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Economia

Uma questão de classe (média) /premium

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Estamos num momento de disrupção. Pela automação, pela globalização, pelas economias emergentes, pelos sobressaltos políticos. Mas não precisamos de dar os danos à classe média como inevitáveis.

Na política há a tendência de se correr atrás da politiquice e da luta partidária corriqueira. Depois há a realidade, as alterações estruturais no mundo, que vão ditando que as ideias se adaptem às mudanças. Porque ideias muito boas na teoria são inúteis; querem-se ideias que se adequem ao concreto e o melhorem. E mesmo as boas ideias não são boas ideias em todas as circunstâncias; às vezes são vítimas do próximo sucesso.

Querem uma realidade? Daquelas estruturais que implica todas as outras? A classe média, em todo o mundo desenvolvido, está a encolher, confirma um muito recente relatório da OCDE. Há quem lhe vaticine o fim num prazo curto. Como tão bem explica Sandra Maximiano, a existência de uma classe média saudável é essencial, não só para o crescimento económico sustentado como para a estabilidade política.

Por várias razões, o mundo laboral está a polarizar-se. De um lado, uma fatia dos que conseguem aceder aos trabalhos mais bem pagos e que exigem uma escolaridade superior ou pós superior, bem como aquilo que se pode chamar de capital social: a capacidade de se mover para melhor aproveitar as oportunidades (desde saber quais as melhores escolas e universidades, onde e quando aparecem as melhores oportunidades e que tipo de preparação é necessária, mover-se num meio onde circula este tipo de informação, até, claro, conhecer quem recomende e os códigos sociais certos).

Do outro lado, nova fatia, parte também cada vez mais escolarizada mas que só consegue aceder a trabalhos cada vez mais indiferenciados e mal pagos. Há uma série de profissões que há umas décadas permitiam ordenados que conseguiam, mesmo que modestamente, sustentar famílias (de vários filhos, às vezes) e que agora são remunerados de forma atroz. No comércio, nas tarefas administrativas, nos serviços de logística, na restauração e hotelaria, nos media. Seja causa ou consequência, este tipo de trabalhos está cada vez mais socialmente desvalorizado, o que leva a maior dificuldade de angariação de bons recursos humanos e ordenados comparativamente cada vez menores. E muitas ocupações que apareceram – as ligadas ao turismo, os call centers – oferecem igualmente ordenados baixos.

Sei bem que em Portugal é muito difícil às PME pagarem ordenados avultados (sobretudo com os custos de contexto e com uma legislação laboral que, em demasiados casos, garante os trabalhadores onde não devia e desprotege onde deveria intervir). Mas esta não é uma situação conjuntural atendível das PME portuguesas. As maiores multinacionais – propriedade daqueles multimilionários que se têm aproveitado de verdadeiros monopólios de facto – têm na base estes mesmos escassos ordenados.

No meio há cada vez menos oferta de empregos. E a oferta que ainda há tem visto os rendimentos crescerem a ritmo mais lento que a fatia dos melhores rendimentos, ou até a decrescerem.

Tudo isto é estrutural. Como primeiro passo, convinha que se reconhecesse a existência do problema. Em segundo lugar, que se começassem a ensaiar soluções.

E então onde anda a direita? Anda feita barata tonta. Em vez de perceber que medidas que geraram crescimento estão agora a criar distorções que a prazo porão em causa o crescimento económico – e também a existência de médias empresas, com acrescidas dificuldades em competir pelos recursos dos gigantes – prefere teimosamente insistir até ao limite nas fórmulas que estão a criar os perigos.

Dou um exemplo. Há pouco tempo a Amazon queria abrir escritórios em Nova Iorque. Para isso, negociou isenções fiscais e outros benefícios com o governo estadual. Lamento (na verdade, não lamento): é indecoroso uma empresa gigantesca e propriedade do homem mais rico do mundo ter isenções fiscais que outras empresas mais pequenas não usufruem. Este padrão é normalíssimo, até por cá para atrairmos investimento estrangeiro. Ou reformados endinheirados europeus.

Outro exemplo. Os paraísos fiscais. Os cidadãos comum têm serviços fiscais kafkianos – a nossa AT atua abaixo de qualquer nível ético muito rasteiro, com informações erradas aos contribuintes, processos abertos (que geralmente perdem quando contestados) para extorquir dinheiro a quem não tem capacidade de pagar a advogados, avaliações para IMI para lá do limiar da aldrabice, um sem fim de artifícios que escandaliza o falsário médio. Já os bilionários, confortavelmente e com complacência geral, usam paraísos fiscais para não pagarem impostos. Parece que somos transportados para o tempo dos absolutismos, em que a nobreza latifundiária estava isenta de impostos, que recaíam sobre a populaça.

São distorções inaceitáveis que favorecem quem tem mais capacidade de pagar impostos e quem menos precisa de ajudas para crescer. Promovida, claro, pela promiscuidade que existe entre grandes empresas e políticos por todo o mundo – não é só por cá.

Estamos num momento de disrupção. Pela automação, pela globalização, pelas economias emergentes, pelos sobressaltos políticos. Mas não precisamos de dar os danos à classe média como inevitáveis. Olhar para a História costuma ajudar. Quando se dá nos cursos de economia a história dos processos de desenvolvimento económico pós revolução industrial, salienta-se a diferença entre o caso inglês e o caso francês. Em Inglaterra o desenvolvimento foi mais rápido e teve custos sociais maiores. (Se não sabe do que falo, deve ler urgentemente Dickens.) Em França foi mais lento e controlado e com menos custos sociais.

A direita pode olhar para a realidade. Ou pode continuar a brincar às guerras culturais, à luta contra o politicamente correto e o marxismo cultural e os social justice warriors (outro chavão ridículo que as direitas espevitadas usam) e o feminismo, a desfalecer de emoção de cada vez que Jordan B. Peterson tira fotografias com ‘proud islamophobics’. E deixar a solução das questões estruturantes para a esquerda.

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