Já se sabe que nestes dias, véspera das eleições norte-americanas, a conversa da café se converte em apostas sobre quem vai ganhar as eleições. Neste aspeto particular, estas eleições são iguaizinhas às outras todas. Os portugueses e os europeus torceram em massa por Obama, opuseram-se sem contemplações a George W. Bush e, se andarmos para trás na história, não faltarão exemplos deste tipo de posições.

É natural, até certo ponto. Os Estados Unidos ainda são a maior potência internacional e, por mais que Ursula van der Leyen e muitos de nós o queiram negar, o mais precioso aliado que a Europa tem ou pode vir a ter.

Desta vez, o candidato europeu é Joe Biden. Por boas razões. A primeira é de cariz moral: independentemente do juízo político que possamos fazer do presidente Donald Trump que, como qualquer outro, acertou e errou na sua política externa – é impossível desligarmo-nos completamente da forma muitas vezes ofensiva e insultuosa com que se dirigiu aos mais diversos atores que lhe mereciam respeito institucional. É difícil deixarmos para trás os vários casos, uns mais mediáticos que outros, em que a ética política foi cilindrada por valores “mais altos” com os quais não nos identificamos necessariamente. A segunda é de cariz político: o atual presidente dos Estados Unidos afastou-se ativamente da Europa, pondo em causa os valores que nos fizeram acreditar, desde o fim da Guerra Fria, na durabilidade dos laços transatlânticos.

Como já se disse várias vezes aqui, é escusado ter ilusões. A Europa perdeu o interesse geopolítico para Washington, e este cenário vai manter-se. Mas Biden está comprometido com a NATO e os valores da ordem liberal internacional (espero que numa versão mais modesta e menos ativista), o que beneficiará sempre os Estados democráticos que, quer assumam quer não, gostariam muito de voltar a ver uma América líder da esfera internacional das democracias. Ainda que as expectativas relativamente a Biden possam ser demasiado elevadas (como, de resto, foram com Obama).

Assim, olha-se para as sondagens e esfrega-se as mãos de contente. Mas há pelo menos quatro problemas que temos que ter em consideração. O primeiro é óbvio: é difícil acreditar nelas. Bem sabemos que as empresas que as fazem têm tentado melhorar as suas técnicas. Mas é impossível esquecer o facto de que há quatro anos não havia (quase) ninguém que não jurasse a pés juntos que Hillary Clinton ia ganhar. De caras. Talvez até tenham sido as sondagens (e a tradição) que a levaram a descurar a Cintura da Ferrugem durante a campanha, onde Trump, por pouco, foi ganhar as eleições.

Além das sondagens, há três problemas complexos e difíceis de quantificar: a mobilização dos eleitores; o seu grau de empenhamento político; e aquilo a que vou chamar o “voto envergonhado”. Isto, já sem falar do elemento “pandemia”, que trocou as voltas a candidatos, equipas de campanha e eleitores.

Vamos, então, por partes. Já não é segredo para ninguém que a América está profundamente polarizada. A maior prova é que os americanos, que até recentemente votavam essencialmente nos candidatos a determinado lugar, votam agora em partidos políticos. Por exemplo, era perfeitamente natural que um conjunto significativo de eleitores votasse para presidente num candidato de um partido e no candidato a representante da câmara, ou a senador, de outro partido. Os americanos separavam, nas suas decisões, o que era estadual e o que era federal. Isso, praticamente, já não acontece. O voto vermelho ou voto azul é atribuído igualmente a todos os concorrentes (na maioria dos casos, evidentemente).

Noutro nível, os programas eleitorais dos candidatos não se tocam. Mas isso deixou de ter grande importância. O eleitor americano tem uma imagem na sua cabeça e vota consoante essa imagem. Daí que as campanhas eleitorais sejam cada vez menos explicativas (o que é que cada partido tenciona fazer para melhorar a vida dos cidadãos) e cada vez mais estabelecidas noutros elementos – como ataques a pessoas e ao partido oposto pelas suas características – porque o que os candidatos querem é, acima de tudo, mobilizar os que já decidiram em quem votar a não se deixarem vencer pela preguiça. E os que ainda não decidiram se vão votar, mas têm um candidato preferido, de saírem das suas casas (desta vez, nem que seja para ir ao correio). Especialmente os mais jovens, que, segundo a dupla de cientistas políticos Inglehardt e Norris, são os que menos tendência têm de ir votar – mesmo que tenham preferências claras por causas defendidas por algum dos partidos.

O segundo fator – talvez o mais importante para estas eleições e as futuras – é o empenhamento político de cada um. Em sociedades políticas onde a polarização não é particularmente relevante, este elemento pode não ter muita importância. Mas onde assume contornos de “tribalização”, os mais empenhados deixam de votar racionalmente, diz-nos Ezra Klein, e passam a votar contra os que não pertencem à sua tribo. E, ao contrário do que muitas vezes se pensa na Europa, os “mais empenhados politicamente” têm aumentado a cada eleição, dos dois lados da barricada.

Finalmente, o voto envergonhado, que não aparece nas sondagens. Foi um fator muitíssimo relevante nas últimas eleições e está intimamente ligado a Donald Trump. Sabendo os seus eleitores que são estigmatizados, dentro e fora dos Estados Unidos, a tendência é mentirem nos inquéritos de opinião, mas reporem a verdade na urnas. O que quer dizer que o presidente incumbente pode ter mais apoiantes do que aqueles que os números de que dispomos deixam antever.

Afinal, Joe Biden é o favorito para chegar à Casa Branca? Fazendo fé nas sondagens e na vontade dos europeus, sim. Mas porque nem sempre os estudos de opinião, especialmente do outro lado do Atlântico, estão certos, porque as eleições americanas são muito disputadas e, porque, este ano, às incertezas habituais juntam-se estes três fatores imponderáveis, que já iam existindo, mas não de maneira tão inequívoca. Assim, até ao lavar dos cestos (leia-se dia 3 de novembro ou mais tarde ainda) é vindima.