Dizem que a Pérsia inventou o suspense. “As 1001 Noites” começam quando Xariar descobre que a rainha o traíra com um escravo. Louco, o rei manda matá-los a ambos e determina que, dali em diante, nunca mais será enganado por mulher alguma. Casará com uma nova todos os dias, dormirá com ela nessa noite e matá-la-á na manhã seguinte. E assim sucede, de casamento em casamento e de crime em crime – até chegar a vez de Xerazade.

Tragicamente ciente do destino que a esperava, a jovem recorre a um poder inesperado: depois de partilharem o leito de núpcias, começa a contar uma história ao rei, de modo tão envolvente que, ao nascer-do-sol, estava o drama enredado no auge e o desfecho inteiramente em aberto. Xariar caía de sono, mas não podia matar a mulher sem saber como acabava a história. Então, decide que lhe pouparia a vida, que descansariam, ela terminaria a história no dia seguinte e, então, se voltaria ao plano original. Mas, na outra noite, Xerazade repetiu a magia: começou uma nova história, que levou até ao pico do suspense e deixou ao nascer-do-sol no gancho que prendia o rei à sufocante curiosidade pelo desenlace. E assim, noite após noite, após noite, após noite, conto após conto, Xerazade salvou a vida.

Todas as culturas são fundadas sobre histórias, mas talvez nenhuma como a persa reconheça de tal forma o seu tremendo poder. A história do Portugal-Irão do Mundial de 2018 não teve o encantamento d’ “As 1001 Noites”, mas não lhe faltou suspense. E teve tiques de “Pulp Fiction”, que é uma fantástica demonstração contemporânea e ocidental do poder das histórias em mosaico.

Tal como na antiga Pérsia, tudo começou de véspera e com alguém que não nos deixava dormir (e se a nossa equipa é boa a fazer dormir) – não foi pelas histórias; foi pelo barulho que os iranianos foram fazer para a porta do hotel da selecção portuguesa. Seguiu-se aquela bonita primeira meia hora de jogo – ou, como também lhe podemos chamar, o casamento –; depois, veio alguma turbulência e o golo de Quaresma – o amor, no fundo; o romance. Mas, a partir daí, o Irão tinha de fazer pela vida, e então começaram os golpes de suspense… É penalty sobre o Ronaldo ou não é? É. O Ronaldo vai marcar e isto vai ser uma vitória tranquila? Não vai. O Ronaldo vai para a rua ou não vai? Não vai. Espanha perde e fica em segundo? Não fica. É mão do Cédric ou não é? É. O jogo acaba ou não acaba? Não acaba. Nunca mais acaba. Até que lá acaba.

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