A pandemia deixou marcas profundas. A redução da mobilidade, o fecho dos escritórios e comércio, a diminuição das horas trabalhadas levaram a um grande empobrecimento de empresas. Sem receitas, as empresas tiveram que fazer ajustamentos, com redução de ordenados e, com estes, levaram a uma difícil situação para as famílias, em especial as mais pobres.

Foi como um terramoto, sem se saber de onde vinha e quando vai terminar. E, no meio da incerteza, a preocupação de saber como continuar a dar trabalho a todos e ir ao encontro das suas ansiedades e inquietações.

Como resposta imediata vieram, quando possível, novos modelos de trabalho, por vezes de casa, que numa primeira fase pareciam interessantes. Pensou-se em criar centros de trabalho distribuídos pelo país, também nas zonas rurais, para se evitarem concentrações de pessoas e tempo nas viagens, sempre que a tecnologia podia superar as distâncias.

Houve o bom senso de dar prioridade à vida. Com um prudente confinamento, para evitar ou retardar a difusão do vírus. Porque uma vida, qualquer vida, é sagrada! A economia vem muito depois.

Isso deu tempo para preparar os hospitais para o afluxo de pessoas contaminadas. E para treinar um corpo de agentes de saúde para os testes, para recomendar quarentena, medicar, etc. E, sobretudo, para se aprender a lidar e a debelar o vírus. Hoje, os médicos já sabem bastante mais sobre como tratar. Daí que o número global de fatalidades tenha vindo a decrescer, ao mesmo tempo que aumenta a percentagem de recuperados.

Cuidar das pessoas que regularmente devem estar na empresa, exigiu assegurar todas as proteções contra os riscos de contágio. Foi dada prioridade a aspetos como as deslocações, uso de máscara, distância física, horários para evitar grandes aglomerações nos transportes públicos, etc. Cuidar das pessoas deu confiança acrescida nas organizações.E cada pessoa sabe que o fará dentro dos parâmetros de segurança definidos.

Aprende-se sempre com cada decisão. O que correu bem nos aspetos clínicos deu para refletir, sistematizar e melhorar. Decisões mal-sucedidas não se repetem. Por exemplo, ao decidir-se o lockdown, haverá que pensar nas consequências para um elevado número de migrantes, de vários estados, que se deslocam à grande cidade em busca de trabalho mais bem remunerado. O problema surgiu ao prolongar-se o lockdown: eles, sem trabalho, tentaram regressar à sua aldeia. E não havendo transportes, puseram-se a caminho a pé, de bicicleta, como podiam…por centenas de quilómetros que os separavam da sua terra. Uma pequena tragédia.

Deu tempo para pensar nas consequências desastrosas para muitos.

Pensar na empresa, nos negócios e sobretudo nas pessoas. Aquelas com quem vivemos, com quem trabalhamos, com quem nos cruzamos e de quem recebemos toda a variedade de serviços, no nosso dia-a-dia.

Na impossibilidade de responder com segurança às dúvidas e ansiedades, fomos entendendo que mais importante era a presenca, o trato com simpatia, a bondade e a compreensão (de quem pergunta apenas com o olhar: posso ajudá-lo?), que nos terá mostrado a magia de fazer felizes os outros… uma disponibilidade para trocar umas palavras, para ouvir…

Descobertas tocantes, por surgirem de situações de sofrimento, deixam claro que a nossa conduta deve ser sempre positiva e de ajuda. Cada um de nós já tem sofrimentos suficientes.

As empresas (e os seus dirigentes) ganharam mais sentido humano, mais consciência da sua pequenez, ao ver a generosidade de muitos colaboradores prestarem serviços desinteresados (farmácias, supermercados, e-commerce).

Muitas pessoas importantes e abastadas foram vítimas, pois o vírus trata a todos por igual. E na mesquinha ambição de ter, de sobressair, de comparar, percebemos que nada levamos connosco, ao prestar contas a Deus, a não ser o bem que fizemos aos outros.

Muitas empresas, na Índia, pensaram em reduzir o número de trabalhadores. Algumas acabaram não só por mantê-los, como ainda por lhes dar um bónus por ocasião da festa do Diwali (Festa das Luzes), por terem aguentando um stress adicional no seu trabalho. E porque a pandemia deixou a todos depauperados, para o ano de 2021, num inquérito da AON, 87% das empresas afirmaram que aumentariam os salários entre 5 e 10%.

Situações que presenciámos levam a um exame de consciência, a uma revisão das prioridades e, com elas, a uma revisão do comportamento:

Quando há alguns que têm muito e ganham imenso, encontramos multidões que vivem com um orçamento apertado; não se alimentam convenientemente, nem têm margem para gastos inesperados. Outros, vivem em condições de habitação tão precárias, abaixo da linha da vida humana.

E surge a interrogação: se os que têm não deveriam partilhar mais, enquanto estão vivos e quando os outros precisam, sem esperar que as “autoridades” resolvam a situação. Ou se não deveriam esforçar-se mais por criar mais empregos.

Alguns tentarão esquecer tais inquietações, mas entretanto terão concluído que são uns privilegiados sem razão alguma que o justifique.

Toda a atitude de generosidade faz-nos, em primeiro lugar, mais felizes. Depois, ajudamos os outros a ser mais felizes. Ao dar, desapegamo-nos do que é nosso e sentimo-nos livres!

* Vivendo em Mumbai, as minhas observações tiveram por base o que aqui vi. Mas são extrapoláveis para qualquer outro país.