Já nos habituámos a que os regimes totalitários tendem a esconder as verdadeiras dimensões das tragédias, mas mais grave ainda é quando os seus sucessores mantêm a mesma narrativa histórica com fins claramente políticos e propagandísticos.

Normalmente, nas vésperas do dia 9 de Maio, dia em que a Rússia celebra a vitória do Exército Vermelho sobre o nazismo alemão, uma das discussões centrais rodam à volta do preço pago pelos povos da União Soviética no maior confronto militar da história da humanidade.

Este ano não foi excepção. Nikolai Zemtsov, deputado da Duma Estatal (Câmara Baixa) do Parlamento Russo, apresentou o relatório “Base Documental do Projecto Popular “Destino dos defensores da Pátria desaparecidos”, onde se afirma, entre outras coisas, que, na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), morreram 41 milhões e 979 mil soviéticos, sendo cerca de 13 milhões de soldados e 29 milhões de civis.

Ou seja, estes números são incomparavelmente muito superiores aos números até hoje reconhecidos pelas autoridades soviéticas e, depois, pelas russas. O ditador José Estaline, para não ficar mal na fotografia, decidiu que a grande guerra ceifou a vida a sete milhões de soviéticos. Desse modo, as perdas soviéticas seriam menos do que as alemãs (7,5 milhões). O seu sucessor Nikita Khruschov subiu o número para 20 milhões e Mikhail Gorbatchov para 27 milhões.

Esta enorme disparidade obriga a lançar um novo olhar sobre a forma como os dirigentes comunistas soviéticos conduziram a guerra. Este número vem reforçar a ideia de que afinal Estaline assinou com Hitler o Pacto Molotov-Ribbentrop não para ganhar tempo, mas tinha outros objectivos. Se quisesse ganhar tempo, por exemplo, entre Junho e Dezembro de 1941 não teriam morrido mais de três milhões de soldados do Exército Vermelho.

A União Soviética sofreu baixas tão pesadas que alguns historiadores defendem a tese de que, quando os nazis chegaram às portas de Moscovo, o ditador soviético teria entrado em contacto com Adolf Hitler para iniciar conversações, o que foi rejeitado pelo seu homólogo nazi, porque está convencido de que tinha a vitória “no papo”.

Mais, a revelação destes novos dados não veem dar força à tese de que Estaline e os seus marechais afogavam com os cadáveres dos soldados e civis soviéticos as linhas de fogo alemãs, sem poupar vidas humanas?

Há muito tempo que estas e outras questões já poderiam estar esclarecidas, mas a actual direcção russa faz grandes esforços para impedir que se conheça a verdade histórica. O Presidente Vladimir Putin, em nome da segurança nacional, impediu o acesso aos arquivos dos serviços secretos russos entre 1917 e 1991 até ao ano de 2040. Só em relação a determinadas matérias é que são revelados alguns documentos, geralmente, para basear as teses oficiais. Não há dúvidas de que a publicação de outros documentos, mesmo que escritos há cem anos, no caso da revolução comunista de 1917, ou há 74 anos atrás, no caso da Segunda Guerra Mundial, iria obrigar à revisão de muitas páginas da história. Para já não falar de documentos posteriores.

Se os portugueses estiverem com sorte, só talvez lá para o centenário do 25 de Abril conhecerão os documentos do arquivo da PIDE que o KGB e o PCP levaram para Moscovo.

Entretanto, na Rússia, a onda de reabilitação de Estaline continua. Ao mesmo tempo que Putin condena os crimes cometidos pelo carrasco vermelho, aumenta o número de bustos do ditador erigidos em várias regiões da Rússia. Claro que a iniciativa não parte do Kremlin, pois isso seria vergonhoso demais, mas do Partido Comunista da Federação da Rússia, força nacional-comunista que mantém excelentes relações com o Partido Comunista Português.

As vítimas do nazismo e do comunismo não merecem isto.