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Enquanto cidadão, não sei o que me gera maior estupefacção. Se ver Sócrates beber imperiais, satisfeito, após ter sido dado como corrompido e acusado de branqueamento de capitais no processo “Operação Marquês”,  se escutar agentes políticos de vários partidos rasgarem as vestes de indignação hipócrita pela (já esperada) decisão de Ivo Rosa (que deixou cair vários dos crimes apontados a Sócrates, Salgado e companhia). Entendamo-nos: não se descobriu há seis dias que a Justiça portuguesa tem problemas estruturais graves. E recordemo-nos: os apelos para reformar o sistema judicial têm anos, décadas até, com inúmeros episódios de incompreensão popular pela impunidade dos mais poderosos a servirem de catalisador. Portanto, se chegámos à situação actual e não se reformou adequadamente o sistema judicial foi porque alguém não quis. O que, dito de outra forma, significa que esses problemas estruturais existem porque há quem deles beneficie. Isto é óbvio? Creio que sim, mas constato que muitos se fazem desentendidos.

Um dos desentendidos é Rui Rio. O líder do PSD comentou, a propósito da “Operação Marquês”, que é necessário reformar a Justiça, mas que tal não deve ser feito a quente — isto é, sob o calor mediático das acusações a José Sócrates. Ora, Rui Rio lançou uma lapalissada e errou no foco das suas preocupações. O que inquieta o país não é o risco improvável de se legislar a quente, mas sim o facto de, sucessivamente, a frio, os agentes políticos e os interesses corporativos da Justiça bloquearem as ansiadas reformas. Repito o que escrevi acima: os problemas na Justiça perduram porque muitos na política não os querem resolver. E disto não faltam exemplos, dos quais destaco três.

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