Governo

A diferença entre Theresa May e António Costa

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O que importa neste momento não são os “bons resultados”, mas o que o governo fará com eles. E é aí que está o problema: este governo não pode fazer nada.

Theresa May é primeira-ministra por vontade de uma maioria no parlamento, mas nunca foi candidata a primeira-ministra em eleições. Tem toda a legitimidade formal para governar, mas este ano, encarregada de negociar a saída do Reino Unido da UE, sentiu que precisava de um mandato popular, que só uma vitória eleitoral lhe poderia dar. Por isso, arriscou tudo e antecipou as eleições para o próximo mês de Junho.

António Costa é primeiro-ministro por vontade de uma maioria no parlamento, mas quando foi candidato a primeiro-ministro sofreu uma derrota humilhante, sujeitando o PS a um dos seus piores resultados eleitorais. Tem toda a legitimidade formal para governar, mas é óbvio que tem também um problema: de outro modo, não se perceberia que há meses todos especulem sobre a possibilidade de Costa antecipar eleições, a fim de obter a vitória que os eleitores lhe negaram da última vez.

Dir-me-ão: mas May precisa do mandato para preparar a saída da UE, aqui não há urgências dessas. Não? Não precisaria Portugal de um chefe de governo com um mandato forte, para promover as reformas que poderão manter Portugal no euro e na UE? Não é o contrário do Brexit tão crucial para Portugal como o Brexit é para o Reino Unido?

Parece que alguém decidiu que lembrar a derrota de António Costa em Outubro de 2015 é de mau gosto, um simples traço de ressentimento faccioso. Não é nada disso. É uma questão analítica. Sem ter presente esse facto, o actual governo não faz sentido, nem as suas políticas, nem, sobretudo, a tremenda fraqueza que o impede de estar à altura das circunstâncias de um país que há quinze anos substituiu o crescimento económico pelo crescimento da dívida.

O governo disfarça a sua insuficiência falando dos “bons resultados” (o défice mais baixo da democracia, etc.). Mas esses resultados são sobretudo o prolongamento de tendências desenhadas desde 2013, à medida que os maiores desequilíbrios das contas portuguesas foram corrigidos. O que importa neste momento não são os “bons resultados”, mas o que o governo fará com eles. E é aí que está o problema: o governo não pode fazer nada.

Depois de quatro anos de “austeridade”, Costa esperava ganhar as eleições, e o PCP e o BE ascender ao nível do Syriza. Mas não aconteceu nem uma coisa nem outra. O insucesso das esquerdas portuguesas juntou-as no que é uma simples tentativa de ocupação do Estado, para benefício das suas clientelas. Que mais poderiam fazer em conjunto? PS, PCP e BE reconhecem divergir sobre a “integração europeia”. Mas a “integração europeia” diz respeito ao tipo de regime político e ao modelo de sociedade. Ou seja, PS, PCP e BE estão separados em relação ao que é fundamental. Por isso, não estão em condições de se unir em grandes iniciativas.

Geralmente, o governo e a sua maioria parlamentar têm feito o que Bruxelas lhes manda, porque a prioridade é garantir o financiamento do BCE. Ao contrário do que disseram entre 2011 e 2015, os partidos da actual maioria não têm uma “alternativa” à “austeridade”, porque acelerar “devoluções” não é o fim da “austeridade”, quando depois são necessárias cativações e cortes do investimento público. Falta a este governo força e convicção, quer para aprofundar a opção europeia no que respeita à competitividade da economia, quer para enveredar por outra opção, como o isolamento proteccionista preferido pelo PCP e pelo BE.

Os investidores internacionais não acreditam, e cobram por isso juros mais altos do que aos outros países europeus. Os organismos independentes, dentro e fora do país, pedem, em vão, “reformas estruturais”. Este governo nunca as fará. Mais: a sua formação destruiu a maioria europeísta que as podia viabilizar. Provavelmente, nunca nas últimas décadas os bloqueios da sociedade portuguesas foram tão graves, e nunca a incapacidade política para os enfrentar foi tão grande.

Portugal, tal como o Reino Unido, precisa de um primeiro-ministro com um mandato popular forte para o que há a fazer: o Reino Unido, para sair da UE; Portugal, para “reentrar” na UE com possibilidades de mais êxito. Theresa May teve a coragem ou a ousadia de pedir aos eleitores esse mandato. António Costa, até agora, não teve uma coisa nem outra.

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