As capas dos jornais nas últimas semanas espelham uma realidade que se constata, de resto, nos corredores da Assembleia da República e nas intervenções públicas de políticos, líderes partidários, ministros e deputados: a Grécia entrou pelo debate político nacional adentro e o país aguarda. Para a semana, o Parlamento concentra-se no último debate de fundo da legislatura, o debate sobre o Estado da Nação, e poucos são os que acreditam que a Grécia irá ficar à porta. Do lado do PSD não há duvida, a Grécia vem e provavelmente até virá pela mão do primeiro-ministro. Já do lado do PS, o ideal seria “o Estado da Nação ser sobre o estado da nossa nação”, mas Grécia é Europa e Europa é Portugal, logo, é “incontornável”.

Uma coisa é certa: se estivermos a pensar em eleições, que é fundamentalmente aquilo em que os partidos pensam neste momento, os sociais-democratas sorriem imediatamente ao dossiê grego, os socialistas nem por isso. Ao Observador, deputados e dirigentes do PS admitem que o tema “pode prejudicar” o enfoque desejado no país e pode mesmo prejudicar o discurso do PS em tempo de campanha eleitoral. Sobretudo porque o debate grego é um “debate muito apaixonado” e por isso “cria limitações ao debate político nacional”, constata o vice-presidente da bancada socialista Vieira da Silva.

O mote foi dado pelo próprio secretário-geral socialista, que esta semana chegou a dizer aos jornalistas, quase em jeito de desabafo, que a questão entre a Grécia e as instituições europeias não pode “diminuir” ou “distrair” as atenções dos problemas existentes no país, porque “aquilo que acontece em Portugal, que atinge os portugueses e as empresas portuguesas, não resulta do que se passa na Grécia mas da atuação do Governo”. E também por isso resolveu anunciar ao país uma volta pelo terreno até quarta-feira, dia do debate do Estado da Nação, para constatar in loco os problemas com que os portugueses se defrontam no dia a dia.

Já antes, o líder socialista tinha acusado o Governo de se tentar “esconder atrás da Europa” para escapar a um balanço sobre os resultados da sua governação. Este é o argumento do PS, mas teima em não colar. O Governo continua a puxar a corda da Grécia para o seu lado, usando o argumento de que Portugal só não está hoje como a Grécia porque seguiu a política do atual Governo e não a da oposição. “Se hoje não estamos na iminência de um contágio é porque não seguimos as alternativas aqui apresentadas pela oposição”, disse o primeiro-ministro no último debate quinzenal no Parlamento.

Eduardo Ferro Rodrigues, líder parlamentar socialista, não tem dúvidas de que o país vem primeiro e o debate político que os deputados e o Governo vão fazer na próxima quarta-feira em jeito de balanço do ano deve ser mesmo sobre “o estado da nossa Nação e não sobre o estado da Grécia”, diz ao Observador, acrescentando que os desenvolvimentos na Grécia sucedem-se a uma grande velocidade e resvalam a “humilhação” do Governo grego perante os líderes europeus, o que faz com que, neste momento, se trate mais de “um braço de ferro entre a Grécia e a Europa” do que algo que diga diretamente respeito ao Governo português.

“Há mais para lá da Grécia e nós pretendemos discutir o estado da Nação e falar do país”, sublinhou também o deputado João Galamba ao Observador.

Mas todas as moedas têm duas faces e, por isso, os próprios dirigentes socialistas assumem que é “incontornável” que o debate político tropece na Grécia. “A crise na Grécia, e na Europa, é uma crise gravíssima, e o debate grego é um debate europeu, logo também é nosso”, constata Vieira da Silva, para quem não vê qualquer problema em que o tema entre para o debate português desde que seja para se fazer um “debate sério e profundo sobre os problemas da Europa”. Ou seja, debater sim, falar da Grécia e da Europa também, mas não numa perspetiva eleitoralista.

Grécia, uma arma de arremesso eleitoral

A verdade é que a maioria PSD/CDS não se vai poupar a cavalgar a onda da colagem do PS ao Syriza e, em vésperas de campanha eleitoral, não vai facilitar a vida ao PS. Os sociais-democratas contactados pelo Observador, de resto, não têm duvidas de que tema vai continuar a surgir no debate político, até porque “o PS se pôs a jeito” desde que se colou à vitória de Alexis Tsipras em janeiro, ao elogiar o “sinal de mudança em curso na Europa”, e tem gerido o dossiê de forma “desastrosa”.

A opinião é unânime: António Rodrigues, coordenador do PSD no Parlamento para os assuntos europeus e internacionais, sustenta ao Observador que o PS tem sido “incoerente” no discurso sobre a Grécia, com Costa a oscilar entre o apoio e a crítica, o que faz com que o tema “seja mais prejudicial para o PS e, nesse sentido, possa continuar a ser usado pelo Governo como argumento eleitoral”.

Uma ideia que os socialistas rejeitam em absoluto, apontando baterias ao outro lado da barricada. “Se pegarem por aí [colagem do PS ao Syriza] então enlouqueceram”, atira o socialista João Galamba, enquanto Pedro Delgado Alves que se trata de um argumento “abusivo”. “Assim como é abusiva a ideia de que todos os males do mundo vieram com o Syriza”, acrescenta.

Mais crítico é o vice-presidente da bancada socialista Vieira da Silva, que admite que, “no curto prazo, o Governo faça essa leitura com base numa lógica eleitoralista, mas no médio e longo prazo as consequências são mais pesadas do que isso”. Falando de “miopia política” do Governo, Vieira da Silva defende que as consequências do que se está a passar na Grécia são reais e não se “medem nos próximos meses” nem tão pouco “servem interesses eleitoralistas”. Os riscos maiores, segundo diz, estão na “descredibilização da Europa” e, nessa base, “seria até vantajoso Portugal fazer esse debate de forma séria e profunda”.

Certo é que todos concordam, do PS ao PSD, que a Grécia é um tema incontornável no debate que se faz sobre o país e, nomeadamente, sobre o Estado da Nação. “Estranho seria se a Grécia não fosse abordada no debate”, resume o socialista Pedro Delgado Alves, tanto mais que o debate se fará no rescaldo do referendo grego. Mas pela mão de quem? Duarte Marques, deputado do PSD, não acredita que vá ser por iniciativa direta dos partidos da maioria, mas nas réplicas diz que é certo que a direita vai aproveitar a oportunidade.

Mais: pode mesmo ser Pedro Passos Coelho a puxar o assunto, defende António Rodrigues. “O primeiro-ministro pode puxar o assunto, porque o que se está a passar na Grécia faz parte do Estado da Nação, faz parte da política externa portuguesa, e vamos estar no rescaldo do referendo grego por isso é um tema incontornável”, disse.