Bloco de Esquerda

Onde está a moderação do Bloco? /premium

Autor
920

O Bloco não está mais moderado: está até, na recusa do pluralismo, muito mais radical. Antes, atacava as “políticas de direita”. Agora, ataca a ideia de que possa haver uma “direita”.

A imprensa portuguesa é muito generosa: só assim se explica que, contra toda a evidência, tivesse dedicado um fim de semana inteiro à procura de “moderação” e “maturidade” no congresso do Bloco de Esquerda, tal como, no Verão, houve quem encontrasse “empreendedorismo” no caso Robles. Como explicar tanta boa vontade?

O equívoco tem talvez esta razão de ser: durante anos, o Bloco serviu aos jornalistas uma dieta infatigável de citações contra o Partido Socialista, a União Europeia, o euro, e os compromissos financeiros do país: o PS só tinha “políticas de direita”, a UE era neo-liberal, o euro servia apenas para sufocar Portugal, e a dívida pública devia ser “reestruturada”, isto é, renegada.

Acontece que, desde 2015, o BE vota os orçamentos do PS, como parte da chamada “geringonça”. Em conformidade, temos ouvido menos sobre as “políticas de direita” socialistas, a saída do euro ou a reestruturação da dívida. O que não quer dizer que não tenhamos ouvido alguma coisa, e que sempre que ouvimos, nada tenha mudado, nem sequer acerca do PS, cujos orçamentos, segundo descobrimos agora, o BE só vota porque entretanto terá “derrotado” o “programa de Mário Centeno”. Mas noutras coisas, sim, o BE está mais contido: por exemplo, no que diz respeito a “corrupção” e irregularidades, assuntos sobre o quais costumava ser o primeiro a aparecer aos gritos nos jornais. Agora, sobre Tancos, não quer “ruído“. É verdade: Francisco Louçã falou de “corrupção”, mas a “corrupção” que o incomoda é, muito convenientemente, a dos “submarinos” e dos “vistos Gold”, não a da Operação Marquês.

É esta táctica que a imprensa tem confundido com uma mudança de valores. O Bloco acha que o PS é um partido verdadeiramente de esquerda? Não acha. O Bloco pensa que a integração monetária é o quadro mais adequado para desenvolver a economia portuguesa? Não pensa. Mas o Bloco, por causa do susto de 2011 e da viragem do PCP em 2015, teve de trocar a sua intransigência ritual por esta “disponibilidade para ir para o governo” – um pé no poder, mesmo que torcido. Nada disto é “moderação”, no sentido de aceitação dos princípios da democracia representativa, da economia de mercado ou da integração europeia. É apenas conformismo táctico de um partido que não está, neste momento, em situação de fazer política com base na contestação frontal desses princípios.

Dir-me-ão: que importa isso, se depois o Bloco aprova os défices exigidos por Bruxelas? Importa porque o Bloco precisa de provar que os seus  votos orçamentais não podem ser substituídos por votos socialistas. E não basta aos bloquistas, naturalmente, dizer que a diferença está em mais uns euros nos salários do funcionalismo. A diferença tem de ser dramática, e viu-se em que consiste: aproveitar os “populismos” para demonizarem toda a direita e promoverem-se a si próprios como os porteiros encarregados de manter a direita de fora. No Portugal venezuelano dos bloquistas, a direita não tem lugar: “não conta para o futuro do país”. É apenas um bando de “rufias” contra os quais o Bloco se propõe erguer uma “barreira de aço”. A linguagem é significativamente soviética: tal como na URSS de Lenine, Trotsky e Estaline, os que não alinham são “rufias” (“elementos anti-sociais”). O “aço” é outra imagem desse mundo: também aparecia, por isso, na cantiga gonçalvista do Verão de 1975 (“Força, força, companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço”). O PS sozinho, claro, não é de confiança enquanto “barreira de aço”. Só o Bloco pode garantir que os “rufias” não “contam”.

Não, o Bloco não está mais moderado: está até muito mais radical na rejeição do pluralismo político. Antes, atacava as “políticas de direita”. Agora, ataca a ideia de que possa haver uma “direita”. Como é óbvio, o Bloco não tem poder, por si só, para inocular a política portuguesa com este ódio de guerra civil. Tudo depende do PS. Vão os socialistas também começar a ver só “rufias” à sua direita? Em 1975, o PS de Mário Soares recusou alinhar na caça às bruxas. E hoje, que fará o PS de António Costa?

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Rui Rio

Dr. Rio, deixe o PS em paz /premium

Rui Ramos
230

Rui Rio ainda quer fazer reformas estruturais com o PS. Mas porque é que o PS haveria de se comprometer em reformas com a direita? Para dar espaço a movimentos à sua esquerda? 

ADSE

As guerras da saúde fazem sentido? /premium

Rui Ramos
346

Na cínica “ideologia do SNS” não temos qualquer preocupação com a saúde pública, mas um projecto de domínio da sociedade pelo poder político e ainda um cálculo eleitoral partidário. 

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)