Tudo o que se relaciona com as mortes de domingo, novamente à conta de fogos florestais e falhanços vários da resposta da proteção civil, é perturbante. E antes de vos elencar o que me perturba, esclareçamos: o que se debate a propósito de Pedrógão e de domingo passado não são os fogos florestais nem o sempiterno tema da reforma florestal. Em 2017 aconteceu algo muito novo: morreram mais de cem pessoas devido aos fogos. O ano com maior número de mortes até agora tinha sido 2005, com vinte e duas mortes. Na maior parte dos anos as mortes não chegavam à dezena.

Temos de perguntar, portanto, por que razão, este ano, morreram tantas pessoas? O que mudou para, de repente, haver mortes a eito relacionadas com os incêndios florestais? Foram só os responsáveis da proteção civil, nomeados por Costa e Urbano de Sousa, que eram boys socialistas e particularmente incompetentes? O que levou a que, em 2017, as autoridades deixassem de conseguir proteger as populações? Foi o extermínio do investimento público pela geringonça? Foi a cabeça da ministra que estava mais ocupada em resolver o problema do visto de Madonna? Note-se que nos restantes países com climas mediterrânicos e fogos florestais o número de mortes não se multiplicou em Portugal.

Mas vamos à lista.

1. Assusta que, depois de Pedrógão e das suas 65 mortes, o (des)governo se tenha sentido tão pouco acossado que nem tenha cuidado de impedir repetição. Sabendo-se das previsões meteorológicas para o início de outubro, o governo entendeu seguir o calendário da época oficial dos fogos florestais. Como todos sabemos, as fagulhas antes de se descontrolarem costumam meter um requerimento em papel de trinta e cinco linhas pedindo autorização para contagiarem uns arbustos.

Isto tem dois lados. Um: o governo só age para proteger as populações se acossado por possíveis perdas eleitorais, não por sentido de dever e em prol do bem comum. Dois: fomos todos demasiado brandos na nossa reação a Pedrógão. A oposição comatosa caiu na esparrela do ‘falar é aproveitamento político de mortes’ – isto enquanto um primeiro-ministro mentiroso aproveitava a tragédia, ele sim, e entre outros exemplos, inventando que Passos Coelho havia atacado os bombeiros. (O que também ficou sem resposta.) Os amiguinhos mediáticos da geringonça garantiam-nos que por respeito às vítimas só poderíamos ficar mudos e quedos até nos darem autorização para falar.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

2. Perturba-me que, depois de Pedrógão, o governo não tenha reforçado verbas no Orçamento de Estado para 2018 para prevenir e acorrer a situações semelhantes. Isto é tanto mais escabroso quanto o primeiro-ministro nos disse, durante a noite que matava quarenta pessoas, que nos devíamos habituar a estes eventos e que sem dúvida nenhuma ia voltar a acontecer e que somos adultos – e poupo-vos ao resto da verborreia.

Se o primeiro-ministro considera que estas potenciais tragédias se vão repetir, não teria sido avisado providenciar fundos para melhor lhes responder? Ou inventou a deixa para se desculpar?

3. Perturba-me ainda que a geringonça tenha, na semana passada, aprovado alterações às indemnizações extrajudiciais às vítimas de Pedrógão (que já deviam estar pagas). Agora, só demonstrando responsabilidade do Estado as pessoas terão direito a indemnização. O mesmo é dizer que não terão indemnização. Só será indemnizado quem tiver recursos para pagar a advogados, processar o estado e recolher documentos que o estado fará por sonegar ou dificultar. E quem sobreviver aos tribunais administrativos, que esticam a interpretação da lei (e os tempos dos processos) de forma a proteger o estado além de toda a razoabilidade e, até, ética. Repito: na semana passada, a geringonça.

4. Perturba-me o silêncio cúmplice de BE e PCP. Tornam-se, assim, tão responsáveis como o PS. Mas não se pense que no BE não há quem esteja indignado e peça demissões. João Semedo, ex líder bicéfalo, já pediu a demissão de David Dinis. Isso, de um jornalista. Parecendo Trump. O bloquista estava domingo muito indignado – não com o governo, mas com a perseguição que um jornal está a fazer à inocente ministra Urbano de Sousa.

5. Por fim, a perturbação maior é com as palavras de Costa e da ministra Urbano de Sousa (que, vá lá, ainda não chorou; agora que todos percebemos como está alapada ao cargo já não teria efeito). Foram as mentiras, como a da MAI dos outros países que estariam também a apagar fogos (nem remotamente), ou aproveitamentos políticos vis e torpes de Costa tentando culpar o anterior governo (referiu avisos que teria feito em 2011), todos calculadamente colocados no meio das declarações. Foi a queixa da ministra pelas férias perdidas ou a ‘vontade de rir’ de Costa quando uma jornalista lhe perguntou sobre ‘vítimas mortais’. Foi o pm aplicando cirurgicamente um horizonte temporal do ‘século’ quando o século só tem dezassete anos Foi a ministra com o ralhete das ‘comunidades têm de ser resilientes’. (Como diz?! Ainda mais?!)

Mas pior foi o ar sobranceiro, frio e robótico de Costa na sua declaração ao país na segunda feira. O luto e a consternação ficaram todos a cargo da gravata preta. Costa conseguiu até exibir, após responder a uma pergunta, um meio sorriso de contentamento consigo próprio. Depois do focus group de Pedrógão lhe ter garantido o apoio dos eleitores, depois das autárquicas, nem umas dezenas de mortos numa noite a arder tirou a Costa a satisfação por se estar a sair mesmo bem. Em escancarado aproveitamento político (outra vez), já se fotografou visitando vítimas. Pancadinhas nas costas.

Notas:
A. O Presidente da República foi ontem soberbo. Soube ser humano e exigente. Não menorizou tragédias nem sofrimento nem arrogâncias governativas. Há momentos charneira e, depois de Pedrógão, Marcelo Rebelo de Sousa aprendeu a lição. E aprender lições é algo que valorizo sempre.
B. Estive ontem numa concentração em Belém de pessoas protestando pela mortandade de domingo. Apesar do escárnio do DN (sempre amável para o PS), participaram milhares debaixo de chuva. Cheguei a casa com o cabelo maluco e encharcada. Mas orgulhosa. Não somos ratos complacentes. Nos próximos dias há mais.