A Esquerda abandonou as classes trabalhadoras. Mais ainda, a Esquerda traiu as classes trabalhadoras. Ao abraçar a cantilena da “autodeterminação de género”, da “masculinidade tóxica”, da “heteronormatividade” e das “micro-agressões”, a Esquerda escolheu ter como principais bandeiras políticas as preocupações mais superficiais do diletantismo burguês. Em nome delas, policia o discurso e julga sumariamente os adversários; confunde discordâncias com discriminação; erige muros, queima pontes e levanta polémicas.

Em nome do libertarianismo social, a Esquerda alheia-se do destino dos pobres. Liberalizar e normalizar a droga, como pretendem o Bloco e parte do PS, permite às elites urbanas satisfazer comodamente os seus desejos de excentricidade e transgressão – e, no dia seguinte, regressar à normalidade. Mas, para quem convive diariamente com o mundo das drogas, a normalidade não existe. A liberalização traz consigo a deterioração de bairros e comunidades inteiras; de estruturas familiares e de vidas humanas. Para os mais pobres, a droga não é apenas um inebriamento passageiro. É um flagelo que espreita em cada esquina, corroendo laços de solidariedade, ameaçando a saúde e a ordem pública, envenenando a infância e a juventude e trazendo consigo o vandalismo, o crime e a violência. Para as elites, a droga legal é liberdade de escolha. Para os mais pobres, é um sem-fim de fatalidades que passam a acontecer sob a anuência do Estado.

O mesmo se diga acerca da legalização das barrigas de aluguer, tão almejada pelo Bloco e pelos seus aliados socialistas, que criará condições para transformar a maternidade num negócio e para colocar o ventre das mulheres pobres a trabalhar ao serviço da vantagem financeira de casais ricos.

Não contentes com tamanha barbaridade, o Bloco e a parte do PS que vive a mando do Bloco querem também legalizar a prostituição, forçando o Estado a dar o seu aval ao aluguer de corpos humanos. É quase confrangedor que os mesmos que insistem (e bem) na importância de aumentar o salário mínimo ignorem a necessidade de salvaguardar limiares mínimos de dignidade humana. O corpo de uma mulher – pobre, imigrante, isolada, sem alternativas – não se fez para ser exposto, avaliado e transaccionado como uma carcaça de animal pendurada no gancho do talho. E um Estado de bem não pode dar respaldo a tamanha monstruosidade.

Vale a pena pensarmos sobre tudo isto. Sobre se esta Esquerda – envolvida numa guerra de terra queimada contra o Homem e a sociedade; contra a linguagem, as tradições e o território; contra a nossa História e os nossos museus – ainda conhece o povo. Há dias, era o ministro do Ambiente, solene e prazenteiro, a anunciar que as metas de redução do carbono seriam atingidas através de uma “redução da produção de bovinos entre 25 a 50%”. Depois, veio o PAN, fervilhante de superioridade moral, sugerir que se retalhassem os ditados populares para eliminar referências pouco lisonjeiras aos animais.

Desta sucessão de dislates, procurei refúgio nos Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes. Publicada em 1941, esta permanece uma das obras de referência do neo-realismo português. É também uma memória de uma Esquerda que já não existe – ou existe cada vez menos. No relato cru de Soeiro sobre a miséria, misturam-se descrições sobre os momentos da vida comunitária: o trabalho, os divertimentos, as feiras, o circo e a tourada. É a marca de uma gente que, mesmo pobre e descalça, pertence a uma terra, a um local, a uma identidade. Referências que a nova Esquerda não compreenderia, porque não tem terra, nem identidade. A sua única referência grupal é a tribo ideológica e o seu único entretenimento é o activismo político.

A nova Esquerda não tem lugar para Soeiro Pereira Gomes, nem para Alves Redol, nem para a frieza iconográfica do cinema neo-realista. Não tem lugar para os ternos cantares rurais de Zeca Afonso, nem para as recolhas etnográficas de Giacometti e Lopes-Graça. É, aliás, interessante notá-lo: ele, Fernando Lopes-Graça, dedicado militante comunista, produziu inúmeros arranjos musicais com base em cantares tradicionais portugueses. Entre eles, está um notável conjunto de Cantatas de Natal sobre Nossa Senhora e o Menino. Na nova Esquerda, porém, não cabe um comunista que escreve música sobre o presépio. A nova Esquerda não é de Lopes-Graça. É de Fernanda Câncio, que desdenha a cultura portuguesa e se incomoda com as decorações natalícias em Lisboa.

Rendida ao discurso da diversidade e do cosmopolitismo, a nova Esquerda não conhece o povo, teme-o e desconfia dele. Muitos têm escrito que a guerra cultural em curso é uma luta de classes em que a nova Esquerda assumiu a defesa da excentricidade dos poderosos. Sobre isso, pouco sei. Mas sei – eu, que não sou de Esquerda – que uma outra Esquerda faz falta ao sistema político português.

Estudante universitário, 22 anos

P.S. – Há cerca de um mês, o Expresso publicou um artigo da deputada socialista Isabel Moreira, sob o título “Precisamos da Direita”. Como recorrentemente me sucede, encontrei pouco de comentável na prosa desta autora. Gostaria, por isso, de avisar os leitores mais incautos de que este meu artigo não pretende ser uma resposta nem, muito menos, uma tentativa de convergência. À Senhora Deputada Isabel Moreira, desejo apenas um Santo e Feliz Natal, de preferência acompanhado pelas Cantatas de Fernando Lopes-Graça.

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