Quase quatro anos depois da sua eleição para presidente do PSD, dir-se-ia que dificilmente Rui Rio nos poderia surpreender. Mas ele consegue. Por exemplo, com a ideia de suprimir a eleição do presidente no PSD, a pretexto de uma antecipação das legislativas. Estamos a imaginar a aura de autoridade que isso lhe daria numa campanha eleitoral:  o candidato que se propõe defrontar António Costa mas que tem medo de ir a votos com Paulo Rangel; o candidato que pede aos portugueses que o elejam mas que sabe que não seria eleito pelos militantes do seu próprio partido.

Há coisas, portanto, de que só mesmo Rui Rio se conseguiria lembrar. Há outras, porém, que não são só dele. É o caso da teoria política que, segundo as inconfidências do jornalismo, terá exposto ao conselho nacional do PSD. Desde 2018, a sua tese foi esta: o PSD só poderia voltar ao poder aproximando-se do PS. Até há pouco tempo, isso significava propor acordos ao governo socialista, por menor que fosse o entusiasmo de António Costa. Agora, significa tirar votos ao PS. Mas para atrair esses votos, o PSD teria de vestir a pele do PS, fazendo-se de “centro-esquerda”, e saneando tudo o que lembre oposição e alternativa à esquerda.

É deveras fantástico. A política numa democracia assenta no quê? Na possibilidade de o político, pelos seus méritos ou propostas, persuadir os cidadãos a escolhê-lo a ele e não aos seus adversários. Rio, no entanto, parte do princípio de que não há como desviar os portugueses do socialismo. A única maneira de um político que não é socialista disputar o poder seria enganá-los, fazer de conta que também é socialista, ou pelo menos pôr-se na foto muito perto dos socialistas, de modo que pareça da mesma família.

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