Rui Tavares sabe defender com persuasão ideias de esquerda nas suas crónicas. Gosta até de dar um cunho moral aos seus argumentos. Escreve, aliás, como se fosse uma mistura entre um teólogo da libertação e Eduardo Prado Coelho. Mas o que me interessa aqui é o fosso entre a linguagem moralista das suas crónicas e o oportunismo da sua carreira política. Esse ponto é relevante porque Tavares entrou no combate político e porque o seu cinismo é o tipo de comportamento que contribui para a degradação da qualidade da democracia.

Vejamos. Rui Tavares iniciou a sua carreira política como deputado europeu eleito pelo Bloco de Esquerda. Durante a sua estadia no Parlamento Europeu mudou de bancada e passou para o grupo dos Verdes. É mais do que natural que alguém tenha divergências com o Bloco, mas ninguém obrigou Tavares a ser um candidato bloquista. Quando um político se incompatibiliza com o seu partido, a dignidade exige um de dois comportamentos. Demite-se, ou concorre nas próximas eleições por outro partido. Tavares não fez nada disso. Mudou de bancada, sem concorrer a novas eleições, continuando no Parlamento Europeu. Foi um comportamento semelhante ao de alguns deputados brasileiros que mudam de partidos a meio de mandatos como se fossem jogadores de futebol.    

Regressado a Portugal, criou um partido, o Livre, como instrumento das suas ambições políticas. Escolheu uma deputada negra para procurar o voto de raça (um comportamento tão repugnante que dispensa mais comentários), dito pela própria deputada quando se zangou com Tavares e com o Livre.

Por fim, criou a farsa de primárias no Livre para se escolher o candidato a Lisboa, que naturalmente ele próprio ganhou. No entanto, o candidato do Livre não perdeu tempo e aderiu à candidatura de Fernando Medina, conseguindo um pelouro com um pomposo título, que resume os temas sobre os quais Tavares escreve dia sim dia não. Aliás, Tavares confessou que estava em conversas com Medina há muitos meses, antes das tais primárias do Livre. Ou seja, Tavares usou o Livre para, na prática, aderir ao PS. Este comportamento, desde o Parlamento Europeu até às eleições autárquicas em Lisboa, mostra a natureza de Rui Tavares como político: as suas ambições pessoais estão sempre acima dos partidos políticos. Uma atitude que corrói a democracia.     

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Mas a aliança entre Medina e Tavares, ao contrário do que disseram os próprios, foi resultado da necessidade. Medina percebeu que precisa de bipolarizar a campanha para ser reeleito. A inclusão de Tavares nas suas listas visa enfraquecer o Bloco. É uma coligação anti-Moedas e anti-Bloco. Medina sabe que Moedas retira votos ao Chega e à IL e por isso precisa de fazer o mesmo ao Bloco, visto em Lisboa como um adversário mais perigoso do que o PCP. E Tavares continua a sua velha luta contra o Bloco, agora ao lado do PS. No fundo, Rui Tavares é uma espécie de João Mário da política. Está sempre à espera de uma boa transferência.    

Na ordem de trabalhos para a que será muito provavelmente a última reunião deliberativa da Câmara de Lisboa, a realizar na sexta feira, Medina pretende distribuir dinheiro a rodos. Decidiu propor seis novos contratos e atribui 21 apoios financeiros a várias entidades. Durante quatro anos não tomou estas decisões e agora, já como candidato, decide oferecer fundos a eleitores de Lisboa. Politicamente, é um comportamento inaceitável. Medina está a usar recursos públicos para benefício político próprio. Será que Tavares não quer escrever sobre o tema na sua próxima crónica? Dou uma ajuda ao nosso Tavares. Deveria propor que os titulares de lugares políticos não poderiam decidir sobre dinheiros públicos depois de se declararem candidatos. Está de acordo com o espírito de muitas das suas crónicas. Se fosse Orbán a usar dinheiro público para tentar ganhar eleições…