1 Uma democracia com cerca de meia centena de anos coloca em risco a vida e a segurança de manifestantes ao denunciá-los a uma embaixada de um país autocrático e corrupto — eis a nova imagem de Portugal transmitida pelos grandes media internacionais às respetivas opiniões públicas.

Além das melhores praias da Europa, da gastronomia e dos vinhos fantásticos, os leitores do Washington Post (Estados Unidos), do Independent (Reino Unido), do Político (lido em toda a Europa) e de muitos outros jornais internacionais que publicaram as peças de agências como a Reuters ou a Associated Press, ficaram também a saber que a Câmara de Lisboa viola grosseiramente há anos a Lei de Proteção de Dados que tanto orgulha a União Europeia fornecendo a identidade e as respetivas moradas de manifestantes russos pró-democracia à embaixada de Vladimir Putin, de protestantes palestinianos à embaixada de Israel e provavelmente de venezuelanos à embaixada que responde a Nicolás Maduro.

E o que faz Fernando Medina perante este reforço extraordinário da reputação de Portugal como país que não ajuda ditaduras a perseguir os seus próprios cidadãos? Pouco mais do que o óbvio pedido de desculpa “aos promotores da manifestação”, como a luso-russa Ksenia Ashrafullina, e a “todos os cidadãos” e o inquérito da praxe — uma tradição dos políticos portugueses que costuma ser tão eficaz na obtenção de explicações como o conhecimento da Câmara de Lisboa sobre o Regulamento Europeu de Proteção de Dados, transposto para a lei nacional. Medina suspendeu alguém de funções até a conclusão do inquérito/auditoria? Negativo. Alguém apresentou a demissão? Igualmente negativo porque o funcionalismo público (e privado) nacional prefere o ‘sacudir a água do capote’ a colocar a mão na consciência.

2 Já aqui escrevi várias vezes que António Costa redefiniu desde 2015 o conceito de responsabilização política para o chamado grau zero. Ou seja, nenhum membro do Governo é responsável por nada, mesmo quando há prova irrefutável em sentido contrário. E, regra de ouro, a existir responsabilização, tal só acontecerá quando o respetivo caso cair no esquecimento da Opinião Pública.

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