16 de maio. O ano era o de 2006. Terça-feira à noite no estádio Ramón Sánchez Pizjuán, em Sevilha. O Real Madrid de Juan Ramón López Caro (que cedo substituiu o brasileiro Wanderlei Luxeburgo nessa época) perdia por 4-2 ao intervalo. Zinedine Zidane não saiu do jogo sem molhar a sopa. E entenda-se “molhar a sopa” como fazer um golo. Fê-lo aos 73′ – não chegou para a remontada e o Real ficar-se-ia pelos 4-3 no final. Foi o derradeiro jogo que Zidane fez com a camisola blanca ao peito.

Não se despediu aí do futebol. Despedir-se-ia, sim, mas no verão, um au revoir sem glória pela Seleção francesa, que transportou às costas (ou melhor, nas botas) até à final do Mundial, em Berlim, mas um tal de Marco Materazzi tirou-o do sério – e logo a ele, Zidane, que era seriíssimo, sempre de rosto sisudo e sobrolho franzido, jogo após jogo, em todos os jogos de uma vida de bola –, tirou-o da final aos 110′ e tirou-lhe a taça Jules Rimet das mãos.

Zidane não terminou a carreira como quis. E não terminou porque não venceu um troféu que seja nesse ano de 2006. Mas teve o talento e os troféus que muitos desejariam ter e não tiveram. Zizou, o “príncipe de Marselha”, filho de imigrantes argelinos, começou cedo a tratar a redondinha por tu, primeiro em Cannes, depois em Bordéus. Mas a Ligue gaulesa era pequena demais para talento tão desmedido. Saiu de lá em 1996, ainda cabeludo, em direção a Itália e ao estádio delle Alpi.

Lá, na Juventus, só se perdeu o cabelo, surgiu-lhe no cocuruto a calvície que também o caracterizou no futebol, mas a técnica e a tática aprimoraram-se, às mãos de Marcello Lippi. Zidane, sempre ligeiramente curvado — mas elegante –, sempre a rodopiar sobre a bola, a ziguezaguear entre defesas, vagarosamente – ou falsamente vagaroso; ele era tudo menos lento –, como se o mundo parasse para o ver quando o fazia, em Zidane tudo era simplicidade, a simplicidade dos tremendamente talentosos, a redondinha não se lhe descolava da bota como se íman tivesse, fazia golos de todo o lado, de toda a forma e feitio, assistia quem os fizesse também.

Zidane foi um ídolo em Turim e na Juventus, tão ou maior do que Boniperti, Altafini, Zoff, Platini ou Del Piero.

Zizou, do centro do relvado para o canto do banco

De ídolo em Turim a ídolo em Madrid. Zinedine Zidane foi o segundo “galáctico” da primeira era de “galácticos” de Florentino Pérez, depois de Luís Figo e antes de Ronaldo (o “fenómeno”) e David Beckham. E aí, no Santiago Bernabéu, já campeão da Europa e do Mundo por França, Zizou venceu tudo o que tinha ainda para vencer, incluindo a tão desejada Liga dos Campeões – é de se bradar aos céus, sim, mas a verdade é que Zidane só venceu uma Champions em toda a carreira.

Acabou-a, a carreira de futebolista, naquela malograda noite de Sevilha. O Real Madrid dos “galácticos” de Florentino Pérez acabaria também aí. Ou melhor, interromper-se-ia; Florentino deixou o Real em 2006, mas regressou a ele, e com um Cristiano Ronaldo na manga, em 2009. Mas Zidane não deixou nunca a cidade de Madrid e o Real. Os quatro filhos, Élyaz, Theo, Luca e Enzo, são todos eles futebolistas do clube – o mais talentoso de todos, Luca, não quis ser “10” como o pai e os irmãos e voltou-se para as balizas.

Mas falemos de Zidane, o pai. Primeiro, a convite de Florentino, fez-se Diretor Desportivo do clube. Foi-o por uma só temporada, em 2011-2012. Faltava-lhe o cheiro da relva em vez do dos gabinetes, faltavam-lhe as botas esborratadas de verde e terra na vez dos sapatos a reluzir de graxa, faltava-lhe o balneário e quem nele habita. E voltou. Não para ser futebolista, mas para ser treinador-adjunto de Carlo Ancelotti.

LISBON, PORTUGAL - MAY 24: Head Coach, Carlo Ancelotti of Real Madrid looks on as Assistant coach Zinedine Zidane of Real Madrid as he shouts instructions during the UEFA Champions League Final between Real Madrid and Atletico de Madrid at Estadio da Luz on May 24, 2014 in Lisbon, Portugal. (Photo by Shaun Botterill/Getty Images)

(Créditos: Shaun Botterill/Getty Images)

Tomou-lhe o gosto com “Carletto” e foi treinador, a solo, no Castilla — os BB do Real Madrid. Esperar-se-ia dele que fosse no Real o que Guardiola foi no Barcelona, talvez. É que também Pep treinou primeiro o Barça da miudagem e só depois o Barça dos graúdos. Mas ao contrário de Pep, o Castilla de Zizou não era de tiki-takas. O futebol era até sofrível (o Barça B de Guardiola venceu a III Divisão espanhola em 2007/2008, por exemplo) e o Real Madrid Castilla só terminou em 5.º lugar na II Divisão B – ainda assim, a somente dois pontos do 4.º, o último a dar acesso ao playoff de subida à II Divisão.

Em 2015/2016, na segunda temporada em que Zidane é treinador principal (e a primeira, diga-se, em que inicia a época nessa condição), não só o futebol melhora, como Zidane deixa a equipa em 2.º lugar, a somente quatro pontos do apuramento direto para a II Divisão. E deixa porquê? Porque chegou a hora de sentar-se no banco do Real Madrid no Santigo Bernabéu. Não mais ao meio ou à direita, como quando raramente se sentava como suplente, não o segundo lugar à esquerda, o de adjunto, mas o primeiro à esquerda, o de treinador principal.

Não é mais o Zizou que “arrumou” com o Leverkusen na final da Liga dos Campeões de 2002, em Glasgow, num remate de primeira e canhota que nem voando Hans-Jörg Butt defenderia. O cabelo, perdeu-o todo. De vez. Mas o rosto é o mesmo dos dias em Cannes, circunspecto, sereno, franzido, sem uma só comissura no rosto que revele insegurança ou rejúbilo, o rosto competitivo de quem quer vencer, sempre. E como o Real precisa de vencer. E convencer. Rafael Benítez nunca o fez. Nem convenceu a afición, nem os futebolistas.

¡Bienvenido de nuevo, Rafa! ¡Adiós y hasta nunca, Rafa!

Rafael Benítez também foi médio como Zidane. Mais recuado do que subido. Menos, incomensuravelmente menos talentoso do que o gaulês. Mas ao contrário de Zidane, que se fez madrileño à força (mais a técnica do que a força na verdade) de umas botas que bem-queriam a bola, Benítez foi um futebolista nado e criado no Real Madrid, mas nunca chegou dos BB aos AA. E saiu cedo do Real, primeiro para o Parla e depois para o Linares, clubes modestos de divisões onde o futebol se disputava em pelados e num tempo onde a canela era até ao pescoço.

Tinha 26 anos quando deixou os relvados – ou pelados, como se queira. Voltaria a Madrid para treinar os juniores do Real e depois o Castilla. Fê-lo de 1991 a 1995. Seguiam-se Valladolid, Osasuna, Extremadura, Tenerife e Valência. Não avancemos mais. Valência foi a cidade onde Rafa, como lhe chamam nuestro hermanos, venceu dois campeonatos de Espanha. Era o Valência de Cañizares, Ayala, Baraja, Albelda, Vicente, Pablo Aimar ou Angulo.

Pela primeira vez como adversário e enfim de regresso a Valência, este domingo, 3 de janeiro, Rafa Benítez tinha uma tarja na bancada dos adeptos adversários que dizia somente: “Nos regalas los mejores años de nuestras vidas.” Não é preciso tradução de maior. Os adeptos do Valência não se esqueceram dele, até porque, para além dos dois campeonatos, Rafa também venceu uma Taça UEFA – e não mais, desde ele, o Valência voltou a vencer o que quer que seja.

O jogo não lhe correu bem enquanto treinador do Real Madrid. Aliás, poucos são os que lhe correram (realmente) bem esta temporada. É verdade que venceu o Grupo A da Liga dos Campeões (e tinha os petro-milionário PSG por adversário), é verdade que só foi eliminado da Taça do Rei pelo modesto Cádiz porque utilizou o castigado Cheryshev na primeira-mão da 4.ª ronda (o Real recorreu entretanto da decisão da Federação Espanhola de Futebol, mas dificilmente há volta a dar na derrota “de secretaria”) e também não é menos verdade que só está a quatro pontos de distância do líder Atlético de Madrid.

O problema não é esse. Ou só esse. O problema é que o futebol do Real é desgarrado, até medíocre, cometem-se erros atrás de erros na defesa, o ataque, mesmo com Ronaldo, Bale e Benzema, não rende o que rendia com Ancelotti e no meio-campo Modric e Kroos “desaprenderam” de jogar.

O plantel não estava com ele, sussurrava-se (a pouco e pouco o sussurro virou berraria) nas bancadas do Bernábeu e dava-se à estampa na Imprensa de Madrid. Florentino aguentou-o até onde pôde. Mas de cada vez que o aguentava no banco, Benítez não aproveitava os deslizes de Barcelona e Atlético. E em Madrid não se quer voltar a não vencer o campeonato – desde que Mourinho saiu que o Real não é campeão de La Liga, ainda que tenha vencido “La Décima”, a Liga dos Campeões que Ancelotti, Ronaldo e demais merengues ergueram no estádio da Luz.

during the UEFA Champions League Group A match between Real Madrid CF and Paris Saint-Germain at Estadio Santiago Bernabeu on November 3, 2015 in Madrid, Spain.

(Créditos: Denis Doyle/Getty Images)

Ao contrário de Zidane, Benítez não foi um futebolista de eleição. Mas também ao contrário deste, é um treinador que venceu títulos, muitos títulos, de Valência ao Liverpool, passando pelo Inter de Milão, Chelsea e Nápoles. Se foi sempre um bem-amado? Não. É que Benítez, mesmo vencendo, é um treinador que ficou conhecido por ser melhor nas competições de “mata-mata” do que nos campeonatos nacionais.

O perfil defensivo de Benítez “em casa” não só não entusiasma os adeptos, como lhe cria anticorpos entre os futebolistas que treina. Sobretudo os que têm tantos ou mais títulos do que o próprio treinador. Como disso é exemplo Materazzi, que de Rafa Benítez disse, no Inter pós-Mourinho: “Benítez, no balneário, tinha medo até da própria sombra. Eu tinha recortes dos meus êxitos no balneário e obrigou-me a tirá-los. Quando venci a final da Liga dos Campeões com Mourinho, disse-lhe: ‘És um imbecil! Vais-te embora [para o Real Madrid] e deixas-nos com o Benítez! Nunca te perdoarei, Zé…” Sim, é o mesmo Marco Materazzi que tirou Zidane do sério. Por ele, certamente que nem um nem outro, nem Zizou nem Rafa, treinariam o Real Madrid.

Mas é Zizou o monsieur que se segue. Não é tão anafado como Rafa (José Mourinho, respondendo a uma “boca” da mulher de Benítez, sugeria-lhe: “Que se dedique mais a cuidar da dieta do marido e em falar menos de mim.”); não sua em bica quando o remate de Ronaldo, de Bale ou de Benzema não entra — ou o que é entra é o remate dos adversários; nem dá sinais de não saber como resolver o berbicacho onde se vê metido durante os jogos. Mas há um berbicacho para resolver, sim: o de pôr o Real a vencer. Mais do que a vencer, a convencer.

Se Zidane for como treinador metade do futebolista que foi, fará certamente melhor do que Rafa. Mas, até ver, não é melhor treinador (nem mais vencedor no banco) que ele. Tem meia temporada para mostrar o que vale.