A 15 de Fevereiro de 1989, a União Soviética terminava a retirada das suas tropas do Afeganistão. Trinta anos depois, o Presidente russo, Vladimir Putin, condecora com a medalha de Herói da Rússia o oficial soviético que conseguiu capturar pela primeira vez um “Stringer” norte-americano aos guerrilheiros afegãos.

“Por heroísmo, coragem e ousadia, revelados durante a realização de tarefas especiais em condições com risco para a própria vida”, lê-se no texto assinado por Putin.

Segundo o documento divulgado pela agência noticiosa RIA, o oficial condecorado, Vladimir Kovtun, conseguiu apoderar-se da arma norte-americana “Stringer”, “o que permitiu aos cientistas soviéticos obterem uma amostra do lança mísseis ocidental”.

Efectivamente, esse míssil terra-ar foi muito importante para desequilibrar as operações militares a favor dos guerrilheiros afegãos. Os Estados Unidos forneceram-lhes centenas de “Stringer” que permitiram à resistência afegã, por exemplo, abater cerca de 270 aviões e helicópteros entre Outubro de 1986 e Setembro do ano seguinte.

Mas porque é que este “herói soviético” teve de esperar trinta anos para receber a condecoração das mãos de Vladimir Putin?

A resposta é simples: a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão foi ordenada por Mikhail Gorbatchov, político que teve a coragem de pôr fim a uma das guerras que mais contribuiu para o fim da União Soviética. Durante o período da presidência de Boris Ieltsin e parte da presidência de Vladimir Putin, as autoridades russas consideravam a invasão do Afeganistão um erro, mas os ventos políticos e ideológicos mudaram e o que, ontem, era uma “invasão”, hoje considera-se “a primeira grande operação contra o fundamentalismo islâmico”. Claro que se deixou de equacionar, pelo menos, se foi a invasão soviética que despertou o fundamentalismo islâmico.

Para os actuais dirigentes russos a invasão soviética do Afeganistão passa a ser mais uma das “missões libertadoras” realizadas pelas forças armadas russas. Como dizem alguns dos ideólogos russos, a Rússia/URSS/Rússia nunca começou nenhuma guerra, tendo sido sempre alvo de agressão.

Vladimir Putin colocou o seu país numa situação difícil, a sua popularidade cai mesmo depois de se alterar o método de elaboração de estatísticas para que a estagnação económica se transforme em “crescimento”. Os “amigos de Putin” concentram nas suas mãos a riqueza nacional, fazendo da Rússia uma “coutada feudal”, enquanto que os pobres são cada vez mais.

Nesta situação, as elites “intelectuais” tentam forjar apressadamente teorias para criarem uma realidade virtual. Recentemente, Vladislav Surkov, considerado um dos principais ideólogos do Kremlin, apresentou mais uma receita para o futuro do país.

Comecemos pela periodização que Surkov faz da História da Rússia: “A história russa conhece quatro modelos fundamentais de Estado, que podem ser convencionalmente chamados pelos nomes dos seus criadores: o Estado de Ivan III… o Estado de Pedro o Grande… o Estado de Lenine… e o Estado de Putin”.

Aqui faria uma nota para dizer que talvez Surkov não tenha escrito Estaline no lugar de Lenine por ainda ter algum receio de aliar o seu “dono” a uma figura tão odiosa, mas não se pode excluir que o faça já no próximo tratado. Afinal, Lenine foi o “pai” ideológico e prático de Estaline.

Segundo ele, “Criadas por pessoas de “longa vontade”, se recorrermos à expressão de Gumilov, essas grandes máquinas políticas, substituindo-se umas às outras, sofrendo obras e adaptando-se, garantiram, século após século, ao mundo russo um forte movimento ascendente”.

Quando muitos consideram que o “putinismo”, enquanto programa político para a Rússia está esgotado, Surkov defende: “A grande máquina política de Putin apenas começa a aumentar as rotações e aponta para um trabalho longo, difícil e interessante. Só muito tempo depois ela trabalhará à força máxima, porque, dentro de muitos anos, a Rússia ainda será o Estado de Putin”.

Escusado será dizer que este “Estado de Putin” é apresentado como algo exclusivo e extremamente atraente para o Ocidente em decadência.

O conhecido politólogo russo Gleb Kuznetsov comentou assim esta “pérola” do pensamento político russo: “Um documento aceitável para o primeiro terço do século XX. Então havia numerosas discussões entre adeptos do corporativismo, do nacional-socialismo, do sindicalismo e do fascismo italiano clássico. Por exemplo, o professor Salazar, que não só levou à prática o corporativismo, mas foi também um seu profundo teórico com forte educação católica, olharia para esse texto de forma bastante crítica”.

Voltando ao tema da invasão do Afeganistão, recomendo a leitura do livro “Rapazes de Zinco” de Svetlana Alexijevich. Tenho a certeza de que Putin não leu esse livro.