É uma entrevista polvilhada por risos, mas nunca gargalhadas. São risos como aqueles que se ouvem nos velórios de familiares chegados e que ajudam, de uma forma inexplicável, a lidar com a tristeza. É assim que o Charles Powell, historiador e biógrafo de Juan Carlos, fala ao Observador numa entrevista por telefone sobre o tema incontornável em Espanha e não só: o cume da desgraça de Juan Carlos, atingido esta segunda-feira com a carta que o rei emérito enviou ao filho, o rei Felipe VI, anunciando que ia sair de Espanha para poupá-lo às próprias polémicas.

“Já tive gente a dizer-me que isto é como se fosse a morte de um familiar”, confessa Charles Powell ao Observador. Muita gente lhe tem ligado desde a notícia desta segunda-feira. Não é para menos: Charles Powell é um dos autores mais destacados no estudo da figura que é Juan Carlos, de quem escreveu a biografia política “Juan Carlos of Spain: Self-Made Monarch” (sem edição portuguesa). Além deste livro, tem outro cuja tinta ainda mal secou, sobre o papel de Juan Carlos na política externa espanhola — a maior das ironias, numa altura em que Juan Carlos é suspeito de ter utilizado essa sua posição para enriquecer ilicitamente. “Não faço ideia do que é que agora faço àquilo”, diz. A obra já estava acabada, mas agora Powell quer fazer-lhe alguns ajustes. Se fosse publicado como está, o autor admite: “Iria fazer figura de parvo”.

Enquanto historiador, Charles Powell, que é também diretor do think-tank mais prestigiado de Espanha, o Real Instituto Elcano, tem assumido o esforço de sublinhar a importância de Juan Carlos no período da Transição do franquismo à democracia. Agora, assumindo que a maior culpa nisso é de Juan Carlos, Charles Powell admite: “Isso vai ser uma tarefa cada vez mais difícil para pessoas como eu“. É quando diz esta frase que solta o maior riso desta conversa. É, decerto, uma forma de lidar com a tristeza.

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