Talvez reconheça a imagem que acompanha este artigo, da história de amor entre Jeremy Cohen e Tori Cignarella, dois vizinhos que se apaixonaram durante a quarentena decretada em Nova Iorque. Mas um pouco por todo o lado há relatos de casos de amor, alguns interrompidos pela Covid-19, mas muitos deles felizes.

E se o namoro de Jeremy e Tori está ainda a começar, a história de Umberto e Maria já leva muitos anos de avanço. O casal de italianos celebrou há uma semana 56 anos de casados e nem o facto de Maria estar internada no hospital Amedeo di Savoia, em Turim, impediu que a data fosse celebrada. Os enfermeiros do hospital arranjaram o bolo e levaram-lhe a visita de Umberto para os saudarem por mais um aniversário de matrimónio. Para a posteridade fica também o vídeo do momento, registado através de um telefone protegido contra o novo coronavírus o que limita a capacidade de captar uma imagem nítida.

Imagem: Facebook Agenzia Vista @agenziavista / Alexander Jakhnagiev

O casamento surpresa na varanda

José e Déborah, que ficaram noivos em junho de 2019 — quando ainda ninguém sabia da existência do novo coronavírus — tinham a festa toda preparada para dia 4 de abril, relata o El País. Mas a atual situação impedia que o casal espanhol pudesse casar-se  ou, pelo menos, assim pensavam. Os amigos do casal é que não ficaram convencidos com o cancelamento da festa e decidiram avançar: convocaram os vizinhos na rua do casal, levaram um véu e flores para a noiva e uma cartola e laço para o noivo, que foram deixados com toda a segurança à entrada do prédio, para serem recolhidos. O celebrante? O alcaide Javier García Ibáñez. Além de saber de tudo o que ia acontecer e ter permitido que alguns elementos da proteção civil pudessem participar na surpresa para o casal, foi o autarca quem oficializou o casamento — ainda que sem efeito legal.

O casamento foi gravado através de um drone. Imagens: El País

Os noivos pouco convencidos no início e em lágrimas pela surpresa deram lugar aos recém-casados mais felizes do bairro de Arnedo, na comunidade autónoma de La Rioja, no norte do país. Além da falha presencial dos convidados, o tradicional atraso da noiva à chegada à cerimónia também não aconteceu, já que era meio dia certo quando as sirenes dos carros da proteção civil chamaram à atenção e fizeram o casal vir à varanda. Depois do levantamento das restrições em Espanha, José e Déborah deverão voltar a casar-se, desta feita oficialmente, já que o enlace de 4 de abril não tem validade.

A hipoteca que permitiu a volta ao mundo num cruzeiro

A história dos ingleses Simon e Kerry foi contada pelo El País e dá conta de um casal que há vários anos sabe o que é estar confinado a uma casa. Kerry sofre de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e tem sido o marido Simon a cuidar dela nos últimos anos. Para garantir que cumpria um dos sonhos da mulher, Simon hipotecou a casa para poder pagar uma volta ao mundo num cruzeiro. Embarcaram em Southampton no dia 3 de janeiro e a chegada estava agenda para o domingo de Páscoa, dia 12 de abril. Seriam vários meses a navegar e a pisar continentes distintos: um sonho de muitos. Mas tudo mudou quando começaram a ser impedidos de desembarcar.

Primeiro na Ásia: China e Hong Kong impediram que o cruzerio Utopia atracasse. As notícias sobre o coronavírus eram poucas, mas começavam a chegar a bordo. O capitão no navio informou que o “elemento asiático seria evitado” e que continuariam a rota traçada. Mas com o passar dos dias em navegação também o novo coronavírus se foi espalhando por vários países, o Sri Lanka, de onde Simon é natural e onde tinha combinado uma refeição com os primos, também lhes barrou a entrada. A Austrália recebeu o cruzeiro, o que permitiu ao casal viver a experiência de estar perto de koalas, mas pouco mais têm a contar da experiência fora do cruzeiro. À medida que o tempo foi passado e o número total de mortos causados pela Covid-19 aumentou, também o tempo passado a navegar foi sendo cada vez maior. Sem garantia de que não tinham casos a bordo, o cruzeiro atracou durante cinco dias na África do Sul, na costa de Durban, mas o desembarque não foi autorizado e o navio pode apenas abastecer.

A aproximar-se já da costa do Reino Unido o receio de Simon agora são as medidas de isolamento a que os britânicos estão sujeitos e a garantia de cuidados de saúde para a mulher. Já tentou pedir a um familiar que fosse ao supermercado comprar tudo o que precisa, mas este recusou com medo de ser infetado. Simon e Kerry terão de continuar em isolamento, na casa que hipotecaram para poder realizar o sonho de dar a volta ao mundo num cruzeiro.

Começar um namoro em tempo de quarentena

Do outro lado do Atlântico estão Jeremy Cohen e Tori Cignarella, que as redes sociais ajudaram a catapultar para o estrelato. Jeremy fez-se valer de um drone para chegar à vizinha no prédio do lado de lá da rua e desde então tem usado várias redes sociais para fazer o relato da estória de amor que nasceu na quarentena imposta em Nova Iorque.

O recém casal vive em Brooklyn e Jeremy até já arranjou uma forma de chegar a Tori sem lhe tocar: dentro de uma bolha. Antes, jantaram fora, com ajuda do Facetime e cada um no seu prédio. Jeremy e Tori partilharam uma refeição, mas não foi suficiente para o engenhoso Jeremy, que já tinha anunciado nas redes sociais o plano para se aproximar da vizinha. A polícia ainda foi ao local, mas para tirar uma fotografia com o original recém-casal. O fotógrafo aproveitou o momento viral e a visibilidade que alcançou para pedir a todos que fizessem donativos para apoiar as instituições de solidariedade Help Main Street! e Feeding America, que trabalham a ajudar a combater a pandemia da Covid-19.