando ao mundo ocidental, acrescentam-se os recalcamentos falhados sobre o problema islâmico ou sobre a imigração não-ocidental desregulada.

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Restaurar a moral social em nome do regresso à sanidade mental coletiva implica uma crítica social renovada, forte e incisiva aos guardiões dos interditos falhados. Até ao século XX, a missão coube ao clero, em geral à religião. Nas atuais sociedades laicizadas, com ensino e comunicação social massificados, destacam-se professores e jornalistas.

O alvo deste texto limita-se à névoa de recalcamentos e interditos que garante aos jornalistas o direito sacralizado de louvarem, criticarem, humilharem ou omitirem quem e o que bem entendem da vida social e, ao mesmo tempo, permanecerem eles mesmos imunes à crítica social. Nas últimas décadas, a classe jornalística cristalizou a autorrepresentação social de garante da democracia, liberdade, justiça social, segurança, prosperidade dos povos. Todavia, o correr do tempo passou a evidenciar crescentemente o contrário. Em 1917, Max Weber havia explicado: não raro, a ação política tem consequências inversas em relação às intenções originárias.

Santo Agostinho

Santo Agostinho viveu o desmoronamento do Império Romano do Ocidente, na transição do século IV para o século V. Identificou na falência da moral social da época a causa do fenómeno, associando-a à natureza dos deuses gregos e romanos. O culto dos deuses bons e dignos era indistinto do culto dos deuses maus e nocivos, tradição que considerou incapaz de conferir um rumo sólido à moral social. Concluiu Santo Agostinho que as religiões politeístas grega e romana não sobreviveriam à força civilizacional do novo monoteísmo cristão liberto de tais incongruências.

Como é a natureza da moral social que determina o sucesso ou o fracasso de povos e civilizações, nos muitos séculos seguintes a prosperidade do Ocidente Cristão comprovou que Santo Agostinho estava certo. Para ele, não era o detalhe da existência de boas e más divindades gregas e romanas que estava necessariamente em causa. Era a substância da religião tendo em conta o modo como condicionava as atitudes e comportamentos quotidianos dos indivíduos.

Apesar da dessacralização das sociedades ocidentais iniciada no século XVIII, em rigor por causa dela, a lógica persiste no século XXI. É irrelevante admitirmos a existência de um ou outro jornalista de qualidade. Está em causa a substância da função social do jornalismo, isto é, o modo como a imprensa condiciona a mente coletiva.

Martinho Lutero

Pouco mais de um milénio após as reflexões sábias de Santo Agostinho, a moral social voltou a entrar em rutura no Ocidente no século XVI. Perante membros do clero desviados da função religiosa intermediária, pela fé cristã, entre a terra dos mortais e os céus da vida eterna, isto é, desviados do dever primordial de ligar o destino humano à palavra de Deus; materialmente interesseiros, venais, imorais, corruptos, entregues a interesses, vícios e prazeres mundanos – o alemão Martinho Lutero, em 1517, deu início ao movimento Protestante.

Em poucos anos, a Igreja Cristã acabou fragmentada entre o velho catolicismo romano, que continuou dominante no sul da Europa, e o novo protestantismo reformista (luterano e calvinista) tornado dominante a norte.

A cisão protestante definiu com clareza, aos olhos do senso comum da época, o alvo das suas críticas: o clero. Contra ele, passou a defender a relação direta entre cada cristão e Deus. O clero pôde passar a ser interpretado como um tumor maligno que parasitava a relação entre os cristãos e Deus, entre a terra e os céus.

Na liturgia política atual, Martinho Lutero foi um execrável «populista», um Trump, Bolsonaro ou Ventura da época por causa do «erro moral terrível» de confiar muitíssimo mais nos indivíduos comuns, na sua consciência individual, na sua autorresponsabilidade, do que na grande e sábia instituição que os tutela, a Igreja ou o Estado. A história, «maldita», deu razão ao «populismo» luterano e calvinista que dispensava intermediários.

O protestantismo espoletou das mais significativas renovações da moral social no Ocidente. Com ele, as sociedades europeias dominaram o mundo num contexto de prosperidade económica e de progressos na dignidade dos indivíduos comuns que a elas pertenciam, transformações simbolizadas no avanço precoce da alfabetização comparativamente ao resto do mundo, posto que a Bíblia passou a ser traduzida do latim para as línguas nacionais permitindo a cada crente, família ou comunidade conhecerem por si mesmos a palavra de Deus.

Tais marcas civilizacionais de génese protestante do norte da Europa não foram desaproveitas a sul. De  modo algum o catolicismo saiu moralmente enfraquecido. O choque radical com a realidade imposto pela justiça da crítica luterana e calvinista ao clero romano forçou os católicos, também a partir do século XVI, a adaptarem-se com renovada dignidade e rigor às características das sociedades do sul da Europa onde a herança centralizadora do Império Romano fora mais marcante.

Rousseau, Locke e Montesquieu

Chegados ao século XXI, a moral social está de novo em rutura. Desta feita não é o Império Romano que se desmorona, mas o próprio Ocidente, em especial o moralmente frágil Ocidente Europeu. O que hoje temos é um clero jornalístico que se arrasta penosamente em vícios vergonhosos equiparáveis aos do clero romano antes da cisão imposta por Martinho Lutero.

Com a dessacralização das sociedades, a função do clero jornalístico já não é a de intermediar as relações entre a terra e o céu. Intermedeia as relações entre o poder e o povo, para usar a expressão de Vasco Pulido Valente, ou entre a democracia e os cidadãos.

No intervalo entre os séculos XVI e XXI, o ideal civilizacional de democracia impôs-se, com ele os ideais correspondentes de justiça social e de prosperidade económica coletivas gerados, no século XVIII, pelo princípio do contrato social. Este remete para as relações que se estabelecem entre o indivíduo e o coletivo, assim como entre governantes e governados, o poder e o povo. É o contrato social que garante a proteção dos interesses da sociedade no seu conjunto, e deve ser selado pelo voto cíclico, pelo direito de eleger e ser eleito.

Pela sua natureza, o contrato social implica que as relações entre governantes e governados estejam libertas de entraves, bloqueios, intermediários, filtros, parasitismos, distorções. Foi esse o sentido que, na origem, Jean-Jacques Rousseau ou John Locke atribuíram ao contrato social. Também do século XVIII, acrescente-se o princípio da separação de poderes (legislativo, executivo e judicial) como garantia da liberdade proposto por Montesquieu.

Por causa do fortíssimo poder de controlo do pensamento social entretanto conquistado pela classe jornalística, entramos no século XXI com governantes a atuarem, acima de tudo, preocupados com a sua imagem junto dos jornalistas. Por seu lado, os governados, os cidadãos comuns, conhecem as ações dos seus governantes quase só filtradas pelo diktat dos jornalistas. Estes transformaram-se, a si mesmos, em inimigos públicos número um dos fundamentos do contrato social escudando-se no argumento do «combate aos populismos», viciados que estão na veneração do próprio umbigo.

O tumor maligno da democracia

O novo agente parasitário, o jornalista, qual tumor maligno aniquilou a ideia fundadora do contrato social ao ter corrompido gravemente as relações entre o poder e o povo. Não restam dúvidas sobre quem anda a matar os fundamentos da moral social, democracia, funcionalidade das instituições, justiça social, vitalidade das economias, salvaguarda da multiplicidade de identidades sociais e nacionais do mundo ocidental.

Como Martinho Lutero no século XVI, a renovação e revitalização do Ocidente no século XXI depende da supressão do clero jornalístico, em particular do jornalista-político. Em nome da restauração do contrato social e do equilíbrio mental dos portugueses e demais povos ocidentais, a crítica social impiedosa pode, deve e tem de dessacralizar o jornalista.