O debate político em Portugal conhece por vezes momentos da mais pura hipocrisia. Recentemente, assistiu-se a um desses momentos quando muitos colocaram o CDS e os Verdes no mesmo patamar, a propósito dos debates televisivos durante a campanha eleitoral. Todos sabem que são completamente diferentes, mas quase ninguém o disse. Mais uma vez, em nome de interesses imediatos – impedir a participação do líder do CDS nos debates televisivos – mostrou-se uma enorme falta de respeito pela história da democracia portuguesa.

O CDS desempenhou um papel central na história política portuguesa desde o 25 de Abril. Começou por impedir que o sistema político estivesse completamente desequilibrado para a esquerda. Participou na Aliança Democrática que deu a primeira maioria absoluta ao centro- direita em Portugal. A sua dimensão democrata-cristã permitiu que se aliasse ao Partido Socialista, ainda antes de ter percebido qual era o lado certo para se aliar (e até agora ainda não mudou; apesar dos apelos do Presidente da Câmara de Sintra). Fez, depois, a travessia do deserto durante os anos das maiorias de Cavaco Silva. Sobreviveu ainda à deriva PP de Manuel Monteiro. Conheceu momentos infelizes, como o da AD dos desencontros e das confusões culinárias entre Rebelo de Sousa e Portas.

Mas resistiu e voltou ao governo por duas vezes, primeiro com Durão Barroso como Primeiro Ministro e depois com a actual coligação; a primeira a concluir uma legislatura desde o 25 de Abril. Mais importante, contribuiu para a estabilidade política e para a recuperação da economia durante a maior crise nacional desde a adesão à Comunidade Europeia. E por isso, os sues dirigentes tomaram a decisão óbvia: manter a coligação. O CDS não faz parte do grupo muito restrito dos dois maiores partidos portugueses, mas tem um percurso digno – tendo desempenhado um papel relevante em momentos centrais da vida da democracia em Portugal – e que deverá orgulhar os seus militantes.

Quanto aos Verdes, não passam de uma farsa política. Não concorrem sozinhos às eleições, mas sim como um satélite do Partido Comunista. No Parlamento, não mostram uma vida própria nem qualquer autonomia em relação aos comunistas. Só a elevada tolerância em relação a alguns abusos da extrema esquerda é que permite chamar-se à CDU uma aliança dentre dois partidos. A diferença entre o CDS e os Verdes é como a distância que separa um partido com uma história própria de um apêndice do Partido Comunista sem história e sem autonomia. A comparação entre os dois constitui uma ofensa à democracia portuguesa.

Além disso, também não se pode comparar Paulo Portas a Heloísa Apolónia. A “líder” dos Verdes não tem existência política autónoma. Portas está entre os cinco políticos no “activo” mais importantes hoje em Portugal. E só três deles concorrem às eleições – Passos Coelho, António Costa e Portas – os outros estão em Belém (Cavaco) e em Évora (Sócrates, embora não seja um preso político, é um político profissional na prisão).

Em 2013, Portas cometeu o maior erro da sua vida política, quando se “demitiu” do governo de um modo completamente absurdo. Na altura, foi o CDS que o salvou, salvando-se também a si. Quase por milagre, Passos e Portas reconstruíram a sua relação política e hoje concorrem juntos às eleições. E o líder do CDS será muito importante para a campanha. Tem um discurso articulado e simples sobre o que se passou nos últimos quatro anos. Tem igualmente ideias claras e organizadas sobre as mensagens para o futuro. Por fim, goza de uma experiência política única entre os líderes partidários. De todos, foi o que mais vezes concorreu como líder partidário a eleições legislativas. Esta será a sua sexta campanha como líder (a quarta para Jerónimo de Sousa, a segunda para Passos Coelho e a primeira para António Costa). Numa eleição em que a campanha será absolutamente decisiva, a experiência e o talento oratórios de Portas serão muito importantes. Este é um daqueles momentos em que será melhor estar ao seu lado, do que contra ele, como muito bem percebeu o Primeiro Ministro.