Tenho defendido que, se a direita pretende gerar uma alternativa séria de governo, precisa de construir um projecto político próprio. E precisa de se pensar a si mesma, definindo-se nos seus próprios termos, ao invés de permitir que seja a esquerda a rotulá-la com as categorias morais que mais lhe convêm. A direita não pode ser uma não-esquerda, nem uma anti-esquerda, nem uma esquerda descafeinada. A direita não nasceu para ser o parceiro pragmático da esquerda ou a oposição construtiva à esquerda. A direita é a direita. E tem de pensar em si própria como tal.

A direita não tem de escolher entre a profundidade ideológica e a acção concreta. A vida prática é o terreno natural de afirmação da política. Os partidos não são escolas de pensamento, que se esgotam no exercício especulativo, na evocação do seu passado ou no desenho escrupuloso de utopias. São, obviamente, projectos de exercício do poder, com tudo o que isso implica. O poder, porém, reclama um propósito. Se a direita deseja munir-se de instrumentos para resolver problemas práticos, o seu pensamento tem de ser mais profundo e mais sistemático do que esses problemas. Se a direita não souber ser maior do que as contingências, será engolida por elas. Ou se enraíza num projecto próprio, ou esgota-se na agenda mediática e na política de casos. Ou é ideológica, ou não será coisa nenhuma.

Os defensores do pragmatismo não ignoram a importância da sistematização ideológica. Não raras vezes, quando clamam por uma direita mais aberta, mais pragmática ou mais esclarecida, não estão a defender o esmorecimento das ideologias. Estão apenas a pedir uma direita diferente. Uma direita mais liberal. Esta é uma opção legítima, mas deve ser avaliada como aquilo que é: um projecto ideológico de reforma da direita.

Em boa verdade, o liberalismo faz parte do património ideológico da direita moderna em Portugal. No PSD, o reformismo liberal moderou a social-democracia e inspirou movimentos de privatização económica e revisão constitucional que surgiram em contracorrente com o processo revolucionário. No CDS, o individualismo liberal entrecruzou-se com o personalismo cristão e com a doutrina da subsidiariedade e traduziu-se na defesa de um sistema político municipalista, descentralizado, onde as famílias são células fundamentais da sociedade e o estado não desconfia do sector privado. A direita portuguesa tem laivos de liberalismo. Mas não é liberal, nem na essência nem na prática.

O projecto do liberal-pragmatismo é uma direita diferente. Focada em problemas concretos, sobretudo de natureza económica e financeira; com um discurso neutro – quando não libertário – sobre as questões sociais e morais. Esta receita, presumem os liberais-pragmáticos, trará ganhos eleitorais, porque retirará à direita o estigma do conservadorismo social e colocá-la-á ao serviço de um projecto de prosperidade que pode ser perfilhado por todos. Creio que estão equivocados. Por um lado, se há lição que a direita pode retirar da sua mais recente experiência governativa é que as divergências económicas podem ser bem mais profundas do que os diferendos sociais. Por outro, o eleitorado de direita não se entusiasma excessivamente com discursos económicos e tecnocráticos.

O liberal-pragmatismo poderá convencer parte das classes médias urbanas. Talvez seja sedutor para muitos empresários e trabalhadores autónomos. Sê-lo-á certamente para o comentariado político à direita do PS que é, na sua larga maioria, convictamente liberal. Não parece, porém, um denominador comum suficientemente forte para reunir a ampla coligação de eleitores que pode dar a vitória à direita. PSD e CDS precisam de mobilizar mais os votantes urbanos, mas não podem alienar o eleitorado rural, agrícola, conservador e católico que, no Norte e no Interior do País, elege mais de metade dos seus deputados. E, se quiserem recuperar a maioria absoluta, têm de voltar a ter discurso para os pensionistas, os professores, as forças de segurança, os pequenos retalhistas e os jovens, entre os quais a esquerda vai abrindo caminho.

Se a direita pretende crescer e vencer, precisa de reconstruir o mosaico eleitoral que a tem suportado ao longo das últimas décadas. Um mosaico que inclui liberais, mas não se limita a eles. O projecto do liberal-pragmatismo é estruturalmente distinto: desvalorizando o debate ideológico, pretende amputar a direita de elementos importantes da sua tradição política. O liberal-pragmatismo não soma, apenas divide. Se reduzida a ele, a direita perde instrumentos de debate e fica mais curta. E, até ver, mais aborrecida.

Estudante de Ciência Política, 21 anos