Marcelo Rebelo de Sousa considera que não se pode fazer uma leitura política direta da visita de António Guterres a José Sócrates na prisão. Para o comentador, o facto de o ex-primeiro-ministro ter estado no estabelecimento prisional de Évora na quarta-feira significa apenas que “Guterres é um homem com carácter”.

“Houve duas interpretações”, explicou Marcelo na TVI. Uma era a de que “ele é católico, é um homem que acredita nas bem-aventuranças, que sabe o que são obras de misericórdia”. A outra era a de que “o homem com isto quer dizer que não é candidato” a Presidente. Mas, para o professor, a explicação é mais simples:

“Um homem de carácter, quando tem um amigo preso, preventivamente ou não preventivamente, que foi seu colaborador muito próximo durante não sei quanto tempo antes de ser Governo e depois de ser Governo, obviamente vai visitá-lo. Ponto final, parágrafo. É só isso. Eu conheço Guterres desde novo, tivemos grandes divergências mas não me surpreendeu porque ele é um homem de carácter, um homem bem formado. Não é preciso ser católico para ter carácter.”

Questionado depois sobre as potenciais aspirações de Guterres à Presidência da República, Marcelo disse que o ex-governante socialista tem duas opções para o seu futuro. “Ou Guterres vai para as Nações Unidas”, algo que o professor diz ter dúvidas, “ou se não for está quase condenado a ser candidato”.

“Não dá para não ser candidato”, caso a hipótese de ficar pelas Nações Unidas não se verifique, considerou Marcelo.

Falando ainda sobre o caso Sócrates, o comentador referiu que o ex-primeiro-ministro “está a tornar-se uma sombra durante o ano eleitoral que aí vem”, sobretudo se continuar a enviar cartas para a comunicação social. A propósito da última, Marcelo pensa que “foi uma carta ao lado”. “Para se defender tem de ter um alvo preciso, não pode atacar toda a gente”, disse, acrescentando que, se o ex-governante optar por esta via de defesa, a mesma “torna-se ineficaz”.

Sobre esse ano eleitoral que se avizinha, Marcelo diz-se “preocupado” dado o nível de crispação entre os líderes do Partido Socialista (PS) e do Partido Social Democrata (PSD). “Não vejo isto como um bom sinal”, disse, referindo-se às intervenções de Passos Coelho e António Costa durante o fim de semana.

Ainda sobre o PS, o professor fez uma breve referência à aprovação da reforma do IRS para criticar o facto de a bancada socialista ter votado contra o pacote legislativo. Se Marcelo fosse Costa, “não ficava naquela posição de ter rejeitado em bloco uma coisa que pode vir a ter efeitos positivos na vida das pessoas”, rematou.