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Óbito

Morreu Günter Grass, Nobel da Literatura

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Nobel da Literatura em 1999, morreu esta segunda-feira na cidade de Lübeck, na Alemanha. Tinha 87 anos. Era considerado o porta-voz de uma geração de alemães, que quebrou o silêncio e rompeu tabus.

Morreu o escritor alemão e Nobel da Literatura Günter Grass, aos 87 anos. A notícia foi dada pela sua editora Steidl, que confirmou que o autor faleceu esta segunda-feira, 13 de abril, num hospital da cidade de Lübeck, no norte da Alemanha. Não especifica, no entanto, a causa da morte. A imprensa alemã descreve-o como o Nobel da Literatura que “quebrou tabus” e que viveu toda a sua vida com “um espírito rebelde”.

Considerado o porta-voz de uma geração de alemães, Günter Grass foi um acérrimo defensor da esquerda política, tendo-se manifestado por exemplo contra as intervenções militares no Iraque. Mais recentemente, o escritor chegou a escrever um poema de apoio à Grécia na sequência da crise do euro em que a Europa mergulhou, onde lembrava em 12 estrofes de apenas dois versos, que foi a Grécia que “concebeu” a Europa e onde tecia críticas a Angela Merkel por considerar a austeridade a única via possível.

O poema, intitulado, em português “A Vergonha da Europa”, foi escrito em 2012. Segue-se uma versão traduzida do alemão por Carlos Leite a 28 de maio de 2012:

À beira do caos porque fora da razão dos mercados,
Tu estás longe da terra que te serviu de berço.

O que buscou a Tua alma e encontrou
rejeita-lo Tu agora, vale menos do que sucata.

Nua como o devedor no pelourinho sofre aquela terra
a quem dizer que devias era para Ti tão natural como falar.

À pobreza condenada a terra da sofisticação
e do requinte que adornam os museus: espólio que está à Tua cura.

Os que com a força das armas arrasaram o país de ilhas
abençoado levavam com a farda Hölderlin na mochila.

País a custo tolerado cujos coronéis
toleraste outrora na Tua Aliança.

Terra sem direitos a quem o poder
do dogma aperta o cinto mais e mais.

Trajada de negro, Antígona desafia-te e no país inteiro
o povo cujo hóspede foste veste-se de luto.

Contudo os sósias de Creso foram em procissão entesourar
fora de portas tudo o que tem a luz do ouro.

Bebe duma vez, bebe! grita a claque dos comissários,
mas Sócrates devolve-Te, irado, a taça cheia até à borda.

Os deuses amaldiçoarão em coro quem és e o que tens
se a Tua vontade exige a venda do Olimpo.

Sem a terra cujo espírito Te concebeu, Europa,
murcharás estupidamente.

Os amigos e colegas, que agora reagem à notícia da perda, falam numa “figura literária da mais elevada estatura no pós-guerra alemão”, ou como um “verdadeiro gigante” e “uma inspiração”, como descreve o escritor indiano Salman Rushdie.

Em 2006, Günter Grass publicou a sua autobiografia, “Descascando a Cebola” (título português), que depressa se tornou polémica. Aí passava em revista a sua vida entre 1939 e 1959, começando quando tinha 12 anos, precisamente na altura em que a Alemanha entra em guerra. No livro, o escritor confessa ter integrado as Waffen-SS (unidade armada da Alemanha nazi) quando a guerra já estava perdida para a Alemanha mas ainda se pensava numa viragem. Segue para a sua adolescência, toda ela passada na destruída Alemanha do pós-guerra, a fome e as privações, o seu trabalho como mineiro e a decisão de se exilar em Paris.

Foi em Paris que escreveu “O Tambor de Lata” (The Tim Drum, em inglês), publicado em 1959, a obra que lhe deu notoriedade internacional e lhe permitiu recuperar a autoestima. Foi com esta obra que abriu caminho para o Nobel, que viria a ganhar 40 anos depois.

No discurso de agradecimento pelo reconhecimento da Academia sueca, em 1999, Grass explicou que a reação à sua obra lhe tinha ensinado como “os livros podem causar ofensa, desencadear fúria, até mesmo ódio” e que, a partir do momento em que percebeu isso, também percebeu que iria ser para sempre “controverso”.

Em 1991, em declarações à revista Paris Review, Günter Grass recusou-se a justificar ou a pedir desculpa pelo seu foco permanente na relação de opacidade que a Alemanha tinha com o seu passado nazi, argumentando que se fosse sueco, suíço ou de outra nacionalidade, poderia “ter insistido muito mais e até feito piadas sobre o assunto”. Como isso não seria bem visto, “dado o meu passado histórico, não tive outra escolha”, disse.

Antes da literatura, contudo, Günter Grass já tinha explorado várias outras formas de arte, da poesia ao drama, passando pela escultura à arte gráfica. Além do Nobel foi também também distinguido com outros galardões como o Prémio Literário Príncipe das Astúrias, o Prémio Internacional Mondello ou a Medalha Alexander-Majakovsky.

Em novembro de 2013 deu uma entrevista onde reflete sobre a sua vida, o trabalho literário e o envolvimento na política. “Percebi que era através da linguagem que me iria conseguir definir como alemão”, disse. São pouco mais de 30 minutos de entrevista, transmitidos pelo Louisiana Channel:

Um retiro no sul de Portugal

Günter Grass começou por ter uma casa em Lagoa, no Algarve. Mas, nos anos 80, juntamente com a mulher, escolheu construir uma habitação entre o Vale das Eiras e o Carriçal, na freguesia da Mexilhoeira Grande, Portimão. A natureza era a maior vizinha. De acordo com o Sul Informação, o escritor viajava muito para Portugal, com a estadia a alongar-se sobretudo na primavera e no outono. Deixou de o fazer nos últimos anos, por questões de saúde.

Para além de escritor, o alemão nascido na Polónia mostrava também a sua veia de artista plástico no Centro Cultural de São Lourenço, em Almancil. “Günter Grass tinha uma estreia ligação a Volker e Marie Huber, os proprietários do Centro Cultural, de quem era amigo próximo”, revelou ao Sul Informação a designer Cristina Palma, que foi responsável pelas exposições daquele importante pólo de cultura algarvio, encerrado em 2012. Em 2003, o Museu de Tavira/Palácio da Galeria recebeu a mostra “Günter Grass – 50 anos de obra plástica“.

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