“A TAP como companhia de bandeira é fundamental ao interesse estratégico português”. Quem disse esta frase? Uma ajuda: não foi Pedro Nuno Santos. A resposta é fundamental para que se perceba um dos maiores equívocos da política portuguesa, pois quem a proferiu não foi um socialista do PS, mas um socialista do Chega, chamado André Ventura.

A entrevista ao Expresso é de Dezembro último e reflecte bem que Ventura não difere assim tanto do ministro das infra-estruturas, Pedro Nuno Santos. Os dois querem a TAP. Um prefere que seja pública e o outro até pode pretender que seja privada desde que na esfera pública, ou seja, desde que a cumprir a função que é seguir o interesse estratégico português. Qual será este? A seu tempo, tanto Pedro Nuno Santos como André Ventura, o dirão. Porque neste ponto pouco os distingue já que os dois não devem ter dúvidas sobre qual deve ser o interesse estratégico de 10 milhões de cidadãos, milhões de empresas e ainda mais negócios. Tanto um como o outro não terá qualquer dificuldade em apontar um interesse estratégico nacional para uma empresa que não é deles, mas à qual gostam de dar instruções. Haverá centralismo mais socialista que este?

A TAP é apenas um exemplo concreto de uma semelhança geral que conduz a um aparente e conveniente antagonismo. A ligar estas extremidades existe também o tom, o tom acusatório que é a pedra de toque do BE (e de que Mariana Mortágua, Catarina  Martins e Francisco Louçã são praticantes exímios), uma das caraterísticas de Pedro Nuno Santos e outros socialistas de língua sempre afiada e ainda uma técnica utilizada à exaustão por André Ventura. Qualquer um deles confunde o falar alto e de forma violenta com o falar verdade.

Qualquer um deles assume uma visão justicialista da política, a defesa dos fracos e esquecidos, dos explorados, sejam estes trabalhadores roubados pelos empresários gananciosos ou o povo roubado pelos corruptos. O que sobra dos seus discursos é esta sua visão dualista da comunidade em que nos encontramos uns contra os outros. Existem os bons e os maus, sendo que os de bem são eles. Tanto a facção mais extremista do PS, como o BE e o Chega visam realizar o interesse do povo (independentemente do que seja o povo e de quais sejam os interesses de cada uma das pessoas que integram esse povo) contra algo, desde o capital à vergonha dos que terão de prestar contas aos Portugueses pelo que fizeram nas últimas décadas. Esta última frase poderia, inclusive, ser proferida por um militante do BE ou do Chega, e até mesmo do PS  aquando do governo de Passos Coelho. Isto sucede porque a narrativa escolhida por estes três partidos difere menos do que nos querem fazer crer.

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Esta semelhança explica a obsessão que PS e BE têm por André Ventura e pelo Chega. Ao conseguirem que o debate se reduza a uma luta fratricida entre eles, a política anima-se e os eleitores distraem-se e não dão conta do pouco que muda; que entre os dois lados as distinções não são de considerar e que se um aponta o dedo à austeridade o outro aponta baterias à corrupção. O facto de o BE conseguir culpar ao mesmo tempo a austeridade e a corrupção só mostra o quão próxima é o entendimento político dos três. Um lado diz-se de esquerda e o outro de direita, mas nenhum retira o Estado da equação. Um quer mais justiça com a intervenção do Estado na economia, o outro mais intervenção da Justiça na economia do Estado. Ambos gritam e indignam-se porque ao gritar e ao indignarem-se transmitem a ideia que os campos que representam não podem um com o outro. A dependência, essa, é mútua. Se não podem um com o outro, um também nada pode sem o outro.

Quando António Costa engendrou e geringonça a justificação que deu foi a normalização do BE e do PCP. Que a consequência do seu acto equivalia ao derrube do Muro de Berlim. No fundo essa normalização era do interesse político do PS. Entretanto, o Chega interessa aos socialistas que precisam de reduzir o PSD e ignorar a IL. A estratégia é acordar fantasmas, dividir o país e governar com o mínimo de escrutínio possível. No entanto, dadas as semelhanças referidas e a experiência que o PS se arroga ter na normalização dos extremos, não me parece que o PS tenha especiais dificuldades em fazer o mesmo com o Chega e André Ventura. Até porque desta vez nem precisa de fazer alianças. Basta que não use o populismo para alimentar o populismo. A democracia ficar-lhe-ia grata.