Primeiro, os militantes do Bloco de Esquerda bateram-se por tornar a violência doméstica em crime público. Depois, os militantes do Bloco de Esquerda bateram-se. Só.

Na semana passada, Catarina Alves, ex-militante do BE e ex-namorada do deputado bloquista Luís Monteiro, acusou-o de violência doméstica. Em sua defesa, Luís Monteiro emitiu um comunicado em que nega essa alegação e acusa Catarina Alves de o ter agredido a ele. Segundo o próprio, durante o namoro foi “vítima de agressões sucessivas, violência verbal, ameaças”, num processo do qual não saiu “ileso”. Luís Monteiro defende-se melhor com palavras do que com as mãos: ao que tudo indica, desta situação vai mesmo conseguir sair ileso. É que, até ao momento, o Bloco de Esquerda ainda não o expulsou do partido.

E bem. Antes de decidir o que quer que seja, há que avaliar. Essa é a atitude normal em qualquer organização: esperar para saber mais e só então agir. Sucede que não é a atitude normal em organizações que, em casos que envolvam qualquer tipo de violência numa relação, postulam que quem se queixa tem sempre, sempre razão. Como o Bloco de Esquerda, que ergue como bandeira a crença automática na mulher em denúncias de assédio sexual e de violência doméstica. Com excepção nos casos em que o militante chega a casa e, em vez de pousar a bandeira, usa-a para dar com ela na namorada.

Ou seja, se o Bloco agisse neste caso como exige que toda a gente aja em casos semelhantes, teria acreditado instantaneamente em Catarina Alves e Luís Monteiro não teria direito a presunção de inocência. No entanto, para surpresa de todos os que contam com a sua irrepreensível postura ética, o Bloco, qual Frei Tomás woke, não cumpriu com o que prega. Quem diria? A sonsice do BE só tem comparação com a minha, quando finjo surpresa por um partido moralista ser apanhado a violar os seus impecáveis princípios. O Bloco só não assobia para o lado porque tem medo que o assobio seja entendido como piropo. Hipocrisia, sim; sexismo é que não!

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Luís Monteiro tem sorte em ser do Bloco. Se fosse um mero civil, nem o seu comunicado escapava ao olhar arguto dos justiceiros sociais. Era escangalhado de alto a baixo. Numa primeira leitura, pode parecer um texto normal. Porém, aplicando a grelha de análise que rege o activismo do Bloco, encontram-se várias abominações.

Mesmo eu, que não sou um especialista, consigo detectar várias ofensas graves. Para começar, mansplaining. Essa é fácil. Temos um homem-branco-cis-hétero (penso que a ordem dos factores não altera a idiotice da definição) a explicar coisas. Isso é uma gafe progressista. A seguir, temos gaslighting, na medida em que Luís Monteiro aproveita o estado de fragilidade da vítima para baralhá-la e procurar fazê-la questionar as suas memórias. Depois, quando Luís Monteiro diz “lamento profundamente (…) pela Catarina Alves e porque admito que seja um problema que ela não domina”, está a sugerir que, devido ao transtorno bipolar de que ela sofre, não sabe o que anda a dizer. Julgo que se trata de capacitismo, a discriminação e o preconceito social contra pessoas com alguma deficiência. Finalmente, ao dizer que não saiu ileso das agressões, Luís Monteiro insinua que não se conseguiu defender contra uma rapariga, o que indicia que ela é maior e mais forte que ele. Óbvio fat shaming.

Parecia mesmo que #MeToo tinha chegado a Portugal, mas afinal foi falsa partida. E, como o Bloco parece acreditar, também uma partida falsa, no sentido de a vítima estar a ser falsa ao dizer que ficou toda partida.