António Costa

O regime ainda precisa de António Costa?

Autor
1.139

A oligarquia fala cada vez mais de um “novo ciclo”. Todos pensaram que tivesse a ver com a saída de Passos Coelho. E se também tiver a ver com uma eventual dispensa de António Costa?

Sic transit gloria mundi: num par de semanas, os salões do regime deixaram de se entreter com a habilidade de António Costa e a previsão de uma futura maioria absoluta, para se ocuparem da sua inabilidade e do prognóstico de nova frustração em eleições legislativas. Porquê? Porque o presidente se zangou com a repetição trágica dos incêndios? Porque o PCP se assustou nas eleições autárquicas? Ou porque Passos Coelho já não está no PSD para justificar a adesão oligárquica a António Costa?

A despreocupação de Costa durante os incêndios surpreendeu muita gente. Sem razão. Este foi o candidato que perdeu as eleições, e foi para o governo. O primeiro-ministro que sub-alugou o Estado ao sindicalismo comunista, e foi cumprimentado pela “paz social”. O chefe de governo que usou a boa conjuntura para incorrer em compromissos que ninguém sabe como sustentar numa conjuntura menos boa, e foi festejado por ter posto fim à “austeridade”. Em Junho, depois do massacre de Pedrogão-Grande, foi de férias — e subiu nas sondagens. Porque haveria Costa, em Outubro, de pensar que iria ser diferente? Só porque era a segunda vez que o Estado deixava morrer dezenas de pessoas num acidente previsível? Uma longa impunidade prega às vezes este tipo de partidas.

Costa foi útil à oligarquia. A bancarrota do Estado em 2011, o colapso do BES em 2014, e os processos judiciais contra Sócrates e Salgado abalaram a classe dominante. Foram destruídas as expectativas que fidelizavam as clientelas, e expostas as redes de cumplicidade entre os oligarcas. Num mundo cheio de “populistas”, poderia ser o fim. Pior: durante o ajustamento, Passos Coelho provou ser alguém em quem os oligarcas não podiam confiar para os defender. Não era só a CGTP que receava um seu segundo mandato. Mas eis que, no meio de uma derrota, António Costa agarra na oferta do PCP e substitui Passos no governo. A oligarquia pôde assim colher os frutos do ajustamento sem o risco de reformas inconvenientes. As televisões do regime, como seria de esperar, transformaram-se num coro de louvor a Costa. Como poderia ocorrer ao primeiro-ministro que fogos que acontecem todos os anos, com uns mortos a mais ou a menos, iriam perturbar o seu idílio?

Algo mudou. Os juros continuam a descer, a economia a crescer, o PCP a votar com o governo. Mas começam a aparecer, aqui e ali, dúvidas sobre a produtividade (a piorar), inquietações sobre a poupança (em declínio), queixas sobre a carga fiscal (persistente, sob outros formatos). Até quando bastarão cativações e cortes de investimento para compensar os custos do colaboracionismo comunista? Mas para Costa, o pior talvez seja isto: Passos Coelho foi-se embora, levando com ele o perigo do único político que a oligarquia não controlava. Com Passos de fora, há agora a possibilidade de outros entendimentos, mais flexíveis e sem as despesas da maioria social-comunista. Ora, é provável que o regime tenha começado a duvidar que António Costa seja homem para uma eventual próxima etapa. Não só porque qualquer direcção do PSD teria dificuldade em justificar compromissos com ele, mais do que com qualquer outro líder do PS, mas sobretudo porque Costa já provou que não é bom. O presidente da república bem tentou integrá-lo no regime de afectos em vigor, apresentando-o como um bonacheirão. Mas eis Costa, à primeira oportunidade, a exibir a frieza desajeitada de um velho oligarca arrogante e cínico, mais disponível para a negociação de bastidores do que para o debate público. Nas eleições de 2015, Costa demonstrou a sua capacidade para, sozinho perante uma baliza aberta, chutar ao lado. Não dá sinais de ter melhorado.

A oligarquia fala muito de um “novo ciclo”. Todos pensaram que tivesse a ver com Passos. E se também tiver a ver com Costa? Depois do homem do “ajustamento”, por causa da sua independência, estará mais perto do que pensávamos o dia de mandar embora o homem da “transição”, por causa das suas limitações?

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Literatura

Agustina, a escritora sem medo /premium

Rui Ramos
639

Agustina nunca pagou portagem aos bons sentimentos do humanismo progressista. Houve quem não lhe perdoasse. Ela, porém, nunca teve medo: é talvez a “valentia” que a define como escritora. 

PSD/CDS

A direita de Groucho Marx /premium

Rui Ramos
326

A famosa frase “estes são os meus princípios, mas se não gostam deles, eu tenho outros” é uma piada de Groucho Marx. No caso da direita portuguesa, porém, não é uma piada: é como as coisas são. 

Crónica

Portugal, país-slime /premium

Helena Matos
789

Estão a ver aquela massa viscosa com que as crianças se entretêm? O slime, claro. Portugal está a tornar-se num país-slime, onde os valores são moldados a gosto e a responsabilidade não  existe.

TAP

A vaca voadora de António Costa é a TAP /premium

Tiago Dores
1.841

O Estado colocou gestores na TAP para que a TAP faça a gestão que bem entender borrifando-se para esse gestores que não gerem coisa nenhuma. É a segunda lição de qualquer Manual de Gestão para Totós.

Política

A direita em crise?

Luiz Cabral de Moncada

A perda de terreno eleitoral pela direita só significa que a esquerda assimilou o que aquela de melhor tem, o liberalismo económico e social. Está em crise? Não, já ganhou no terreno das ideias.

Política

Eleições à vista

José Couceiro da Costa

Hoje, com a velocidade da informação, o que releva são as causas, tão voláteis como as opiniões da sociedade civil. O modus operandi da política do séc. XX está morto. A ordem natural está invertida.

Jovens

É desta que fazemos valer a nossa geração?

Teresa Cunha Pinto

Esta geração vive com a barriga cheia de uma grande ilusão. De que é a geração mais informada, mais qualificada, mais viajada. É pura ilusão porque em nada se concretiza e materializa. 

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)