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Os críticos dos chamados “neo-liberais” passam a vida a insinuar sobre os supostos privilégios dos seus alvos preferidos. Aparentemente, nasceram todos em “berços de ouro”, nunca tiveram dificuldades na vida e revelam permanentemente o seu egoísmo social. Alguns (dos críticos) vão mais longe e conseguem descobrir nos “neo-liberais” um prazer especial com o empobrecimento da nossa sociedade.

Lamento desiludir muitos desses críticos, mas os “neo-liberais” também têm pais e filhos. Muitos desses pais passaram a vida a trabalhar de um modo honrado e sério e sofrem agora cortes anuais nas suas reformas. E os filhos também estudam e ficam doentes. Posso garantir-vos que não conheço um único “neo-liberal” (e conheço muitos, mas não tantos como gostaria) que tenha um prazer especial em gastar milhares de euros todos os meses com a educação dos seus filhos. Gostariam muito de os inscrever em boas escolas públicas, mas muitas vezes não as encontram.

Talvez o grande problema dos “neo-liberais” seja acreditar que, apesar de tudo, Portugal poderá um dia honrar os compromissos com os seus funcionários públicos e com os seus reformados sem ter que se endividar até à falência. E poderá ser também um país com escolas públicas com a qualidade das melhores privadas, tal como muitos outros países europeus.

Se é lamentável confundir ideias políticas com privilégios, é irritante que muitos dos ataques venham de sectores privilegiados. Acho extraordinário observar a esquerda republicana e burguesa, educada em colégios privados, a atacar o egoísmo e os privilégios de “neo-liberais” educados em escolas públicas e nas ruas de subúrbios ou em cidades de província.

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A acusação de “neo-liberalismo” ao actual governo e a muitos dos seus defensores revela ainda um entendimento errado da influência da ideologia na ação política. A aplicação de um programa ideológico depende mais do contexto em que se governa do que das preferências políticas de quem governa. Até poderá ser verdade que alguns dos actuais e de antigos ministros do governo se identifiquem com ideias “neo-liberais”, mas como é óbvio nunca estiveram em condições de as aplicar. Muitas vezes foram mesmo forçados a implementar o oposto do que sugere um programa “neo-liberal”, como sabem todos aqueles que pagam impostos.

A deriva ideológica, quer no modo como olham para o governo quer na radicalização que impuseram ao seu discurso, foi o grande erro cometido pelos socialistas. Sobretudo pelo Partido Socialista. Se este governo nunca poderia ter sido “neo-liberal”, isso não significa que a sua governação não tenha obedecido a uma certa orientação ideológica. O governo fez tudo para manter Portugal no Euro e essa escolha é ideológica. Mas foi uma escolha ideológica feita no início dos anos de 1980, com o pedido de adesão à Comunidade Europeia, e reafirmada no final dos anos de 1990 com a adesão ao Euro. Curiosamente esses dois momentos ideológicos ocorreram com o PS no poder.

O PCP e o BE têm razão num ponto: a única alternativa ideológica à política deste governo é a retirada de Portugal do Euro. O actual líder do PS criou a mais perigosa das ilusões: a possibilidade de uma alternativa ideológica ao actual governo mantendo simultaneamente Portugal no Euro. Ao mesmo tempo, associou a manutenção no Euro à ideologia “neo-liberal”. Se um dia for PM, fará tudo o que for necessário para manter o país no Euro e será, naturalmente, acusado de “neo-liberal”, e por muitos do seu próprio partido. O seu maior desafio será manter a unidade do seu partido. Tal como acontece agora com os “neo-liberais”, os socialistas terão que lidar com a angústia que resulta do facto das decisões do “seu” governo tornarem a vida mais difícil aos seus pais e aos seus filhos, sabendo que a alternativa seria ainda pior.