É, portanto, infalivelmente compatível com a Palavra de Deus, tudo o que você diz?  Suplico-lhe, pelas entranhas de Cristo, que admita estar enganado.
Oliver Cromwell, “Carta à Assembleia Geral da Igreja da Escócia”, 3 de agosto de 1650

  1. Convergente com a minha crónica “Rectificar os Nomes”, em que referi o wokismo como um neo-obscurantismo e como um ultra-reaccionarismo que a extrema-esquerda cavalga, trago agora a notícia de um ensaio publicado agora por um autor francês, Charles Castet, que confirma o acerto e aprofunda aquela minha dedução.
  2. O wokismo é uma crença de índole religiosa, mais precisamente um sucedâneo não teísta do desvio calvinista do cristianismo, e não o fenómeno político que vem sendo referido com o termo marxismo cultural.

É um sistema de crenças  fanáticas que se auto-descreve, usurpando, entre outros, um termo que como julgo ter demonstrado, designa o seu contrário: progressismo. Partindo, como o calvinismo,  da consciência da existência de injustiças sociais e raciais, afirma como aquele agir radicalmente para as eliminar.

Coloquemos o wokismo  em perspectiva – propõe Castet – evocando duas referências essenciais:

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Em primeiro lugar, a filiação intelectual entre o cristianismo e o comunismo estabelecida por personalidades tão diversas como Dostoievski, Aron, Camus ou Arendt.

No prefácio de Os Irmãos Karamazov, Dostoievski escreveu que a questão do comunismo nada tinha a ver com a questão dos trabalhadores, mas era, na verdade, a criação do reino de Deus na Terra, a superação da “Torre de Babel”.

Em O ópio dos intelectuais, Raymond Aron destacou as várias afinidades perversas entre o salvador proletário colectivo em Marx e o Messias salvador colectivo na Bíblia, melhor, a semelhança entre o Partido e a Igreja.

Em L’Homme revolté, Camus disse que o comunismo é uma profecia.  Toda a profecia é justificada por revelação divina, nunca pela razão humana.

Razão tenho eu, em chamar desde há muito ao BE seita. Prega proposições que não são consistentes com a razão e revelam um carácter mórbido salvífico.

E o que aproxima o calvinismo do wokismo? “Independentemente dos pontos teológicos que parecerão incongruentes ao leitor de 2021, os regimes e soluções políticas resultantes do calvinismo (a República de Genebra, o Governo dos Santos) tinham um duplo objectivo: estabelecer o reino de Deus na Terra e a justiça total, radical.” Recordo o canibalismo com que a população liberal de Amesterdão, embriagada pelos predicantes calvinistas empenhados em levar ao poder Guilherme de Orange, esquartejou os irmãos De Witt, governantes liberais.

Para atingir esses objectivos, o sistema de governo de Calvino revestia-se das seguintes características: um controlo social sem precedentes para a época, a imposição da verdade mesmo fora das questões teológicas (e estamos perto da Sharia), uma obsessão pela exigência da pureza moral das relações sociais que se tornaram patológicas. (Se o leitor reparar, algo que remete para o discurso de pureza do BE.)

Como Stefan Zweig descreve em Conscience Against Violence, para esse rebaixamento drástico da personalidade, para esse despojamento completo do indivíduo para [suposto] benefício da comunidade, Calvino aplica um método particular, a famosa “disciplina”.  Desde a primeira hora, este organizador genial encerra o seu “rebanho”, a sua “comunidade”, numa estreita rede de artigos e proibições – as famosas “ordenanças” – e, ao mesmo tempo, cria um consistório especial para supervisionar a sua aplicação. Consistório, cuja tarefa define de forma extremamente ambígua: “Zelar pela comunidade para que Deus seja devidamente honrado.”  E  esse controlo da moral só aparentemente se limita à vida religiosa. Como resultado da conexão completa entre o temporal e o espiritual na concepção totalitária de Calvino, toda a vida privada passa a ficar automaticamente sob vigilância do Estado; é assim que os membros do Consistório, os “anciãos”, são incumbidos de  fiscalizar a existência de cada um. “Não apenas palavras, mas também opiniões e ideias devem ser observadas.”

Não dirá isto nada a quem tenha hoje um olhar livre e atento ao que começa a verificar-se politicamente entre nós?

Zweig continua: “Essa Gestapo de boas maneiras verifica tudo. Certifica-se de que os vestidos das mulheres não são nem muito compridos nem muito curtos, conta os anéis nos dedos. Na sala de jantar fiscaliza se não se junta um pedaço de carne no único prato permitido ou se não escondem doces nalgum lugar… E a inspeção alarga-se a todos os quartos. Vê se a biblioteca contém algum livro que não tenha o selo da censura consistorial, vasculha as gavetas para ver se alguma imagem sagrada ou um rosário não foi aí.”

Um século depois, na Inglaterra, durante a guerra civil, outro traço emerge, a iconoclastia. O catecismo do soldado também recomenda, nesse ano de 1644, livrar definitivamente o país das obras-primas da arte medieval ou barroca que desviam da verdadeira fé. Esta fúria destrutiva não se dirige  tanto aos edifícios, relativamente intocados, quanto às pinturas ou esculturas que representam Deus Pai, o Filho ou o Espírito Santo, sem falar nas estátuas das Virgens, dos querubins, ao Pro Nobis e outras fórmulas latinas “criminosas“ que assaltam a alma com os suas sugestões perturbadoras” (Bernard Cottret, Cromwell). Não remete ou lembra isto para fenómenos de hoje? Nessa biografia de Cromwell, Cottret descreve bem o clima de alucinação espiritual da época em que os protestantes pensavam que o Papa era o anticristo que recebia instruções directamente do diabo. Algo de que a Inquisição católica não ficou atrás.

Após a restauração da monarquia inglesa, em 1660, estes ramos do protestantismo fundaram colónias teocráticas na América, que se transfigurariam no messianismo americano, cujo poder cresceu com o surgimento dos Estados Unidos como superpotência e as sucessivas vitórias militares na Guerra da Independência, na Guerra Civil, nas duas guerras mundiais.

Animando esses grupos, manifestou-se também um pietismo pós-milenarista que conquistou áreas ianques do protestantismo do Norte na década de 1830, forma evangélica agressiva que  conquistaria o protestantismo do Sul na década de 1890 e desempenhou um papel crucial na viragem do século e durante a Primeira Guerra Mundial, impelindo os pietistas a usar os governos local, estadual e, finalmente, federal para erradicar o pecado, tornar a América, e eventualmente o mundo, sagrados, erguendo assim o Reino de Deus na Terra, vocação de algum modo presente na obsessão norte-americana de levar com o seu expansionismo económico imperial todos os povos do mundo para “o lugar certo da História”, mesmo que o não queiram. Foi crucial o papel desse protestantismo pietista nos governos estatizantes  nos Estados Unidos. O seu objectivo é a salvação dos homens e fazer o melhor significa que o Estado assuma o papel central de erradicar o pecado e tornar a América sagrada. Marcante foi um programa político elaborado pelo Conselho Federal de Igrejas (proveniente do ramo principal do protestantismo com raízes calvinistas), descrito como “superprotestante”, muito próximo do que é o wokismo de 2021.

Uma versão secularizada apareceu também no credo do amor universal das décadas 1960-1970, no movimento então dito de contra-cultura, que estaria na origem dos hippies e dos festivais cujo espírito e forma sugeriam celebrações pagãs.

E eis revelada a explicação para a origem do wokismo, lugar de onde a Europa, humanista e universalista, com uma tradição que lhe é alheia, o viria agora a importar. E por que ocultam os wokistas dos vários registos a genealogia, essa ligação directa com os puritanos dissidentes ingleses de ontem? Primeiro, porque o progresso do conhecimento torna mais credível a crença se for apresentada como fruto da razão, em vez de revestir o carácter de fé religiosa. Outra razão porque nunca admitiriam a descendência directa do calvinismo, é a afirmação da universalidade totalitária do credo, de que nenhum indivíduo no mundo pode duvidar e escapar, irredutível a qualquer religião ou ausência dela.

Mas um elemento que contradiz a universalidade do wokismo é precisamente a sua localização geográfica desigual. Nascido nos Estados Unidos, foi logo adoptado nos países anglo-saxónicos e só recentemente na Europa, aqui enxertado em heranças vagas e remotas de algo análogo, mas   sobretudo numa extrema-esquerda vazia das suas causas sociais e orfã das grandes narrativas totalitárias do século XX. Wokismo, repare-se, quase ausente na Ásia e em África, excepto na Coreia do Sul, onde um quarto da população é protestante. Esta origem é confirmada pelo itinerário da irradiação cartográfica do movimento na Europa: Reino Unido, Holanda, Norte da Alemanha e Escandinávia, só depois a França (que porventura não seria como está a ser se não se lhe juntasse uma ligação que à frente referirei), Espanha, Itália e outros países da Europa Central e Oriental. E é quase inexistente noutros lugares, com a resistência total última na China.

Os discursos woquistas seguem o mesmo padrão do discurso da atriz activista Adèle Haenel. Está lá tudo: culpa, angústia – que eu referi, recentemente, como característico do discurso pregador do BE e dos seus dirigentes, em Louçã caricatural: culpa, arrependimento, desejo de absolvição, esperança de se livrar do pecado, construção individual da salvação, busca pela justiça na sua expressão maior, e, finalmente, a conversão.

E é exactamente tudo isto –  voilà! – que aproxima o wokismo e o novo esquerdismo ultra-reaccionário do…  integrismo islamista, com a sobreposição da lei religiosa e civil. Uma ligação que não é, afinal, contra-natura (como seria no caso da extrema-esquerda marxista original), mas  se revela à luz que referi, bem natural.

Para terminar, pergunta Castet, “o que devemos fazer?” Neste tempo, acrescento eu, em que vivemos assombrados por movimentos com a  origem e a natureza referidas e um cariz que os aproxima cada vez mais, no objectivo e nos métodos, de uma realidade como a do nazismo? Em que o debate racional que podia ser libertador está a ser progressivamente interdito?

“O que fazer numa perspectiva liberal?” Recolhermo-nos, qual  Montaigne, a uma torre que já não se vê onde encontrarmos (ver o no Observador o meu artigo “Da Torre de Montaigne“)? Ou erguer a palavra da resistência e liberdade, como Raymond Aron ergueu nos anos 1950?