Edição e as incursões de Pessoa na tradução e no cinema. Foram estes os temas tratados na reta final do primeiro dia da edição de 2021 do Congresso Internacional Fernando Pessoa, que de dois em dois anos reúne em Lisboa investigadores e leitores em torno da obra do poeta português.

Na primeira sessão da tarde, dedicada às edições das obras de Pessoa, participaram Luiz Fagundes Duarte, Caio Gagliardi e João Dionísio. Os dois últimos, falaram sobre a marca irónica do “jogo editorial” pessoano e da génese da Mensagem, respetivamente. O primeiro, defendeu uma edição definitiva dos poemas de Álvaro Caeiro que acabe com a “subjetividade” das diferentes edições.

Na opinião do investigador, editor e professor aposentado da Universidade Nova de Lisboa, a organização destas é “tão subjetiva” que “é impossível encontrar um padrão comum a cada uma” delas. Por isso, é importante encontrar um consenso, um critério que agrade aos editores de referência e publicar uma edição que seja também ela “de referência”, afirmou no auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, onde decorre o evento até sexta-feira.

[O congresso decorre de forma presencial na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, mas pode ser acompanhado online, aqui:]

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Dos vários poemas hoje atribuídos a Álvaro Campos apenas 18 foram publicados por Fernando Pessoa, em jornais e revistas do seu tempo. Estes “constituem e edição definitiva” da obra de Campos, mas todos os volumes com poemas do heterónimo incluem muitos outros textos — os que foram acabados e assinados, mas não publicados; os que foram terminados, mas não assinados; e os que ficaram inacabados, que constituem a maior parte do corpus poético do autor de “Ode Triunfal”.

Segundo a informação recolhida por Teresa Rita Lopes e citada pelo investigador durante a comunicação, o primeiro grupo de poemas póstumos, com autoria expressa ou não, inclui pelo menos 227 poemas; o segundo, é composto por um número ainda não consolidado de fragmentos, “alguns deles provavelmente publicados como se fossem poemas autónomos e outros como materiais genéticos de poemas dados como terminados ou pontualmente lacunares”.

Esta situação permitiu o surgimento de edições muito diferentes, que variam no critério de organização adotado e no número de poemas incluídos, que vão desde os 102 da edição de Luís de Montalvor (Edições Ática, 1944) aos 245 da edição de Teresa Rita Lopes (Assírio & Alvim, 2002).

“Os editores têm procurado fazer edições que nada têm de definitivo, trabalhando-os [os poemas] com inegável competência técnica, mas de acordo com os seus gostos e interpretações pessoais e provavelmente sem se perguntar se Pessoa terá desejado alguma vez se o poeta Campos fosse da maneira como o dão”, apontou Fagundes Duarte, lembrando que as escolhas pessoais dos editores têm afetado inclusivamente “os poemas assinados por Campos e que o próprio Pessoa publicou”.

“Com efeito, em cada um dos quatro editores hoje de referência [Montalvor, Beradinelli, Lopes e Pizarro e Cardiello], estes poemas aparecem não pela ordem de publicação original, mas de acordo com cenários criados pelos editores”, afirmou.

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“Quase que poderíamos dizer que a tradição de quatro décadas de edição da poesia de Álvaro de Campos reflete o que se passou em milénios com a tradição editorial da Bíblia, que continua a ter formas e conteúdos diferentes consoante os públicos e as tradições”, comparou, lembrando que “há a Bíblia dos judeus, com aquilo a que os cristãos chamam o Velho Testamento”, a Bíblia dos cristãos católicos e ortodoxos e a Bíblia dos cristãos protestantes. “Porém, quando falam em abstrato desta obra fundadora, todos se referem como sendo única”.

“Parece que estamos a caminhar para algo parecido no que diz respeito à obra poética de Campos, e o mesmo se diria para o Livro do Desassossego de Bernardo Soares, em que cada edição é uma coisa diferente. E não porque os materiais sejam diferentes, mas porque os editores são diferentes”, afirmou Fagundes Duarte, defendendo que, no caso do heterónimo, “o trabalho do editor” parece ter vindo a “prevalecer sobre a obra do autor de que, ao contrário da Bíblia, conhecemos os originais ou impressos autorizados”.

Apontando mais uma vez as “variações de critérios” das edições de referência, o investigador, que em 2019 publicou uma edição crítica da Mensagem, defendeu “a necessidade de encontrar um consenso entre os vários editores ou as várias edições”, criando uma edição que seja definitiva. “O público precisa de ter aquilo a que se poderia chamar de uma maneira relativamente elegante ‘a poesia de Álvaro de Campos’”, defendeu, apresentando aquela que seria a estrutura mais adequada para essa edição — começaria com os 18 poemas publicados em vida de Pessoa e terminaria com os fragmentos soltos e aparatos.

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“Não faz sentido que uma coisa que é objetiva como os poemas editados em vida sejam publicados de maneira diferente pelos editores, não por razões que tenham a ver com a vontade do autor, mas apenas porque há aí uma subjetividade. E é contra essa subjetividade que gostaria de apresentar o meu contributo neste encontro e esperar que, ao fim destes anos todos de experiência editorial pessoana, possamos encontrar condições para haver uma edição de referência”, desejou Fagundes Duarte.

No segundo painel da tarde, Patricio Ferrari falou da publicação das obras de Pessoa na editora nova-iorquina New Directions, em que tem tido participação ativa. Depois dele, Carlotta Defenu apresentou uma comunicação sobre a génese das traduções dos poemas de Edgar Allan Poe publicadas por Pessoa e Marcelo Cordeiro de Mello abordou os argumentos para cinema escritos pelo poeta português.

Três investigações que fecharam o primeiro de três dias do congresso, que recomeça quinta-feira de manhã com uma homenagem a duas pessoanas recentemente desaparecidas, Maria Aliete Galhoz e Ana Maria de Freitas.