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Negacionismo é não reconhecer como verdadeiro um facto ou um conceito que pode ser verificado empiricamente.

Estupidez é fazer algo que nos prejudica a nós próprios e aos outros também, não beneficiando a ninguém.

Ao longo destes muitos meses de pandemia, tenho publicamente exposto as minhas opiniões sobre a mesma, quer na imprensa, quer em canais de internet, quer em revistas científicas.

E já me aconteceu muita coisa.

Já fui objecto de processos disciplinares, quer no meu hospital, quer na Ordem dos Médicos, fui impedido de trabalhar durante duas semanas por me recusar ser testado para o SARS-CoV-2, fui interpelado na rua por não usar máscara, entre outros acontecimentos discriminatórios variados.

E, claro, devo ter sido amplamente vilipendiado por essas redes sociais fora, redes às quais não pertenço, vivendo assim em quase total ignorância desses insultos.

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Mesmo assim, sei que um dos epítetos que repetidamente me aplicam é o de ser “negacionista”. Ora eu tenho lido notícias variadas sobre “negacionistas”, desde médicos, a juízes, passando por políticos e personagens do cinema e televisão. E tenho observado felicidade e gáudio de cada vez que algum destes “negacionistas” é atacado, processado disciplinarmente, fica doente, ou falece mesmo, com Covid-19.

Só que estes “negacionistas” são muito diversos, sendo que alguns negam sequer que exista o vírus SARS-CoV-2, ou (existindo o vírus) que haja uma pandemia, outros afirmam que o vírus foi produzido propositadamente por alguém, ou pelo Bill Gates para dar razão à sua famosa TED Talk, ou pela China, ou pelos Estados Unidos para culpar a China, e outros ainda consideram que tudo não passa de um esquema para nos vacinar a todos com chips que irão controlar tudo o que fazemos. Mas o denominador comum a todos os chamados “negacionistas” é a sua oposição às medidas impostas a todos nós, em nome do combate à Covid-19.

Será que esta oposição às medidas é negacionismo, ou serão as medidas uma estupidez?

Eu sou contra a imposição destas medidas de combate à pandemia. Considero que são muito mais prejudiciais do que benéficas.

É que este balanço entre os malefícios e benefícios das medidas depende da quantificação de cada um dos pratos. E não comecem já a bater-me e a dizer que uma vida não tem preço e que evitar mortes, mesmo que de pessoas perto do seu final de vida, vale mais do que qualquer valor do PIB ou do desemprego, ou liberdade individual de cada um. Esperem e ouçam (leiam) o que tenho para dizer.

Os malefícios das medidas não são só económicos, que esses começaram logo a manifestar-se, continuam a mostrar-se e a sua total dimensão é até algo de imprevisível no futuro próximo. Desemprego, falências, encerramentos, perdas de rendimentos e de riqueza das nações, tudo  são consequências económicas negativas, evidentes e expectáveis, e por enquanto ainda disfarçadas por medidas temporárias (como moratórias e lay-offs). Malefícios económicos.

Mas houve e há e vai haver também malefícios na saúde, quer de doenças não diagnosticadas, não acompanhadas ou não tratadas (devido ao direccionar prioritário dos recursos de saúde para a pandemia), mas também de doença mental, provocada ou agravada pelas próprias medidas.

Por isso, o balanço entre malefícios e benefícios das medidas não é simplesmente a economia versus a saúde, mas sim algo de mais complexo e em que a saúde potencialmente ganha num dos pratos da balança é também potencialmente perdida no outro.

Mas, para além dos malefícios das medidas, mesmo o seu benefício é alvo de dúvida e discussão.

Negacionismo?

Eu nego, e sempre neguei, as múltiplas sugestões/recomendações que agora são já quase unanimemente consideradas ridículas, e referidas com sorrisos e encolher de ombros, mas  que foram previamente levadas a sério e religiosamente cumpridas. Como deixar sempre as compras à porta de casa, desinfectá-las e só lhes mexer passados três dias. Ou privilegiar as relações sexuais ao ar livre, de preferência sozinho ou usando máscara. Ou chegar a casa e imediatamente ficar descalço, despir a roupa que logo se põe para lavar, e tomar um banho antes de tocar em qualquer coisa. E evitar tocar em corrimãos, maçanetas, botões de elevador e só o fazer com recurso a lenços de papel ou a um qualquer objecto, e desinfectar as mãos sempre que isso acontecer. Ou a obrigatoriedade de colocar sacos de plástico nos pés antes de experimentar calçado nas lojas.

Nem vale a pena falar sobre o número, legalmente limitado, de pessoas com que nos podemos sentar à mesa, ou então as setas que no chão nos obrigam seguir por um caminho e não outro, para não nos cruzarmos com alguém. Qual a evidência científica sobre a utilidade real destas medidas? E porque são seis pessoas à mesa, e não cinco ou sete, ou duas apenas, ou então vinte e oito? Quem terão sido as pessoas que um dia, sentadas numa mesa de reuniões num gabinete qualquer, optaram por este número que depois foi imposto a um país inteiro?

Somos capazes agora de rir e gozar com tudo isto. Mas será que o faremos também, daqui a algum tempo, com as outras medidas que os “negacionistas” refutam?

Nego e sempre neguei o uso obrigatório de equipamentos individuais de protecção, tipo “fatos de astronauta” utilizados no vírus Ebola (que se transmite por contacto directo e não pelo ar) e sem qualquer evidência ou sentido perante um vírus respiratório, e que impediram a correcta avaliação dos doentes, a sua auscultação, o contacto humano com eles, e causaram uma enorme ineficiência por tornarem toda a actividade médica e de enfermagem muito mais pesada e lenta. Quantos doentes terão morrido desnecessariamente devido ao uso destes equipamentos excessivos?

O uso destes “fatos de astronauta” teve também uma enorme contribuição para o terror generalizado que se espalhou, quer entre a população em geral, quer entre os doentes e os próprios profissionais de saúde. É realmente assustador vermos toda a gente vestida com aquilo.

E nem me vou alongar em relação a recomendações, vazias de evidência, que levaram a que os doentes Covid fossem tratados de forma diversa de todas as outras doenças respiratórias graves que existiram e existem todos os anos, e que os fizeram ficar mais abandonados, isolados em enfermarias e em quartos de acesso limitado, ser ventilados mais precocemente, ser entubados e extubados de forma diferente.

Sempre me opus à obrigatoriedade do uso generalizado de máscara pela população saudável, no exterior ou em espaços interiores. No início da pandemia, a única situação em que existia alguma evidência (fraca) da utilidade do uso de máscara, era na prestação directa de cuidados a doentes com Covid-19. Várias autoridades de saúde por todo o Mundo afirmaram mesmo a inutilidade do uso generalizado de máscaras pela população. A evolução subsequente da evidência científica não alterou de forma significativa o conhecimento nesta área. A própria OMS, numa sua recomendação de Junho, afirma que não existe evidência directa (…) na eficácia do uso generalizado de máscaras por indivíduos saudáveis na comunidade para prevenir a infecção com (…) COVID-19”. Numa actualização de Dezembro, a mesma OMS mantém que “há apenas evidência científica limitada e inconsistente que suporte a eficácia do uso de máscaras por pessoas saudáveis na comunidade para prevenir a infecção por (…) SARS-CoV-2”. Será a OMS negacionista?

À excepção de modelos teóricos hipotéticos e de estudos realizados em condições laboratoriais altamente controladas, os trabalhos feitos em situações de vida real, e que compararam casos de Covid-19 entre pessoas que usavam máscara e as que o não faziam, não encontraram diferença significativa entre elas.

A Alemanha e a Áustria, por exemplo, não obrigam ao uso de máscara no exterior, apenas em espaços interiores, e só aceitam máscaras FFP2, não permitindo o uso de máscaras comunitárias (de pano) ou cirúrgicas. O que será que isto indica em relação à evidência científica sobre a eficácia destas últimas? Estes países, em que o uso de máscara no exterior não é obrigatório, têm bem menos casos acumulados do que Portugal.

Ser contra a obrigatoriedade do uso de máscara é negacionismo, ou é essa imposição que é uma estupidez?

Considerei e continuo a considerar o encerramento de escolas uma das maiores aberrações nesta pandemia. Não é uma recomendação da OMS (pelo contrário, houve várias recomendações da OMS contra essa medida). Desde o início da pandemia que a evidência científica apontava para a ausência de qualquer benefício do encerramento de estabelecimentos de ensino, apesar de tantos e tantos “peritos” clamarem o contrário. Passado mais de um ano, tudo continua a apontar para a inutilidade dessa medida. Na Suécia, que não encerrou escolas, não houve qualquer aumento no número de mortes entre as crianças e a incidência de Covid-19 entre os professores foi menor do que noutras profissões.

Nego e sempre neguei qualquer vantagem da testagem massiva, recomendada pela OMS e repetida por autoridades de saúde, peritos e curiosos por todo o Mundo. Não só não existia qualquer evidência de vantagem dessa estratégia, como a evidência que entretanto surgiu parece não encontrar qualquer efeito valorizável da testagem mais agressiva na evolução dos números da pandemia. Por exemplo, o Reino Unido fez 4x mais testes por milhão de habitantes do que a Alemanha, tendo esta no entanto menos 33% de casos. Noutro exemplo, em Janeiro, o Benfica teve um surto de Covid na sua estrutura de futebol profissional, surto que atingiu 23 dos 28 jogadores (para além de múltiplos elementos da equipa técnica e da direcção), apesar de o clube ter tido uma estratégia intensiva de testagem, com uma média de 83 testes por elemento durante os seis meses prévios. Para além disso, um trabalho científico publicado não encontrou qualquer diferença no número de infecções por SARS-CoV-2 em dois grupos de fuzileiros norte-americanos com diferentes estratégias de testagem.

Nego, e neguei sempre, a utilidade do rastreio de pessoas saudáveis, com vista ao isolamento das que tenham um teste positivo para o SARS-CoV-2, bem como o isolamento dos seus contactos (e, muitas vezes, o isolamento dos contactos dos contactos). Quantas centenas de milhares de portugueses terão sido isolados sem terem doença, e sem nunca terem um teste positivo? A Direcção Geral de Saúde tem seguramente estes dados, registados à custa de um trabalho enorme (e desnecessário) de milhares de profissionais de saúde na plataforma SINAVE. Porque não responde a DGS então à seguinte pergunta: quantos dos “isolamentos profilácticos” realmente isolaram pessoas que vieram a ser positivas? E quantos de nós fomos “isolados” (sequestrados) de forma forçada, e por vezes com recurso a vigilância policial, sem qualquer utilidade? E depois há os danos colaterais desses isolamentos, as turmas sem aulas devido ao isolamento repetido de professores, profissionais de saúde saudáveis fechados em casa semanas a fio, etc…

Sempre achei uma insanidade, no âmbito de um vírus respiratório, mandar toda a população de um País fechar-se em casa, seja qual for a denominação elegante que deem à estratégia, seja “confinamento”, seja “dever cívico de recolhimento domiciliário”. Não existia há um ano, e continua sem existir, qualquer evidência digna desse nome que indique um menor risco de infecção a quem se feche em casa quando comparado com quem respira ar livre em plenos pulmões. Nem nunca isso aconteceu com outros vírus respiratórios, nem nunca fez sentido que assim fosse com este.

Choca-me, e sempre me chocou, a forma como apertar as mãos num cumprimento humano educado desapareceu dos nossos hábitos. Continua a não existir (como nunca existiu) evidência sólida de que o contacto com as mãos, superfícies ou objectos seja uma fonte significativa de transmissão deste ou de outros vírus respiratórios.

Sempre considerei, e continuo a considerar, criminoso impedir as visitas nos lares e hospitais. Ao longo deste ano, os surtos em lares ocorreram na mesma, de forma generalizada, como nos outros países. E morreram na mesma os idosos que teriam que morrer, e sobreviveu a maioria, como em todo o lado. Só que os que morreram fizeram-no sem se despedirem dos seus, e os que sobreviveram ficaram mais tristes e abandonados, muitas vezes sem conseguirem compreender porquê. E perderam mais um ano do (curto) tempo que lhes resta. Sem lhes darem a opção de escolha, nem a eles nem às suas famílias. Tanta gente que morreu e foi enterrada sem a família sequer os poder ver, despedir, fazer o luto! Criminoso.

Confesso que nego que faça sentido impedir a presença do público em eventos desportivos, fazendo depois uma excepção para aqueles que forem organizados por entidades internacionais, e com a presença de público estrangeiro.

E confesso não concordar com as restrições feitas a reuniões presenciais, quer familiares, quer de organizações ou em eventos, abrindo excepções para as que ocorrem em contexto de partidos políticos ou comemorações governamentais ou de entidades do Estado.

Enfim, considero ser uma discriminação intolerável valorizar mais o risco de doença e morte das pessoas perto do seu final de vida, desvalorizando o enorme prejuízo causado aos que se encontram no início e a meio desse trajecto.

E assim negar a cada um de nós a liberdade de fazer as suas escolhas.

Se negacionismo é negar factos comprovados, e estupidez é fazer algo que a todos prejudica, será que sou eu que sou negacionista, ou isto é tudo apenas estupidez?

É que, sabem?, eu não sou conspiracionista, e não acho que estas medidas tenham sido escolhidas e impostas a todos nós graças a planos maquiavélicos para benefício de alguns.

Não. Tudo isto mais não é do que estupidez. Deles, e de todos nós que os seguimos.