Em Março passado, António Costa definiu três prioridades para a próxima legislatura: melhorar os serviços públicos, cortar na dívida pública e reforçar o investimento público. Qual é o problema óbvio? Estas três prioridades correspondem aos três mais visíveis fracassos do governo. Desde logo, a dívida pública. Sim, é certo que esta diminuiu levemente em percentagem do PIB (de 128,8% em 2015 para 121,5% em 2018), mas isso deveu-se à conjuntura favorável de crescimento económico (o PIB cresceu), uma vez que, em termos absolutos, a dívida pública real aumentou – desde que o governo tomou posse, a dívida pública está maior em 13 mil milhões de euros. Do lado do investimento público, batem-se recordes negativos e 2019 ficará abaixo do último ano do Governo PSD/CDS – isto depois de, no Orçamento para 2019, o governo ter anunciado um aumento significativo do investimento que, como se antecipava, não irá executar. Ou seja, a despesa pública está a ser direccionada para manter tudo na mesma, em vez de apostar no futuro e no crescimento económico – é o que confirma a última edição em papel do Expresso, onde se conclui que a “despesa pública nunca foi tão pouco produtiva” (paywall), isto é nunca se investiu tão pouco em “semear” crescimento económico. Por fim, o desgaste dos serviços públicos é já tão evidente que se tornou inegável até para a maioria parlamentar que suporta o governo. Na saúde, nas pensões, no atendimento ao cidadão, nas forças de segurança – o Estado Social começa a falhar e a relação do Estado com o cidadão está-se a deteriorar de forma acelerada.

Dir-me-ão: sim, tudo isso corre mal, mas é precisamente por o PS perceber que foram estas as áreas em que falhou que agora se compromete com estas prioridades, redobrando esforços. Com alguma benevolência, seria até o caso se se pudesse confiar na palavra dos socialistas quanto à valorização destas áreas na sua acção futura. Mas não se pode confiar – por várias razões, nomeadamente esta: desde Março até hoje (5 meses), António Costa tem apontado para uma dezena de prioridades suplementares, consoante as plateias e as circunstâncias, diluindo a relevância das linhas mestras que previamente anunciou com pompa e circunstância para enquadrar a actuação do PS no governo. António Costa quer convencer o país de que é possível ter tudo como prioritário, o que realmente significa algo bastante diferente: nada será realmente prioritário para o PS, a não ser dizer sempre aquilo que a plateia quiser ouvir (e sonhar com uma maioria absoluta).

Confirme-se – e basta uma rápida pesquisa na internet. Costa elege como prioridade o combate à corrupção (e esta até é caricata, tendo em conta não só o historial do PS mas também toda a atenção que o assunto tem merecido entre os socialistas – uma mera linha no programa eleitoral em 2015). Costa garante Saúde como prioridade para o governo. Costa não define a diminuição de impostos como prioridade (em Março), mas Costa depois (em Julho) define a diminuição de impostos como prioridade. Costa assume o combate à desigualdade salarial como prioridade. Costa afirma que o país tem de dar prioridade à Ciência. Costa aponta para a educação, a igualdade e as alterações climáticas como prioridades. Se se alargar o leque temporal aos últimos 12 meses, mais áreas se juntam: proteger as florestas, promover a educação de adultos, aumentar a qualidade do emprego, a lista é interminável. Serão poucas as áreas de actuação do governo que António Costa (ainda) não destacou como prioritárias.

Percebe-se o exercício: em modo de campanha eleitoral, o PS está desde o início do ano a disfarçar as suas falhas (elevando a prioridade as áreas em que falhou mais clamorosamente) e a prometer tudo a todos – em cada audiência há eleitores desejosos de ouvir que as suas inquietações são a prioridade do governo. Mas é arrepiante a familiaridade das cenas neste filme socialista de actos contínuos de propaganda implausível – vimos tudo isto com Sócrates, para quem tudo valeu para chegar e se manter no poder. Sim, António Costa tem feito de tudo para diferenciar Sócrates do próprio partido, pretendendo que a corrupção (criminal e moral) do ex-primeiro-ministro não contaminou o PS. Sempre foi daquelas histórias difíceis de acreditar: é o mesmo partido, são as mesmas pessoas, são os mesmos ministros e são os mesmos protagonistas. Mas fica-se com a certeza das semelhanças quando se observa o aparelho de propaganda em todo o seu fulgor – capaz de prometer tudo e o seu contrário, e agindo como se o acesso ao poder tudo justificasse. Este PS de 2019, embriagado pela hipótese de uma maioria absoluta, não é diferente daquele PS de 2009, cuja soberba atirou um país para o abismo.