Lamento desapontar os mais excitados, mas as revelações do Luanda Leaks não chegam sequer a ser a ponta do iceberg dos esquemas que permitiram o colossal enriquecimento de Isabel dos Santos, a filha do antigo Presidente de Angola. E Isabel dos Santos não é senão o rosto mais visível, mais exposto, da galáxia de ladrões que sugaram as riquezas de Angola durante as últimas décadas sob a supervisão do regime cleptocrático de José Eduardo dos Santos. E aqueles nomes portugueses que têm aparecido nas notícias, porque são os mais directamente envolvidos nos esquemas do Luanda Leaks, são apenas os colaboradores directos, e subordinados, de Isabel dos Santos – para chegar onde chegou ela contou com a colaboração, a cumplicidade, a venalidade ou então a mais vulgar cobardia de muito mais gente, e gente muito mais importante. Se esquecermos isto tudo estamos a esquecer o que é realmente importante.

Há algumas coisas que temos de ter bem presente, para não nos enganarmos a nós próprios – e para vergonha nossa, que tolerámos o que tolerámos.

Primeiro que tudo, que a natureza cleptocrata do regime de Luanda é do conhecimento público há muito, muito tempo. A natureza corrupta do poder instalado no Futungo de Belas – a sede da Presidência da República de Angola – não era segredo para ninguém desde muito cedo, mas em Dezembro de 1999 uma organização internacional, a Global Witness, divulgou uma investigação sobre a forma como funcionava um esquema de triangulação que envolvia directamente a presidência angolana, as grandes empresas petrolíferas e a banca internacional, e que usava o dinheiro do petróleo e os circuitos da compra de armamento (Angola ainda vivia em guerra civil) para desviar milhares de milhões de dólares. Em Portugal essa investigação foi divulgada pelo Público e por causa disso o jornalista que nela colaborou, Pedro Rosa Mendes, e eu próprio, estivemos anos a contas com a justiça por alegado abuso da liberdade de imprensa. Quanto ao escândalo, ele envolvia o traficante de armas Pierre Falcone (que acabou por ser condenado em França apesar de Angola lhe ter concedido a nacionalidade), um filho de Mitterand e o empresário russo Gaydamak.

Escandalosamente, apenas quatro anos depois, em Dezembro de 2003, José Eduardo dos Santos casava em Luanda a sua filha mais nova, Tchizé, numa festa para a qual só o costureiro português Augustus desenhou 50 vestidos. Não faltaram lagostas, champanhe francês e carne argentina numa mesa servida pelo Ritz de Lisboa para 600 convidados, entre os quais, a “título pessoal”, o então primeiro-ministro de Portugal, Durão Barroso. Considerei na altura a sua presença nessa festa ofensiva para um povo que vivia na miséria “um triste e lamentável gesto político”, mas não me recordo de ter ouvido muito mais protestos.

Entretanto ia decorrendo a ascensão de Isabel dos Santos, que começara em meados da década de 1990 com a concessão da recolha do lixo da cidade de Luanda mas que, por volta de 2007, 2008, já visava muito mais alto. É nessa altura que se trava um braço de ferro pela titularidade do BFA, na época o melhor banco de Angola, e que pertencia ao BPI. No final Luanda acabou por impor a entrada de Isabel dos Santos para o capital desse banco, ao cabo de um processo complexo que envolveu outras guerras em Portugal mas onde nunca por nunca ser Lisboa foi capaz de dizer a Luanda que não tinha que se meter com o nosso sistema financeiro. Mas era apenas o começo, como se veria mais tarde.

A submissão de Lisboa a Luanda nunca deixou de conhecer novas etapas, algumas delas potenciadas pelas dificuldades sentidas por Portugal nos anos da bancarrota, mas não nos devemos, de novo, iludir: o dinheiro angolano já cá estava antes e continuou cá depois, os amigos de Angola já por cá andavam e nunca se incomodaram muito com saber de onde vinham realmente tantos milhões.

Pior do que isso: momentos houve em que em nome das relações bilaterais se violou a liberdade de informação em Portugal ou em nome da lusofonia se defendeu a bondade de ter Isabel dos Santos a dominar as grandes empresas portuguesas. Eu recordo os desmemoriados com dois singelos casos, entre muitos outros.

O primeiro caso envolveu novamente o jornalista Pedro Rosa Mendes, que foi sumariamente despedido da Antena 1, a rádio pública, em Janeiro de 2012, depois de ter criticado numa crónica uma emissão especial do “Prós e Contras”: “A nossa televisão foi a Luanda socializar com os apparatchiks do regime”, disse aquele jornalista antes de retratar impiedosamente a oligarquia de Eduardo dos Santos e de criticar a “subserviência” da emissão da RTP. O seu destino foi o olho da rua. O ministro da tutela era na altura Miguel Relvas, para que conste.

O segundo caso é mais recente, Novembro de 2014, e remete para os comentários televisivos do actual Presidente da República por altura da compra da PT pelos franceses da Altice. Para ele a boa compradora era Isabel dos Santos, tudo porque ele “prefere lusófonos  a não lusófonos, que eu não sei quem são”. Que os lusófonos representem o topo de uma cleptocracia que condenou à miséria um país como Angola aparentemente não o incomodava, assim como não o parecia perturbar a origem do dinheiro.

Nessa altura já ninguém podia dizer que não sabia de nada. Mais de um ano antes a Forbes tinha publicado a sua famosa investigação sobre a origem da fortuna de Isabel dos Santos, um trabalho em que Rafael Marques colaborara.

Alturas houve em que me interroguei se a nossa capital já era Luanda, outras em que perguntei porque é que Portugal não se dá ao respeito com Angola. Nunca tive boas respostas. E a debandada a que hoje assisto também não é resposta: é tratar de salvar os trapos enquanto se trata de perceber se, lá para os lados de Luanda, o que está a acontecer é mesmo uma limpeza geral ou apenas a limpeza dos estábulos do anterior ocupante do Futungo de Belas.

O que acontecer a Manuel Vicente – o antigo vice-presidente que tinha um processo em Portugal, que criou o “irritante”, que acabou por ver o seu dossier transferido para Luanda e colocado a descansar no fundo de uma gaveta, pelo menos até ver – permitirá aferir até que ponto João Lourenço quer ir mesmo a fundo no combate à corrupção.

Até lá o que continuamos a ter é aquele país que, de acordo como o que julgo ser um velha lenda angolana, estava naquele local onde Deus, depois de distribuir pela Terra as diferentes riquezas, ficou com uma mão cheia delas que já não sabia onde colocar. Deixou-as então cair sobre Angola, generosamente.

Só que esse país, apesar dos diamantes, do petróleo, do urânio, do ouro, dos fosfatos, do cobre e do ferro, continua a ser um país cujo povo, mesmo depois de um período de rápido desenvolvimento económico, vive mergulhado numa imensa e teimosa pobreza.

Sendo que, ao mesmo tempo, o dinheiro angolano não deixou de circular pelos bolsos de muitos portugueses. É bom também não esquecermos que, ao longo dos anos, ele não serviu só para conseguir posições em grandes empresas (no sector bancário, nas telecomunicações, na energia), para comprar apartamentos milionários na baía da Cascais ou para fazer a felicidade das lojas de luxo da lisboeta Avenida da Liberdade – ele também serviu para comprar posições na comunicação social portuguesa.

Isabel dos Santos era a “princesa de Angola”, mas o regime tinha muitos cortesãos. Que continuam por aí.