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“Lá tem de ser, não é?”, diz-me o Sr. Alves sempre que lhe peço um café. A princípio, o “lá tem de ser” (LTDS) causou-me estranheza, confesso. Por que raio tomar um café haveria de ser sinal de submissão voluntária a forças obscuras que me comandam ou de uma fraqueza de vontade que me impede de verdadeiramente tomar uma decisão como mandam as regras, por minha conta e risco? Mas, a pouco e pouco, compreendi que o LTDS é o modo que o Sr. Alves descobriu para exprimir o elo social que nos governa, o destino comum que nos une, como portugueses, neste mundo estranho, mesmo a propósito do insignificante gesto de tomar um café. Se tal maneira de ver as coisas não é excessiva ou puxada pelos cabelos, o LTDS é um modo de dar sentido ao mundo, de o tornar afim de nós mesmos, e, apesar da sua estranheza, tolerável e aceitável, porque obedecendo a uma necessidade da qual participamos, uma espécie de QED dos pobres.

Forte desta hipótese sociológica, resolvi aplicá-la ao dia-a-dia, para a testar de modo científico, através de experiências não só frutuosas como luminosas, para falar como um distinto espírito do passado. Imaginemos, por exemplo, uma viagem de táxi. Há séculos que nenhum taxista me diz que “isto só vai lá com um Salazar”. Não sou suficientemente conservador para lamentar a perda de uma tradição na qual cresci e que era um ritual obrigatório em tempos passados. Mas constato que uma nova fórmula se tornou a regra da proverbial conversa de taxista, transcendendo, de resto, o espaço circunscrito desse transporte público e tornando-se, como neotaxismo, uma marca da comunicação social. Estou obviamente a falar das “alterações climáticas”. Não há viagem de táxi que não comporte um “momento clima”. Isto não é nada como dantes. Chove no Verão e faz calor no Inverno, e a culpa é do que andamos a fazer ao planeta. Já não há frio em Janeiro, já não há calor em Agosto. O mar sobe todos os dias. O senhor é que já não se lembra. Havia de ver a diferença na aldeia onde nasci. E por aí adiante. Tenho por regra nunca discordar de um taxista, mesmo que defenda que as mulheres não deviam conduzir ou que os drogados deviam ser todos enforcados. Ouço com paciência. LTDS.

Abramos um jornal. O danado do Trump lá fez das suas. Às vezes é só ridículo, extraordinariamente ridículo, inconcebivelmente ridículo. Mais ainda que todos os outros presidentes dos Estados Unidos, que, com a excepção de Obama e do longínquo Kennedy, sempre foram ridículos. Não tarda muito ainda o vamos ver a dar uma entrevista enquanto muda de roupa numa praia. Já nada me espanta. Mas outras vezes é pura e simplesmente mau. Mau? Péssimo. É verdade que todos os outros presidentes dos Estados Unidos sempre foram, excluindo os atrás mencionados, inenarravelmente péssimos. Mas este é ainda mais péssimo do que os outros, ainda mais cruel e ignorante. E está a destruir os Estados Unidos, que sempre amamos do fundo do coração como a grande esperança e o farol do mundo, está a roubar-nos o nosso imaginário. Impeachment já, em bom português. Haviam de pôr lá à frente o Guterres ou o Costa. Isso sim, são políticos com consciência. E habilidade. Gente boa. Multilaterais natos. Desde pequeninos que são multilaterais. Aliás, a multilateralidade está no sangue – quero dizer: no ADN – dos portugueses. Vale a pena discutir tão imensa sabedoria? É claro que não. Não é para discutir. LTDS.

Liguemos uma televisão. O populismo está por todo o lado. Até há pouco tempo só Portugal escapava, mas agora temos aquele gajo do Benfica, o Ventura. Aqui o problema apresenta duas vertentes: a vertente-Benfica e a vertente-populismo propriamente dita. Comecemos pela primeira. Ela resolve-se pela demarcação. O probo presidente do Benfica tem de se demarcar do populismo, mostrar que o Benfica não é isso. É, aliás, o contrário, restando apenas demonstrar cabalmente qual o exacto avesso do populismo (a “verdade desportiva”?). A vertente-populismo é mais complexa e não apresenta uma tão expedita solução, até porque representa a infiltração na nossa até agora tranquila nação de um movimento internacional cujo epicentro é a Casa Branca, lugar de quotidiana peregrinação mental da direita radical. Nada na nação portuguesa, bem entendido, explica que haja gente que vote em André Ventura. Não somos nós governados pelo jurado inimigo de toda e qualquer discriminação que dá pelo nome de António Costa? Não está ele, diligente e seguro, a construir um novo mundo de igualdade entre os portugueses, como se todos fossemos uma família fraterna e unida? Pode-se discordar? Não vale a pena. LTDS.

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Ou, se calhar, vale a pena. Uma teoria poderosa tem vindo a ganhar corpo, prenhe de futuro. Os portugueses brancos são sistemicamente racistas. E quanto menos racistas se julgam, mais racistas são. Porquê? Porque são os que mais recalcam a sua culpa ancestral. Não só toda a nossa história o prova, como o prova igualmente, com assustadora regularidade, quem supõe que a relação com as partes doentes do passado não deve ser encarada como se estas constituíssem um eterno presente, rebelde a qualquer distanciação, como se não houvesse progresso, por mais incompleto e artificial que seja, no entendimento da igualdade dos seres humanos. Quem acredita que tal progresso existe exibe o mais acabado racismo, na medida em que procura uma escapatória para a culpa imemorial que nos define. Poder-se-ia argumentar que ninguém, e muito menos uma comunidade política, se compõe de uma essência única e imutável. Mas terá alguma utilidade? Parece ser uma perda de tempo. LTDS.

Mais do que a convicção da verdade de um juízo sobre as coisas, do resultado de uma demonstração, o LTDS exprime a aceitação indiferente da opinião dominante dos tempos, como se de uma fatalidade se tratasse, uma fatalidade que nos reúne uns aos outros num movimento comum. O elo social fortifica-se na aparência. As opiniões são partilhadas por uma prudente conveniência que evita o risco da dissensão, do NTDS, do “Não tem de ser”, que traz consigo o conflito dos sentidos que fazemos do mundo. Para haver NTDS é necessário supormos que a boa comunidade não se faz de uma harmonia mais consentida do que promovida, mais passiva do que activa, mais impingida do que reflectida. Mas não parece que desejemos muito essa boa comunidade activa e reflectida. Portugal, é verdade, sempre foi muito LTDS. Hoje em dia é praticamente só LTDS.