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Quase quatro anos depois da sua eleição para presidente do PSD, dir-se-ia que dificilmente Rui Rio nos poderia surpreender. Mas ele consegue. Por exemplo, com a ideia de suprimir a eleição do presidente no PSD, a pretexto de uma antecipação das legislativas. Estamos a imaginar a aura de autoridade que isso lhe daria numa campanha eleitoral:  o candidato que se propõe defrontar António Costa mas que tem medo de ir a votos com Paulo Rangel; o candidato que pede aos portugueses que o elejam mas que sabe que não seria eleito pelos militantes do seu próprio partido.

Há coisas, portanto, de que só mesmo Rui Rio se conseguiria lembrar. Há outras, porém, que não são só dele. É o caso da teoria política que, segundo as inconfidências do jornalismo, terá exposto ao conselho nacional do PSD. Desde 2018, a sua tese foi esta: o PSD só poderia voltar ao poder aproximando-se do PS. Até há pouco tempo, isso significava propor acordos ao governo socialista, por menor que fosse o entusiasmo de António Costa. Agora, significa tirar votos ao PS. Mas para atrair esses votos, o PSD teria de vestir a pele do PS, fazendo-se de “centro-esquerda”, e saneando tudo o que lembre oposição e alternativa à esquerda.

É deveras fantástico. A política numa democracia assenta no quê? Na possibilidade de o político, pelos seus méritos ou propostas, persuadir os cidadãos a escolhê-lo a ele e não aos seus adversários. Rio, no entanto, parte do princípio de que não há como desviar os portugueses do socialismo. A única maneira de um político que não é socialista disputar o poder seria enganá-los, fazer de conta que também é socialista, ou pelo menos pôr-se na foto muito perto dos socialistas, de modo que pareça da mesma família.

Isto faz sentido? Não. É verdade que nestes últimos vinte e cinco anos, o PS dominou. Mas antes, houve um tempo, entre 1985 e 1995, em que o PSD, sob a liderança de Cavaco Silva,  governou dez anos e teve duas maiorias absolutas. Foi a época mais próspera e de maior mobilidade social da democracia. Mesmo desde 1995, PSD e CDS passaram pelo poder duas vezes, quando o poder socialista falhou, e os portugueses tiveram de procurar governantes de confiança. Porque não construir um argumento baseado nas experiências passadas, nas necessidades presentes e nas possibilidades futuras, para convencer os portugueses de que o PSD, com os seus aliados, é uma alternativa ao socialismo, e que a devem preferir? Porquê partir logo do princípio de que os portugueses não querem mais nada, senão o socialismo?

Uma variante desta falácia de Rui Rio é a suposta teoria do “centro”. Segundo dizem os seus subscritores, há um “centro” em política, e é aí que se ganham eleições. Quando perguntamos que “centro” é esse, dizem-nos duas coisas: que está fixo, e (ó surpresa) que é socialista. Para ganhar eleições, o PSD precisaria de aproximar-se desse ponto fixo, isto é, do socialismo. É assim? Não é assim. Não há pontos fixos em política: há opiniões médias, que os debates fazem variar. Umas vezes correspondem mais à esquerda, outras mais à direita. Em 1975, o “centro” achava que convinha nacionalizar quase tudo; em 1985, que convinha privatizar quase tudo. Entre um momento e outro, o fracasso das nacionalizações e as campanhas da AD por uma democracia mais liberal deslocaram o “centro” para a direita. O PSD não precisa de se aproximar do “centro”, mas de aproximar o “centro” de si, na convicção de que o que tem a propor ao país faz geralmente sentido e é hoje particularmente necessário. É fácil? Não é, mas o resto é absurdo.

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