A forma optimista de olhar para o que acaba de se passar no Novo Banco é pensar que deus acabou por escrever direito por linhas tortas. Isto é, que depois de mais um crise e mais um susto, a solução encontrada para o banco é melhor do que a anterior. Eduardo Stock da Cunha é um banqueiro com uma experiência que Vítor Bento não tinha, com contactos, inclusive a nível internacional, que Vítor Bento também não possuía, é sobretudo um banqueiro com muitas provas dadas, em Portugal e fora de Portugal. Parece um perfil mais talhado para levar por diante a tarefa de encontrar rapidamente novos donos para o Novo Banco. Basta pensar que vem do Lloyds, um banco que foi intervencionado mas onde tudo está a correr muito bem, e cresceu como banqueiro no Santander.

Mas seria tentar tapar o sol com uma peneira olhar para para mais esta crise apenas, ou sobretudo, com os óculos do optimismo. Porque o que se passou foi grave e não ajudou nada a resolver um problema que, para os portugueses, pode representar uma factura de milhares de milhões de euros. É por isso que não entendo o comportamento dos principais protagonistas.

Comecemos pela equipa de Vítor Bento. É verdade que quando foram convidados a missão era outra. É verdade que estavam ali para um plano a vários anos, não para uma emergência de alguns meses. Mas não foi a semana passada que o souberam. Começaram a sabê-lo quando apresentaram as contas do primeiro semestre e, em vez da “folga” que lhes fora prometida, encontraram um enorme buraco que colocou o banco à beira do colapso. Tiveram a certeza de que a missão seria diferente, limitada no tempo e condicionada nas opções quando aceitaram passar do BES para o Novo Banco, uma altura em que se disse logo que este era para vender depressa e se percebeu que tudo ia ser feito de improviso, de acordo com regras europeias que nunca tinham sido aplicadas em lado nenhum. O mês que passou desde esse momento é muito tempo, e ou a explicação para a sua saída omite o essencial, ou então teme-se que existam aqui conflitos de egos intoleráveis numa altura destas. Em tempo de guerra não se limpam armas, ainda menos se ajeitam gravatas.

Admito que a equipa escolhida para relançar o BES não fosse a indicada para preparar a rápida venda do Novo Banco. Mas ou tinham saído mais cedo, sem estarem a empatar, ou faziam das tripas coração e levavam a carta a Garcia. Assim ficam muito mal na fotografia – e escrevo-o com pena, pois respeito intelectual e humanamente todos quantos saem.

Continuemos pelo Banco de Portugal. Aparentemente os sinais de choque com a equipa de Vítor Bento não eram de ontem. Carlos Costa tinha obrigação de saber que as divergências com Vítor Bento tornavam problemática a sua continuação à frente do Novo Banco. Agora pode ter perdido um mês – o mês que demorou até à substituição. Stock da Cunha é, provavelmente uma melhor opção, mas interrogo-me porque não foi solução há mais tempo, logo na passagem do BES a Novo Banco.

Aparentemente, nesta como noutras crises, o Banco de Portugal prefere sempre evitar o problema em vez de o enfrentar. Parece haver uma tal obsessão com a estabilidade das soluções e com não “perturbar os mercados” que se acaba por deixar os problemas apodrecer e tornarem-se mais graves. Ao longo de todo o processo do BES nunca se percebeu porque razão se levou tanto a obrigar Ricardo Salgado a sair da administração, porque se demorou depois tanto tempo a dizer que Amílcar Pires não o poderia substituir e porque se leva agora tanto tempo a encontrar nova solução para o Novo Banco. Tentar evitar conflitos é às vezes meio caminho andado para arranjar conflitos maiores – este pode ter sido o erro de Carlos Costa e do Banco de Portugal. Também fica mal na fotografia.

Finalmente o Governo. Se fôssemos ingénuos diríamos que está a conter-se a deixar nas mãos dos reguladores o que devia ser dos reguladores. Mas não somos ingénuos. A pressão do Governo sobre o Banco de Portugal tem vindo a aumentar e a reestruturação dos pelouros concretizada esta semana tem dedo do Ministério das Finanças. Talvez não pudesse ser de outro modo – seria estranho que depois de tanta contestação à supervisão nada mudasse na área de supervisão do BdeP. Mas não tinha de ser tão descarado.

O problema com o Governo é que está a transmitir a ideia de que nos momentos em que aparece e nos momentos em que desaparece isso não sucede por serem essas as regras do jogo, mas por se estar a pensar nas eleições de 2015. Numa altura destas era essencial que o Governo e o Banco de Portugal estivessem bem coordenados e a remar para o mesmo lado, sem cálculos políticos. Não parece que seja isso que está a acontecer, e toda a gente já percebeu. Ao tentar passar entre os pingos da chuva, o Governo molhou-se. E também ele estragou a fotografia.

Tudo o que envolve o Novo Banco é de uma enorme dificuldade e já era preciso um milagre para que tudo corresse bem e, no fim do dia, o banco fosse comprado por quem pagasse aquilo que o Estado agora emprestou. Agora é preciso mais do que um milagre. Sobretudo porque a cada fim de semana de reboliço como este são muitos milhões que desaparecem em depósitos. É uma situação em que ninguém devia estar preocupado em posar para a fotografia e que os egos se deviam subordinar ao interesse comum. Gostava muito de estar enganado, mas acho que é isso que tem vindo a acontecer.