A política é um serviço público, uma contribuição para o bem-estar e progresso da sociedade, feita muitas vezes com enorme sacrifício pessoal. Basta olhar para a carreira de José Sócrates, e de outros políticos nacionais, para perceber isso. E para ter uma ideia da extensão do altruísmo que permeia hoje Portugal basta listar e contar quantos ministros, deputados, autarcas e outros servidores desinteressados da coisa pública sacrificam a sua vida pela causa do nosso povo.

O que levanta a questão: quanto vale um ministro? Esta pergunta foi colocada, com propósito eminentemente prático, por Lu Buwei 呂不韋 (291—235 a.C.) na sua juventude. Um tratado chinês antigo, a Estratégias de Estados em Guerra, Zhan Guo Ce 戰國策, relata uma conversa que ele terá tido com o pai, um empresário de sucesso:

“Ao regressar a casa perguntou a seu pai: ‘Qual é o lucro de um investimento na lavoura?’
‘Dez vezes o investido’, respondeu o pai.

‘E qual é o lucro de um investimento em pérolas e jade?’
‘Cem vezes.’
‘E qual é o lucro de instalar um soberano no trono e assim dominar o governo?’
‘Esse seria um lucro incalculável.’”

Reza a história que Buwei não desprezou a sabedoria do pai, antes a pôs em prática, tornando-se amigo e conselheiro dum príncipe obscuro, insignificante e vivendo numa situação difícil, e investindo nele. Através de uma hábil gestão política, envolvendo jogos de bastidor e subornos, Buwei conseguiu, contra todas as expetativas, mas com excelentes resultados para a sua fortuna pessoal, que o amigo sucedesse a el-rei Xiaowen 孝文 (302—250 a.C.) no trono do Estado de Qin 秦. Com a entronização del-rei Zhuangxiang 莊襄 (281—247 a.C.) Buwei foi nomeado primeiro-ministro e Marquês Wenshin 文信侯. E começou imediatamente a extrair valor do seu investimento.

Como? Através das cinco vias clássicas de minerar um cargo público: peculato, suborno, favoritismo, negociatas e regulação. As três primeiras são as mais simples e não requerem capital próprio para serem exploradas ao máximo. Têm, no entanto, o condão de atrair maledicência, desproporcionada ao ganho que proporcionam, pelos invejosos que respondem à pergunta “para que serve o Estado?” com moralidades do tipo “para servir o povo” em vez de algo mais pragmático como “para dar prazer aos funcionários”.

O verdadeiro ganho está, porém, em por o aparelho do Estado ao serviço dos interesses empresariais próprios & d’amigos. O que Buwei fez pondo o palácio e o exército a comprar à sua casa mercantil, que herdara do pai, em condições especialmente rentáveis para o seu bolso. E também desenvolvendo com esmero a arte chinesa da regulação económica, impondo regulamentos e taxas feitos à medida para os concorrentes sentirem o fogo do inferno, e permitindo-se isenções e atribuindo-se subsídios. Estas duas vias oferecem adicionalmente respeitabilidade que as outras não têm, e não fosse um percalço inesperado e Lu Buwei seria considerado hoje o fundador da ciência da regulação económica e tido como divindade tutelar dos reguladores.

Buwei manteve-se ainda primeiro-ministro durante alguns anos após o curto reinado de Zhuangxiang, ganhando dinheiro, gozando a vida, estudando filosofia e patrocinando as artes e a cultura: a ele se deve a publicação de A Primavera e Outono do Sr. Lu, Lushi Chunqiu 呂氏春秋, uma obra enciclopédica fundamental para a compreensão do desenvolvimento da filosofia chinesa desde as origens até à data. Infelizmente para a sua pessoa, a descoberta de um complexo escândalo envolvendo jogos de poder, sexo e dinheiro fez com que Ying Zheng 嬴政 (259—210 a.C), que sucedera a seu pai no trono e que se tornaria mais tarde o primeiro imperador da China unificada, o destituísse de todos os postos e dignidades e o exilasse para uma província distante e inóspita. Desesperado, e temendo que novas revelações da Operação Marquês Wenshin, então em curso, o viessem a incriminar ainda mais, e tornar o seu castigo ainda mais desagradável, Lu Buwei pôs fim à sua vida.

Quanto vale então um ministro? Para o próprio & amigos já sabemos: imenso nesta vida, e o inferno na próxima. Mas, … e para o pobre do povo?