Rádio Observador

25 de Abril

Porque é que não sabemos a história do 25 de Abril? /premium

Autor
1.182

É inquietante, a propósito do 25 de Abril, ver o actual regime recorrer aos mesmos métodos de propaganda da ditadura salazarista. Ninguém dá valor à liberdade -- e à verdade?

Todos os anos, é a mesma coisa. Que eu me lembre, já em 1976, no segundo aniversário, havia essa mania de os políticos aproveitarem a data para lamentarem que o 25 de Abril não estivesse a ser ensinado, que os jovens não soubessem como era antes e como passou a ser depois, etc. Décadas depois, a ladainha continua a pingar monotonamente dos púlpitos do Estado.

Mas há alguma coisa que mereça ser aprendida na catequese oficial destas épocas de aniversário? Para começar, temos, por exemplo, as comparações ignorantes entre o Portugal de 1974 e o de hoje. Sim, hoje os portugueses vivem melhor do que em 1974. Mas em 1974, também viviam melhor do que em 1926. O 25 de Abril aconteceu num país que estava a passar por uma transformação social e económica que começara antes e que continuou depois. Antes de 1974, o país industrializava-se, o “Estado social” (já era assim que Marcello Caetano lhe chamava) expandia-se, o futuro SNS já tinha os seus alicerces, e pela primeira vez na história toda uma geração frequentava a escola. Portugal até já iniciara a integração europeia, com a adesão à EFTA em 1960 e o acordo comercial com a CEE de 1972. Reconhecer isto, porém, passa por crime de louvor à ditadura. Mas o que justifica uma democracia não é a prosperidade – é a liberdade. Era o que a ditadura salazarista não valorizava. Talvez por essa razão, também insistia em comparar as suas estatísticas com as do regime anterior, a primeira república. Como seria de esperar, fazia uma grande figura, porque Portugal, nos anos 50 ou 60, também tinha “progredido” em relação a 1926. Percebe-se que a ditadura não tivesse outra maneira de se promover. Mas é inquietante ver o actual regime recorrer aos mesmos métodos de propaganda e falsificação da história. Ninguém dá valor à liberdade sem uma auto-estrada?

O principal vício da anual exaltação abrilista dos políticos é, porém, outro: a tendência para identificar democracia e revolução. A revolução de 1974 desmantelou a ditadura salazarista, que durante décadas manteve os portugueses em menoridade cívica. Como tal, merece vivas e comemoração.  Mas depois, como quase todas as revoluções, ameaçou ser muitas coisas — algumas contrárias ao Estado de direito democrático, e outras finalmente incompatíveis com aspirações e modas políticas posteriores. O resultado foi que a democracia em Portugal, depois de ter começado em 1974 em ruptura com a ditadura salazarista, continuou, depois de 1976, em ruptura com a revolução, através, por exemplo, das revisões constitucionais e da integração europeia. Ora, este rompimento atingiu todos os avatares revolucionários, não apenas o sistema económico do 11 de Março, mas o sistema político do 25 de Novembro (aliás, o primeiro alvo de revisão, em 1982). Porque é que isto não é reconhecido? Porque o PCP e a extrema-esquerda há décadas que reduzem o 25 de Abril ao 11 de Março, de modo a apresentarem o regime, tal como se desenvolveu desde 1976, como uma “traição” ao 25 de Abril e, portanto, um regresso do “fascismo”. Os outros partidos entram no jogo. Não admitem que a democracia ultrapassou a revolução, e também eles reivindicam o 25 de Abril e afirmam a sua “actualidade” (à direita, através do 25 de Novembro). É uma “luta de memória” que dá sobretudo a medida da influência do PCP e da extrema-esquerda (outra herança da revolução). Mas enquanto o 25 de Abril continuar assim, motivo de divisão e de especulação política, dificilmente aprenderemos a sua história. Por mais que os nossos políticos, com alguma hipocrisia, o lamentem todos os anos.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Racismo

A racialização da política é isto /premium

Rui Ramos
150

As democracias têm de tratar todos os cidadãos como iguais, com os mesmos direitos e obrigações, e ajudar os mais pobres e menos qualificados, sem fazer depender isso de "origens" ou "cores".

25 de Abril

O milagre dos cravos /premium

Helena Matos
2.006

Basta colocar um cravo ao peito para os vigaristas passarem a incompreendidos; os ditadores a democratas e os actuais ministros a oposição. Já o BE esquece as PPP com Salazar e Bolsonaro.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)