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KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

Factos e figuras que marcaram 2020. As escolhas da redação do Observador /premium

2020 tem nome marcado a medo, urgência e perda: Covid-19, a doença que mudou o mundo e nos baralhou as vidas. Quase tudo o resto foi centrifugado por esta pandemia. Factos e figuras de um ano difícil.

[Este Especial está apenas disponível na versão web do nosso site. Para o ler de forma correta, por favor siga este link.]

É tão óbvio que até custa escrever a frase, mas não se foge do incontornável: o mundo mudou em 2020. Primeiro chamámos-lhe vírus misterioso, depois coronavírus e rapidamente passámos a conviver ao segundo com a palavra Covid-19. A doença provocada pelo Sars-CoV-2 foi primeiro detetada na China a 17 de novembro de 2019, mas a Europa só a conheceu na primeira semana de janeiro deste ano que está a acabar, e com ele mais uma década. Alastrou-se sem excepções pelo planeta, contagiou quase 80 milhões, matou mais de 1 milhão 720 mil pessoas e revolucionou os nossos dias.

Em pouco tempo aprendemos a conjugar três verbos — desinfetar, distanciar, confinar —, a repetir dois substantivos — máscara (a quase prótese da nova era) e álcool gel —, a tremer pelos nossos velhos e a transformar-nos em fiéis dependentes do online, adorando o Zoom e outras ferramentas que tais — só com elas sobrevivemos no teletrabalho e nas relações.

O inimigo invisível e altamente invasor não infetou apenas, afetou tudo: dos sistemas de saúde à economia, da educação ao desporto, da religião à justiça, da indústria às finanças, da política à cultura, das comunicações às (não) viagens, da tecnologia à ciência. E, aqui, mostrou aos céticos o valor da investigação científica, célere em encontrar uma vacina.  Por isso, não admira que as escolhas dos factos e das personagens de 2020 feitas pelos jornalistas da redação do Observador (jornal e rádio) tenham a marca da Covid-19. Mas há algumas exceções, como pode descobrir a seguir.

A luta pela nossa sobrevivência

A 12 de março o primeiro-ministro falou ao país para comunicar o encerramento das escolas e outras medidas. A partir deste dia já nada seria igual: começou a guerra contra um inimigo invisível.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Rui Pedro Antunes

Editor de Política

Parecia ficção, mas foi o momento em que o país chocou com a realidade. O ambiente era pesado e o momento solene. António Costa acercou-se do púlpito como quem declara que um país vai entrar em guerra e disse de forma pesarosa: “Esta é a luta pela nossa sobrevivência”. O país estava meio perdido em busca de um rumo. E de um líder. O Presidente estava num autoisolamento em Belém e Costa tinha de tomar as rédeas: recebeu os partidos, fechou as escolas e o país entrou num confinamento sem paralelo. Numa sala ainda com jornalistas amontoados e ministros sem distanciamento ou máscara, Costa falou ao país, que o ouviu atentamente e, bom aluno, cumpriu tudo à risca nesses idos de março.

Marcelo sairia de Belém para ajudar e partilhou com Costa a gestão político-mediática da pandemia. À exceção de graves falhas em tragédias (como os incêndios de 2017), Costa e Marcelo eram, até aqui, abençoados por uma sorte circunstancial em planos mais estruturais (como as sanções, os juros da dívida ou a conjuntura internacional) ou mais-ou-menos espirituais, como a vitória no Euro, no Festival da Canção ou na escolha de Guterres na ONU. Muitos meses depois, Marcelo avisou que até Churchill perdeu nas urnas depois da Guerra, apesar de a ter vencido. Costa, que o adversário Covid haveria também de isolar em S.Bento, teve o ano mais difícil da sua governação. A luta, como bem sabia naquele momento, também era (como ainda é) pela sua sobrevivência política.

Os Açores e o fim do tabu à direita?

Rio não confia em Ventura, mas pode precisar dele. Ventura precisa de Rio, embora só tenha a ganhar com o seu desgaste. Os Açores foram a antecâmara de algo maior ou dança entre a rã e o escorpião?

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Miguel Santos Carrapatoso

Editor adjunto de Política

A inclusão do Chega no acordo que varreu socialistas do mapa açoriano atirou a direita para o divã: André Ventura é um instrumento para derrotar António Costa ou há linhas vermelhas que não se ultrapassam? Não há uma resposta evidente. A união das direitas nos Açores fez-se à custa de muita divisão, críticas e evidente embaraço — Rui Rio continua a garantir que o acordo é meramente regional e que não houve conversas com o líder do Chega; Ventura vai jurando a pés juntos que acertou tudo com Rio e até admite que o PSD possa ter “vergonha” de o assumir como parceiro de tango. Com ou sem vergonha, o Chega tornou-se o epicentro de qualquer conversa sobre a reconfiguração da direita, abençoado pelo pragmatismo do PSD, que não pretende dispensar votos e deputados; pela resignação da Iniciativa Liberal, que sabe não ter força para traçar cordões sanitários; e pela aflição do CDS, que continua sem antídoto para travar a ascensão de Ventura à custa dos votos que, tradicionalmente, lhe eram confiados. Ventura, esse, segue seguro e já vai exigindo pastas ministeriais num futuro Governo de direita. O tabu desfez-se, mas a realidade nem por isso: não há qualquer sondagem que dê como provável uma maioria de direita. Será só uma questão de tempo?

Orçamento (no) vermelho

António Costa no primeiro dia do debate do primeiro Orçamento que aprova sem o Bloco de Esquerda. Em tons de vermelho.

LUSA

Rita Tavares

Grande repórter de Política

A 27 de outubro, António Costa entrou no Parlamento para provocar. Trazia máscara vermelha, gravata vermelha, caneta vermelha, pasta de documentos vermelha e até meias… também vermelhas. Já sabia que não contaria com o Bloco de Esquerda para viabilizar o Orçamento — pela primeira vez o partido votou contra um OE de um Governo seu — e ali estava o primeiro-ministro com o vermelho comunista da cabeça aos pés, o parceiro da “geringonça” que sobrava para salvar o OE para 2021 (também com o PAN). Nos meses seguintes, o BE garantiu que não estaria de costas voltadas, mas o PS não estão para lá virado desde esse voto contra. 2021 arranca com um Orçamento politicamente maculado, aquele que passou pela margem menor na era Costa. Viver em maioria relativa nunca foi tão difícil para António Costa que tem no próximo ano várias provas de fogo para a sua resistência política: uma Presidência da União Europeia delicada em pleno arranque (assim se espera) da vacinação contra a Covid-19; uma campanha autárquica com o país em crise; um Orçamento do Estado sem certezas de conseguir aprovar. Isto se não houver ainda um retificativo pelo caminho. O suporte político do seu Governo ficou — também ele — no vermelho com o OE 2021.

O ‘momento Autoeuropa’ da coabitação

A 13 de maio Costa e Marcelo fizeram visita conjunta à Autoeuropa, em Palmela. Foi o dia em que o primeiro-ministro lançou a recandidatura de Marcelo a Belém com a promessa de um almoço na cantina

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Rita Dinis

Jornalista de Política

Ninguém estava à espera. Nem o próprio Marcelo. A visita tinha sido preparada em conjunto, entre Belém e São Bento, e seria semelhante à visita que já tinha acontecido em 2016, no primeiro ano de mandato do Presidente. A diferença era que, desta vez, estávamos em plena pandemia e os cuidados teriam de ser redobrados. Costa e Marcelo chegaram com poucos minutos de intervalo, e traziam na comitiva talvez mais gente do que seria de esperar para os tempos pandémicas que estávamos (e estamos) a viver. Até Ana Catarina Mendes, líder parlamentar do PS e deputada por Setúbal, ali estava. Alguma coisa estava prestes a acontecer. Primeiro foi a visita à cantina da fábrica, algum contacto com os trabalhadores, depois a visita às instalações propriamente ditas e um pequeno test drive — cada um no seu carro. No final, declarações à imprensa. Era o momento. António Costa aproxima-se do microfone e faz a jogada que tinha ensaiado: lembra que a primeira vez que os dois ali tinham estado tinha sido no primeiro ano do mandato do Presidente e que agora ali estavam, no último ano do primeiro mandato. A terceira vez, por isso, teria de ser no ano seguinte, naquele que virá a ser o primeiro ano do segundo mandato. Tudo para cumprir esta “nova tradição”. Ah, e porque Marcelo tinha provado o pastel de bacalhau da cantina e tinha prometido aos trabalhadores lá voltar para fazer a refeição completa. Lá atrás, enquanto Costa falava, os olhos de Marcelo arregalavam-se. Valia-lhe a máscara que escondia metade da expressão. Quando foi a sua vez de dar um passo em frente para falar aos jornalistas, Marcelo não se desmanchou: disse que o próximo ano seria difícil e que tanto ele como Costa lá iriam estar. Estava pré-lançada a recandidatura do atual Presidente a Belém (o lançamento só aconteceria 7 meses depois) e o embaixador era nada menos do que o primeiro-ministro. Não era bem isto que Marcelo tinha pensado. Muito menos o PS…

A política na rua do PCP

Primeiro comício do Partido Comunista Português depois do confinamento geral imposto para conter a pandemia da Covid-19. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Rita Penela

Jornalista de Política

A 7 de junho o PCP voltou às ruas, com o país ainda a meio-gás para retomar o contacto com a população — e tentar recuperar das fortes críticas de que foi alvo no 1.º de Maio. A mesma linha de persistência seguiu o partido durante todo o ano. Contra a declaração de estado de emergência e a restrição de direitos, liberdades e garantias haveria de realizar a Festa do Avante, no início de setembro e em novembro, já depois de declarado novamente o estado de emergência no país o XXI Congresso do partido.

Costa e Centeno. A encenação dos atores principais

Mário Centeno queria sair, António Costa queria que aguentasse mais um pouco. A 13 de maio, encenaram uma reunião noturna em S.Bento para disfarçar um casamento por conveniência com fim anunciado

Rui Casanova

Jornalista da Rádio Observador

A noite afigurava-se longa. O primeiro-ministro tinha uma reunião noturna e inesperada com o ministro das Finanças em São Bento, num dia especialmente tenso na relação entre os dois. Estávamos em maio e a polémica em torno do empréstimo do Estado ao fundo de resolução do Novo Banco marcava a atualidade política, com muita especulação em torno de uma possível saída de Mário Centeno do Governo. Certo é que, nessa noite, todas as dúvidas foram desfeitas. A reunião durou três longas horas e terminou com António Costa e Mário Centeno a saírem juntos do palacete. Sorridentes e num tom descontraído, despediram-se com acenos antes de seguirem para os carros que os esperavam — sem qualquer declaração aos jornalistas. A reunião dava jeito a Centeno, que tinha sido criticado pelo Presidente da República e queria sair, mas não queria estragar a relação com Costa ao ponto de já não ir para Governador do Banco de Portugal. Por outro lado, dava jeito a Costa, que queria que Centeno ainda preparasse o orçamento suplementar e mostrar que era ele quem mandava no Governo e não Marcelo. Encenação feita, ficaram então — segundo um comunicado emitido na mesma noite — “esclarecidas as questões sobre a falha de informação atempada ao primeiro-ministro” sobre o financiamento ao Novo Banco. O sinal que queriam passar era claro: Centeno ia continuar e estava tudo bem. Mas era um casamento por conveniência que ambos — e a bolha política — já sabiam que tinha um divórcio marcado para breve. Centeno acabaria por sair menos de um mês depois, mesmo com uma crise económica provocada pela pandemia ainda a dar os primeiros passos e a piorar. Foi o primeiro dia dos últimos de Centeno no Terreiro do Paço. Acabaria por sair menos de um mês depois, mostrando que os tinha estado a contar, um a um, como quem faz riscos na parede: “É o fim de um ciclo longo, de 1.664 dias como ministro das Finanças”.

O dia em que o Governo quis tornar a app de rastreio à Covid-19 obrigatória

Foi lançada oficialmente a 1 de setembro e a 15 de outubro António Costa entregava, no Parlamento, a proposta para a StayAway Covid ser obrigatória, com coimas que podiam ir até aos 500 euros

AFP via Getty Images

Ana Pimentel

Editora de Tecnologia e Startups

É um momento que exemplifica bem o que aconteceu à tecnologia em 2020. Foi levada ao limite. Fortemente usada na versão videochamadas para o trabalho, amigos e família, também aterrou em força na linha da frente móvel do combate à pandemia. Depois de a Apple e a Google (que são concorrentes) terem unido esforços para apressar e facilitar o rastreio de contactos dos infetados, não faltaram iniciativas para pôr a inovação em prática. Em Portugal, os investigadores do INESC TEC desenvolveram a app que viria a ser recomendada fortemente por António Costa, a StayAway Covid, e que poria na agenda pública o debate pela proteção dos dados. Fica para a história o dia em que o Governo quis tornar esta aplicação obrigatória, desafiando tudo o que eram orientações internacionais e pondo a discussão sobre direitos, liberdades e deveres no espaço mediático. A proposta acabou por ser travada no Parlamento, os números de downloads dispararam nos dias seguintes (para abrandarem depois), mas ainda está por apurar a eficácia das aplicações de rastreio no combate à Covid-19. Podíamos ter aproveitado a inovação tecnológica de outra forma? Talvez 2021 nos traga a resposta.

O ano em que Fátima fechou as portas aos peregrinos (e mostrou que funciona como uma empresa)

A procissão do adeus, um dos momentos mais simbólicos das celebrações de Fátima, percorreu o recinto do santuário completamente vazio. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

João Francisco Gomes

Jornalista de Sociedade

Pela primeira vez em mais de um século, o Santuário de Fátima fechou as portas no dia 13 de maio e realizou as celebrações sem peregrinos no recinto, que anualmente recebe cerca de 6 milhões de pessoas de todos os lugares do mundo. As celebrações de maio em Fátima são um dos principais acontecimentos de multidões do ano em Portugal — e, em grande medida, constituem uma parte substancial da identidade espiritual portuguesa. Este ano, contudo, a pandemia da Covid-19 obrigou os responsáveis do maior templo católico do país a repensarem as tradicionais celebrações, marcadas por milhares de peregrinações a pé com origem em todos os pontos do país, procissões de velas e orações individuais e coletivas em Fátima. Pensar um 13 de Maio sem peregrinos foi “a decisão mais dolorosa e difícil”, admitiu na altura o reitor do santuário; o peregrino de Fátima não se faz representar por ninguém — cada um tem a sua própria história e ninguém cumpre a peregrinação por ele. Assim, a opção da Igreja foi pelo recinto vazio. “Inesperadamente, um vírus imprevisível, invisível, silencioso, capaz de contagiar tudo e todos, põe o mundo inteiro a vacilar. Sentimos o chão a fugir-nos debaixo dos pés. Todas as nossas agendas e programações caíram como um castelo de cartas”, disse o cardeal António Marto em frente ao recinto vazio. A pandemia expôs também a gestão financeira do Santuário de Fátima, que há mais de uma década recusa apresentar as contas em público. Alimentado pelos donativos dos fiéis e movendo vários milhões de euros, o santuário tem a estrutura de uma empresa de média dimensão. Este ano, os donativos dos fiéis caíram a pique e a instituição surpreendeu quando, depois de prometer proteger os seus funcionários, anunciou um polémico plano de reestruturação que culminou com a saída de 47 trabalhadores. Ainda que a palavra “despedimentos” tenha sido evitada pelo santuário até ao último momento, a iniciativa causou uma onda de indignação no país, que viu na atitude da Igreja uma contradição com a sua própria doutrina — sobretudo num ano em que o próprio Papa Francisco tinha deixado claro, a propósito das dificuldades financeiras causadas pela pandemia: “Uma empresa que despede para se salvar não é solução”.

As primeiras medidas de combate à pandemia em Portugal

A ministra da Saúde, Marta Temido, e a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, na conferência de imprensa do dia 7 de março de 2020

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Rita Porto

Jornalista de Sociedade

Sábado, 7 de março. A convocatória para uma conferência de imprensa de última hora no Ministério da Saúde foi feita por telefone, mas pouco foi adiantado, a não ser que era importante. Os primeiros casos tinham sido confirmados poucos dias antes e não tardou a que a infeção se espalhasse. Enquanto os jornalistas aguardavam à entrada do edifício da avenida João Crisóstomo, em Lisboa, a diretora-geral da Saúde chegava em passo rápido e de semblante carregado, fazendo antever más notícias. Nessa noite, a ministra da Saúde, Marta Temido, e Graça Freitas anunciaram as primeiras medidas de saúde pública para conter o novo coronavírus. Uma escola e duas universidades encerradas, visitas a hospitais, lares e prisões na região Norte suspensas temporariamente, recomendação de adiamento de eventos sociais e criação de um hospital de campanha no Hospital de São João, no Porto. Foi apenas o início da estratégia do Governo para estancar a Covid-19, que na altura ainda era considerada uma epidemia, mas que, quatro dias depois, passou a pandemia. O Presidente da República decretou o primeiro estado de emergência a 18 de março e o país entrou em confinamento obrigatório.

O primeiro recuperado da Covid-19 em Portugal

Casimiro Sousa foi o primeiro recuperado da doença em Portugal

JOSÉ COELHO/LUSA

Filipa Ribeiro

Jornalista da Rádio Observador

A pandemia da Covid-19 chegou a Portugal no dia 2 de março. Pouco mais de uma semana depois, no dia 11, foi conhecida a primeira recuperação. Casimiro Sousa foi internado no Hospital de São João, no Porto, quando tudo sobre o novo coronavírus era ainda uma incógnita. O empresário de Lousada tinha estado numa feira de calçado em Milão, onde, presumivelmente, terá sido infetado. Desde então, os números de casos da Covid-19, no país e na região, não pararam de crescer.

O dia em que o juiz Ivo Rosa percebeu que tinha de parar a Operação Marquês

Na tarde em que o Governo decidiu encerrar as escolas, o juiz Ivo Rosa ainda marcou três outras sessões. Pouco depois acabaria a cancelar tudo por escrito

LUSA

Sónia Simões

Jornalista de Sociedade

Era mais uma sessão da instrução da Operação Marquês — que continua sem decisão sobre se o ex-primeiro ministro José Sócrates será julgado por corrupção — quando o Governo reunia para decidir o que fazer face à pandemia da Covid-19. Naquele dia 12 de março, com outros países a tomarem medidas para impedir o avanço do nosso coronavírus, o juiz Ivo Rosa prosseguiu a sessão e até marcou três novas datas para continuar. Só duas horas depois de terminada a audiência, e após o Conselho Superior da Magistratura decidir colocar os tribunais em serviços mínimos, é que o juiz decidiu adiar sine die a instrução. A essa hora todos os portugueses estavam a ser informados de que as escolas em Portugal iriam encerrar, assim como a maior parte dos serviços. As prateleiras dos supermercados começavam a ficar vazias com a procura e o medo. Esta fase do processo seria retomada três meses depois e terminada com o juiz a anunciar que precisava de mais tempo para decidir. O ano está a terminar e ainda não há decisão instrutória sobre o futuro do processo que envolve um ex-responsável pelo Governo acusado de estar envolvido numa teia de favorecimento de empresas e empresários a troco de dinheiro.

Football Leaks, o julgamento que pôs o mundo a olhar para o Campus de Justiça

O advogado Tiago Rodrigues Bastos rodeado por dezenas de jornalistas no arranque do julgamento do caso Football Leaks. É o advogado que representa a sociedade PLMJ, alegadamente hackeada por Rui Pinto

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Carolina Branco

Jornalista de Sociedade

O Campus de Justiça foi tomado por polícias de metralhadora em punho às primeiras horas da manhã. Um perímetro de segurança alargado não deixava nenhum jornalista aproximar-se da porta do tribunal sem autorização. Havia até o rumor de que tinham sido espalhados snipers por todo o Parque das Nações. O dia era 4 de setembro e arrancava o julgamento do caso Football Leaks. Dentro de uma sala de audiências do piso 6 estava o criador da maior fuga de informação do futebol — Rui Pinto —, bem como o seu ex-advogado e também arguido, Aníbal Pinto. O alegado hacker, acusado de 90 crimes, era agora uma testemunha protegida e a razão para estas medidas nunca antes vistas num julgamento em Portugal. Tinha segurança privada a acompanhá-lo e usava até um colete à prova de bala. Apelidado de julgamento do século pela juíza presidente da comarca de Lisboa, foi certamente um dos julgamentos do ano, que atraiu dezenas de jornalistas de todo o mundo. É certo que metralhadoras e jornalistas foram sendo cada vez menos à medida que as sessões avançavam. O julgamento, que promete durar, continuará a atrair atenções ao longo de 2021, especialmente na sua sessão final, que está ainda longe de ser agendada: Rui Pinto será condenado ou absolvido?

E, por duas vezes, as escolas reinventaram-se

Ter aulas à distância não foi fácil, mas as regras no regresso ao ensino presencial foram um novo desafio para toda a comunidade educativa

AFP via Getty Images

Ana Kotowicz

Jornalista de Sociedade

Abandonar a sala de aula foi dos momentos mais complicados da Educação em 2020, do pré-escolar até ao ensino superior, mas regressar, com regras rígidas para conter a pandemia, foi igualmente difícil. No espaço de poucos meses, a escola teve de se reiventar por duas vezes: primeiro, levando as aulas para dentro de casa de alunos e professores, com a ajuda de computadores (que nem todos têm), com o recurso a tecnologia (que nem todos dominam) e com o regresso da telescola (ao estilo século XXI). Depois, quando o ensino à distância voltou a ser presencial, teve os seus desafios próprios, como obrigar ao distanciamento de crianças e jovens e criar condições nas escolas, onde já em tantas faltam recursos humanos e espaço para todos, para receber as comunidades educativas e evitar a propagação da pandemia.

A vacina mais rápida da história

Getty Images

Dulce Neto

Editora executiva

Se 2020 tem o rosto trágico da Covid-19, dezembro tem a cara da vacina que fecha o ano com esperança. Dez meses depois de o mundo descobrir um inimigo global chamado Sars-CoV-2, duas vacinas — a Pfizer-BioNtech e a Moderna —, também globais, foram aprovadas nos Estados Unidos e na Europa e outras cinco davam passos largos nessa direção. É, pois, a vacina mais rápida da história, escolha-se o ângulo que se quiser. Se for o período que medeia entre o primeiro caso de infeção conhecido (na China, em novembro de 2019, neste caso) e o primeiro ensaio em humanos, passaram quatro meses. Nunca esse período tinha sido tão curto e não é preciso comparar com o ébola (39 anos) ou o Zika (9 anos) — basta olhar para os primos deste coronavírus: o Sars-CoV-1 (2002-2004) precisou de dois anos, o do Mers-CoV (2014) de 18 meses. Se for o tempo total de preparação da vacina, esta também bate o recorde: o mais curto tinha sido o da papeira (quatro anos) em 1960. Tamanha rapidez pode explicar-se com o conhecimento científico já adquirido sobre os coronavírus. A verdade é que todas as vontades se conjugaram na urgência: a da ciência e da indústria, do capital privado e do público e a do dois hemisférios (produção envolve países de quase todos os continentes).

A publicação do genoma que marcou o início da corrida

Comparação da organização dos genes do SARS-CoV-2, o vírus de Wuhan (WHCV), com um coronavírus associado a morcegos (bat SL-CoVZC45) e outro associado a humanos (SARS-CoV Tor2). Imagem: Nature

Vera Novais

Jornalista de Sociedade

No dia 11 de janeiro foi divulgado o genoma do vírus que há umas semanas andava a causar uma doença parecia com pneumonia em Wuhan, na China. O virologista Zhang Yongzhen, do Centro de Saúde Pública de Shangai, hesitou em tornar a informação pública, mas acabou por fazê-lo — mesmo à revelia das autoridades chinesas que tinham proibido os laboratórios de divulgarem informação sobre o novo vírus. Não foram precisas 24 horas para uma série de equipas de investigação começarem a trabalhar naquela sequência de letras que continha o código para as proteínas do vírus — incluindo a proteína spike, da coroa do vírus, que se viria a tornar tão importante. A experiência com outros coronavírus facilitou o trabalho de identificação das proteínas relevantes e até da construção tridimensional das proteínas. Ainda no mês de janeiro, a Moderna começou a trabalhar numa vacina com base no ARN mensageiro que tem a chave de produção da spike. Conhecer a estrutura tridimensional de várias proteínas permitiu ainda compará-las com uma base de dados de medicamentos aprovados ou em estudo para identificar potenciais tratamentos. Conhecer a sequência genética do vírus permite perceber que mutações vão ocorrendo ao longo do tempo, em que genes, que efeito potencial podem ter e por onde vão viajando estas variantes. Graças à sequenciação do genoma, chegámos a dezembro com duas vacinas contra a Covid-19 e, pelo menos, duas variantes do vírus identificadas — uma no Reino Unido, outra na África do Sul.

O abraço que mostra o engenho da humanidade

O abraço possível no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Quinta Alegre, a 18 de maio de 2020

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ricardo Conceição

Editor Executivo da Rádio Observador

Não há ecrã que substitua o calor de um coração que bate junto ao nosso. Por mais violenta que seja a pandemia, nada pode contra o engenho da humanidade. No Lar da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Quinta Alegre, a 18 de maio de 2020, o João Porfírio registava o reencontro possível. Neste gesto está toda a nossa vontade de regressar aos braços dos pais e dos avós, aquele porto seguro que só eles sabem ser. E, para eles, este abraço é sinal de que não os abandonámos, não vão ficar sozinhos.

Os encontros à janela

Em Portugal, como noutros países, a pandemia reduziu os encontros e os contactos até entre famílias. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Carla Jorge de Carvalho

Editora da Rádio Observador

As visitas deixaram de entrar em casa e passaram a ser feitas à janela. Foi também lá que se homenagearam profissionais de saúde e se realizaram pequenos concertos musicais. Como nunca, descobriu-se a vizinhança e a importância do espaço público.

O ano em que os velhos ficaram ainda mais vulneráveis e sós

Os lares de idosos foram dos locais mais afetados pela pandemia. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Vanessa Cruz

Subeditora da Rádio Observador

A pandemia veio pôr a nu a fragilidade e o abandono dos idosos, que era uma realidade algo encapotada, o que diz muito da sociedade que somos e do que tem de mudar. Abracemos mais, quando pudermos.

107 dias de uma Península dividida

O encerramento das fronteiras com Espanha foi anunciado a 16 de março

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Rita da Silva Vieira

Jornalista da Rádio Observador

A 16 de março, o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, anunciou o fecho das fronteiras terrestres com Espanha. Às 23h daquele dia, a circulação entre os dois países passou a ser feita através de 9 postos de controlo, apenas em caso de transporte de mercadorias ou deslocações de trabalhos. Não foi a primeira vez que tal aconteceu, o mesmo já se tinha passado na altura do Euro2004 ou da visita do Papa Francisco a Portugal, em 2017. A diferença é que desta vez estava em causa a saúde pública. A reabertura viria a acontecer 107 dias depois, numa cerimónia oficial que reuniu o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o rei de Espanha, Felipe VI, o primeiro-ministro português, António Costa, e o chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez, primeiro em Badajoz e depois em Elvas.

O impacto do fecho das fronteiras

O impacto do encerramento das fronteiras chegou até aos preços da gasolina

MIGUEL PEREIRA DA SILVA/LUSA

Diogo Teixeira Pereira

Jornalista da Rádio Observador

Falando hoje com habitantes de Vilar Formoso, não é difícil encontrar quem aponte a década de 80 e os dois primeiros anos da de 90 como os de melhores memórias para a vila fronteiriça. A União Europeia trazia oportunidades de negócio, principalmente os que estavam associados à fronteira, e os despachantes fiscais não tinham mãos a medir. A livre circulação em 1993 trouxe dias cinzentos e a economia não parou de perder até Vilar Formoso aprender a viver com Fuentes de Oñoro como se fossem uma só. Em março, a necessidade de controlar a propagação do vírus desviou os olhares dos governos europeus para as fronteiras. Foi necessário fechar a de Vilar Formoso e todas as outras. Quem há muito já se tinha esquecido que vivia num país diferente daquele em que trabalhava teve que passar a circular com o papel que comprovava que era trabalhador transfronteiriço. Mas houve mudanças mais profundas que nem antes de 1993 se verificavam: os espanhóis deixaram de poder comprar atoalhados em Vilar Formoso e os portugueses deixaram de poder atestar os depósitos em Fuentes de Oñoro. A gasolina ficou mais cara.

Suécia, o país que olhou para a pandemia e resolveu fazer diferente

Na Suécia, a pandemia só fechou liceus e universidades. As crianças até aos 13 anos nunca deixaram de ir à escola. (DIOGO VENTURA/OBSERVADOR)

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Tânia Pereirinha

Jornalista de Sociedade

Nada de máscaras nem de confinamentos formais mas muitos, muitos conselhos e recomendações — que na prática fizeram com que grande parte da população passasse a trabalhar a partir de casa, evitasse locais e transportes públicos e passasse a conviver, ainda mais, dentro da sua própria bolha familiar. No fundo, como nos disse um cirurgião português a trabalhar a duas horas de Estocolmo, as autoridades “pediram aos campeões mundiais do isolamento que fizessem aquilo que sabem fazer melhor” — e muitos deles corresponderam, com nota máxima e direito a quadro de honra. Apesar disso, comprovámos ao longo de uma semana na Suécia, não parece ter chegado. Nove meses depois do início da pandemia, o país que fez diferente não estará muito melhor do que os outros. E tem no número de mortes e no descalabro que aconteceu nos lares de idosos uma ferida difícil de fechar.

O dia em que Mourinho não foi o português mais falado em Inglaterra

"Um cumprimento especial a dois enfermeiros que se mantiveram junto a mim durante 48 horas. Agradeço ao Luís, de Portugal, mais concretamente de uma localidade perto do Porto", disse Boris Jonhson

Inês Ameixa

Jornalista da Rádio Observador

Luís Pitarma era um no meio de tantos outros enfermeiros portugueses que estão emigrados no Reino Unido. Mas calhou ser Luís Pitarma a cuidar do primeiro-ministro daquele país, que esteve internado no hospital, infetado com Covid-19 — foi mesmo o primeiro líder mundial a testar positivo. Em plena pandemia e com ainda mais incertezas do que aquelas que existem hoje, a 12 de abril surgia a notícia de que Boris Johnson agradeceu a um enfermeiro português pela forma como este o tratou durante a sua passagem pelos cuidados intensivos. Luís Pitarma, de 29 anos e natural de Aveiro, disse-se muito orgulhoso e até confessou que o líder britânico pediu-lhe que o tratasse pelo nome durante os cuidados prestados. Por cá, aplaudiam-se os profissionais de saúde nas janelas e varandas dos portugueses um pouco por todo o país. Entre horas extra, máscaras, batas e zaragatoas, eram muitos os relatos de médicos, enfermeiros e técnicos de saúde a sentirem falta de apoio do Governo. A 2.200 quilómetros de distância, Luís Pitarma recebia um reconhecimento público de Boris Johnson e acabava a representar uma classe inteira que tem estado na linha da frente no combate à pandemia em Portugal.

Trump, vítima de 2020 e de si próprio

Donald Trump despede-se do público num comício em Butler, na Pensilvânia, a três dias das eleições. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

João de Almeida Dias

Jornalista de Internacional

O ano começou bem para Donald Trump. Às vitórias coletivas (a economia atingiu máximos inéditos e o desemprego mínimos históricos) juntou ainda as individuais, com um impeachment bloqueado pela muralha republicana, sempre do seu lado. Nunca foi consensual, nem nunca quis sê-lo. Bastava-lhe uma narrativa de sucesso retumbante aos ouvidos da sua base, onde junta seguidores que vão desde os setores mais conservadores até aos desvalidos da globalização. Até que chegou a pandemia da Covid-19 — e 2020 atingiu Donald Trump com força. Rapidamente, os EUA tornaram-se o país mais afetado pela Covid-19 — e também Trump viria a ser um deles, com a Casa Branca a servir repetidamente de vetor da Covid-19, contraída tantas vezes por quem negou ou retirou importância à doença. À crise pandémica juntou-se a contestação contra a violência policial e o racismo, que matou George Floyd e Breonna Taylor, agora nomes de projeção mundial. Nas eleições presidenciais, Donald Trump acabou como o Presidente incumbente mais votado de sempre — mas o seu adversário, Joe Biden, foi também o candidato com mais votos da História da democracia dos EUA. O ano começou bem para Trump e acaba mal. Mas Donald Trump não acaba em 2020 — e muito menos acabará o trumpismo.

As imagens vergonhosas importam

Catarina Santos

Editora de Multimédia

“Não consigo respirar”. Não foi a primeira vez que a existência de gravações tornou impossível ignorar a morte de mais um afro-americano às mãos da polícia, mas ouvir e ver George Floyd sussurrar, debaixo de um joelho que o sufocou lentamente, durante oito minutos e 46 segundos, teve o efeito de um furacão que varreu o mundo ocidental com indignação contra o racismo e a discriminação. Estávamos em maio. Em Portugal, o gatilho para uma discussão semelhante tinha sido pressionado com especial força três meses antes, quando Marega foi insultado num estádio e se insurgiu sem complacência contra quem o comparava a um macaco. As imagens mais marcantes nascem com frequência de episódios lamentáveis, mas podem também ser os rastilhos mais eficazes para a mudança.

“Black Lives Matter”. O dia em que milhares gritaram contra o racismo

A morte de George Floyd provocou manifestações não só nos Estados Unidos, mas também em várias cidades do mundo — incluindo em Portugal

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

João Alexandre

Editor da Rádio Observador

Portugal juntou-se aos protestos mundiais e, em cidades como Lisboa, Porto, Braga ou Coimbra, no dia 6 de junho, milhares de pessoas saíram à rua contra o racismo e em homenagem a George Floyd — um cidadão afro-americano morto por asfixia às mãos de um polícia, em Minneapolis, nos EUA. Por cá, o tema do racismo marcou durante várias semanas a agenda política e mediática, motivando acesos debates públicos, mas também atos de vandalismo, intimidação e contra-manifestações. Desde então, uma pergunta foi feita de forma insistente: é, ou não, Portugal um país racista?

Juan Carlos, entre o escândalo e o exílio, com uma escala em Portugal

Ainda fez escala em Portugal (um dos destinos que foi apontado para o rei emérito) mas é no Dubai que Juan Carlos passou boa parte do ano

Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images

Mauro Gonçalves

Jornalista de Lifestyle

Foi um ano tumultuoso para a monarquia espanhola, graças às suspeitas de crimes fiscais que pairam sobre Juan Carlos. Em julho, o suíço Mirabaud tirou do cofre provas em como recebeu 100 milhões de euros da Arábia Saudita, em 2008. O dinheiro nunca foi declarado, mas em 2012 mais de metade da fortuna foi transferida para a sua ex-amante, Corinna Larsen. O escândalo culminou com o rei emérito a abandonar o país. Passou por Portugal, mas rumou a Abu Dhabi, onde continua exilado. A justiça espanhola arquivou o caso em outubro, mas outras suspeitas já vieram a lume: o uso de cartões de crédito associados a fundos provenientes do estrangeiro e uma possível fortuna de 6,5 milhões de euros escondida no Canal da Mancha.

Abram alas para o ‘Megxit’

No rescaldo do "Megxit", os duques de Sussex instalaram-se do outro lado do Atlântico. Primeiro no Canadá, depois na Califórnia

Getty Images

Ana Cristina Marques

Jornalista de Lifestyle

O ano não só ficou marcado pelo afastamento oficial de Harry e de Meghan Markle enquanto membros séniores da realeza, em março, mas também pela vida de filantropos a tempo inteiro que os duques de Sussex levam atualmente nos EUA. O casal virou-se ainda para o entretenimento e assinou contratos com a Netflix e com o Spotify. Por isto e muito mais, Meghan foi, em 2020, o membro da família real com mais referências no Twitter, seguida de Harry e da rainha.

Afinal, ainda havia algo capaz de nos deixar em choque em 2020

A vigília “Pelas Vítimas do Massacre de Santo Tirso” juntou cerca de 100 pessoas em Lisboa, no Terreiro do Paço, uma semana depois de morrerem 69 cães e 4 gatos nos abrigos na Serra da Agrela

TIAGO PETINGA/LUSA

Camila Vidal

Jornalista da Rádio Observador

Foi daquelas vezes em que nos vamos deitar sem pressentimento possível das notícias que vamos ler e ouvir ao acordar. Este momento mostrou que afinal ainda havia espaço para outros imprevistos num ano feito deles, por muito que pensássemos que já tínhamos visto tudo. E, por alguma razão – que pode ser a tal “fadiga pandémica”, a estranheza, ou só a consciência – um assunto que podia passar por supérfluo, no meio de uma pandemia, reverteu-nos as prioridades num (e por um) instante. Depois, veio a dança das cadeiras entre o Ministério da Agricultura e o do Ambiente pela tutela do bem-estar animal. O diretor-geral de Veterinária demitiu-se quando o primeiro-ministro falou num “massacre absolutamente intolerável”. Relançou-se o debate em torno do abate em canis e da (in)capacidade de as associações manterem abrigos com condições sanitárias. O Orçamento do Estado chegou, entretanto, e cortejou as associações. Até agora, mais de 185 mil pessoas assinaram uma petição a pedir justiça pelos animais de Santo Tirso. Ao mesmo tempo, a pandemia atirou mais animais de companhia para a rua e para os abrigos do que em 2019.  Um ano para esquecer… ou aprender?

Luanda Leaks, o princípio do fim do reinado de Isabel dos Santos

O ano de 2020 deixa Isabel dos Santos cada vez mais isolada em Portugal. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Nuno Vinha

Editor Economia

Foi nos primeiros dias de um ano quase todo ele marcado por uma pandemia que arrasou a economia mundial, mas ainda conta. A 19 de janeiro, o consórcio internacional de jornalistas divulgou mais de 700 mil documentos a comprovar como Isabel dos Santos, a filha do ex-presidente de Angola José Eduardo dos Santos, utilizou dinheiros públicos angolanos para alavancar e consolidar um verdadeiro império empresarial, incluindo em Portugal. Antes do escândalo Luanda Leaks já Angola tinha começado o cerco – congelando contas e arrestando bens –, mas Isabel do Santos continuava a controlar participações muito relevantes em empresas portuguesas como a Galp, a NOS, o banco BIC, a Efacec, entre outros negócios. O Luanda Leaks, a fazer manchetes em todo o mundo, tornou a queda irreversível, com muitas, rápidas e incoerentes declarações de repúdio, promessas de rapidez nas investigações e conselhos de administração a afastar homens e mulheres ligados a Isabel dos Santos. O certo é que – apesar dos arrestos da justiça (incluindo dos dividendos) – chegamos ao final do ano com a filha do ex-presidente ainda como acionista destas empresas (com a exceção dos mais de 67% da Efacec, entretanto nacionalizados pelo Estado português). O início de 2020 foi o princípio do fim. Quem sabe se será em 2021 que se concretiza a saída de cena da “princesa imbatível” de África.

Depois de tantas polémicas, já custa chamar a este um Novo Banco

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Edgar Caetano

Jornalista de Economia

Um extraterrestre que tenha aterrado este ano em Portugal – e um extraterrestre especialmente interessado nos temas da economia e da banca – precisaria de uma longa explicação. Depois de já terem sido injetados 3.000 milhões de euros ao longo de vários anos – a porca torceu o rabo só na reta final do processo, por causa de uma nova injeção de menos de 500 milhões. E tanto quis o Governo “tirar” o Novo Banco do Orçamento do Estado que acabou por lançar a proposta com uma gralha precisamente na tabela com as transferências para o Novo Banco. Com ou sem gralha, noutro momento caricato, essa rubrica acabaria por ser chumbada pelo parlamento, na votação do orçamento na especialidade – deputados madeirenses mudaram sentido de voto em cima do joelho e um deputado (André Ventura) conseguiu a proeza de votar contra, depois abster-se e acabar a votar a favor desse chumbo.

À entrada em 2021, o impasse ainda está por quebrar e o Novo Banco continua a ser uma ameaça à estabilidade financeira, um valor que, agora, tem como guardião-último Mário Centeno – o ex-ministro das Finanças que no início do ano se envolveu em grande polémica por ter aprovado a anterior transferência para o Novo Banco quando António Costa tinha garantido que essa transferência não ocorreria sem que fosse concluída a auditoria da Deloitte. O primeiro-ministro acabou por pedir desculpa, garantindo que não estava informado, e passado algumas semanas Centeno saiu do Governo sem outra justificação que não uma “mudança de ciclo”. Algum tempo depois, acabaria por ser nomeado para Governador do Banco de Portugal – mas, para compreender essa parte, o extraterrestre precisaria de uma explicação ainda mais longa.

Uma bazuca europeia, finalmente

A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, festejava a 20 de julho com o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, mas ainda faltariam vários meses até ao acordo final

POOL/AFP via Getty Images

Vítor Rodrigues Oliveira

Jornalista de Economia

Quando ficou claro, no início da pandemia, que as economias da UE teriam de ser “resgatadas”, ninguém esperaria que o cheque fosse passado na hora, tendo em conta as complexas regras de decisão comunitárias e as habituais divergências entre os 27. Mas a verdade é que o processo foi de tal forma difícil que a “bazuca” só foi desembrulhada na véspera de natal. O acordo, alcançado a 10 de dezembro, garante 750 mil milhões de euros, entre subvenções e empréstimos, e um bilião de euros do orçamento comunitário para os próximos sete anos. No entanto, os primeiros “foguetes” foram lançados bem antes pelas lideranças europeias, após a “ultramaratona” de 90 horas em que se tornou o Conselho Europeu de julho. Apesar dos avanços, percebeu-se mais tarde que seria extemporâneo. O que provavelmente ficará na memória é a batalha que se seguiu, que opôs Polónia e Hungria ao resto da UE, sobre as sanções pelo não cumprimento do Estado de Direito. Mas para a História ficarão também as duras negociações entre Sul e Norte e, sobretudo, uma decisão sem precedentes — a UE vai avançar para uma espécie de eurobonds, financiando-se em nome de todos os estados-membros e partilhando responsabilidade e custos.

A ajuda de Estado à TAP que vai custar pelo menos 3,4 mil milhões de euros

Em julho, com a frota da TAP praticamente toda parada, o ministro Pedro Nuno Santos anunciou que o Estado passaria a controlar a companhia.

MANUEL DE ALMEIDA/EPA

Ana Suspiro

Jornalista de Economia

Se o povo português vai pagar, então deve mandar. Foi neste sentido que o ministro das Infrastruturas se pronunciou logo no arranque da discussão sobre as ajudas de Estado à TAP. O prognóstico de Pedro Nuno Santos confirmou-se com o Estado a recuperar o controlo accionista da TAP, ao pagar 55 milhões de euros a David Neeleman para sair do capital da empresa em julho, numa negociação no limite com ameaças de nacionalização. Em junho, Portugal foi autorizado pela Comissão Europeia a emprestar 1.200 milhões de euros à TAP, com o compromisso de apresentar um plano de reestruturação. E coube ao “ministro socialista” dar a cara por um plano agressivo com cortes de 25% da massa salarial, redução de 2.000 empregos e ajudas públicas totais entre os 3.400 milhões e os 3.700 milhões de euros. A bola agora está do lado de Bruxelas que o Governo vai ter de convencer que os cortes vão ser suficientes para manter a empresa a voar.

“Layoff”. Uma medida (e a palavra) que entrou no léxico dos portugueses

Beatriz Ferreira

Jornalista de Economia

“Malta, escrevemos layoff tudo junto ou com hífen? E a itálico? Ou com aspas?” “Vamos escrever tudo junto, sem itálico nem aspas, que é como está no site da Segurança Social.” Foi mais ou menos assim (para não dizer, foi precisamente assim) que o Observador se habituou a escrever layoff, uma palavra que entrou no léxico dos portugueses em março, não fossem as sucessivas retificações ao diploma inicial (tinham sido quatro ainda abril não tinha começado) e o crescente peso que ganhou no mercado de trabalho (chegou a dois milhões de trabalhadores, diz o Governo). Do “tradicional”, que já existia na lei mas poucos o conheciam, o layoff juntou-se a um outro “palavrão”: o “simplificado”, que de simplificado teve pouco ao início. Mas com a chegada do verão, o mecanismo criado pelo Governo para suster o emprego não resistiu a uma “makeover”: mudou de nome (passou a “apoio à retoma progressiva”, na versão oficial; novo layoff, na versão adotada pela maioria dos jornais) e vestiu novas regras (deixou de permitir a suspensão de contratos e horários zero). Mas não tardou muito a que fosse feita nova alteração: em outubro, passou a prever a redução total, salários a 88% (uma melhoria face aos 66%) e dois novos escalões. Embora o “apoio à retoma progressiva” já comece a entrar, ainda que aos poucos, no léxico dos portugueses, o layoff será sempre o layoff. E vai continuar por cá, com outro nome, é certo, em 2021.

PAULO NOVAIS/LUSA

O adeus a Maradona, o ícone imperfeito que mostrou o que é a perfeição

Diego Armando Maradona morreu a 25 de novembro, vítima de uma paragem cardiorrespiratória. O velório, na Casa Rosada, teve milhares e milhares de pessoas em Buenos Aires. El Pibe tinha 60 anos

AFP via Getty Images

Bruno Roseiro

Editor de Desporto

Ninguém estava preparado para pandemia ou confinamento. Ninguém estava preparado para evitar os gestos mais comuns e deixar de extravasar sentimentos. Esse foi o segredo de Maradona – não esquecer os gestos mais comuns, não travar o ímpeto puro de extravasar sentimentos. El Pibe, o génio que nunca perdeu a sua parte de criança num corpo pequeno que se agigantou para se tornar o maior entre os maiores, nasceu num condomínio privado, “privado de luz, de água e de telefone”. Cresceu a jogar na rua. Teve as melhores moradias quando veio para a Europa sem deixar de ir a pelados para ajudar quem mais precisava. Hoje, ocupa lugar cativo nessa casa que é o imaginário de quem gosta de futebol. “O” futebol, não “este” futebol. Foi um 10 com toque de Midas, que tão depressa usava a Mão de Deus como inventava o golo do século no Mundial-86. Foi uma pessoa de causas, que adotou em Nápoles um clube e uma cidade para fintar o poderio dos mais fortes. Foi um jogador de e com excessos, que lhe valeram suspensões. Com isso, tornou-se o mais humano entre os não humanos. O ícone imperfeito que mostrou à sua maneira o que é perfeição e que juntou hinchas rivais em lágrimas numa Argentina que ainda chora um ídolo. Ninguém estava preparado para perder Maradona.

O dia em que a NBA quis parar — e a palavra que o desporto não quer levar para 2021

Os Milwaukee Bucks decidiram boicotar o jogo com os Orlando Magic depois de mais um caso de violência policial nos Estados Unidos

Getty Images

Mariana Fernandes

Jornalista de Desporto

O dia 11 de março de 2020 vai ficar para sempre inscrito nos livros de História do desporto como o dia em que a NBA parou. Mas o dia 26 de agosto de 2020 vai ficar para sempre inscrito nos livros de História do desporto como o dia em que a NBA quis parar. Cinco meses depois de a Covid-19 obrigar à suspensão da temporada, no meio de uma bolha de proteção e ao longo dos playoffs mais estranhos alguma vez disputados, os Milwaukee Bucks ouviram os protestos nas ruas, a cisão definitiva criada desde a morte de George Floyd, o aparecimento do caso de Jacob Blake e decidiram não comparecer ao jogo contra os Orlando Magic. Os adversários seguiram o exemplo. Todos os jogos da NBA agendados para esse mesmo dia foram cancelados. Assim como os da liga norte-americana de basebol, de futebol e de basquetebol feminino. No ténis, Naomi Osaka abandonou o torneio em que estava a competir. 2020 foi o ano em que a NBA parou porque quis parar. Mas foi também o ano em que Marega não conseguiu ouvir mais nada em Guimarães, o ano em o presidente da Federação búlgara apresentou a demissão depois de um jogo surreal com Inglaterra e o ano em que PSG e Basaksehir saíram, em conjunto, do relvado. Acima de tudo, 2020 foi o ano em que o desporto — e quem anda dentro dele — mostrou que não quer levar para 2021 a palavra racismo.

João Almeida e as duas semanas que deram um Giro na pandemia

João Almeida, corredor da Deceuninck–Quick-Step, não estava na lista inicial da equipa para o Giro e acabou por andar duas semanas com a camisola rosa

Getty Images

Miguel Viterbo Dias

Jornalista da Rádio Observador

Por norma, cada modalidade tem um ídolo por geração e depois surgem os heróis que atravessam idades e perduram para lá das décadas. Cristiano Ronaldo, Carlos Lopes e Joaquim Agostinho são alguns desses exemplos, mas será que este ano assistimos ao nascimento de um destes heróis? O ciclismo é tido como o desporto do povo. Aquele do petisco e da beira da estrada onde estamos com os amigos. Nos últimos anos tivemos uma medalha nos Jogos Olímpicos e um campeão do mundo; em 2020, vimos nascer João Almeida. E se uma coisa é vibrar com uma vitória de etapa ou com a conquista de uma grande prova, outra é sonhar dia após dia em vencer uma das mais duras competições do mundo. Essa foi a conquista do João Almeida. Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, disse, quando o recebeu depois do Giro de Itália, que durante duas semanas e por algumas horas os portugueses colocaram a pandemia em segundo plano. Durante 15 dias, o Stelvio foi mais conhecido do que a subida à Torre, porque durante 15 dias sonhámos em conquistar o topo do desporto mundial. Teremos essa confirmação nos próximos anos?

Como a pandemia tornou Portugal no palco do desporto mundial

Grande Prémio de Portugal em Fórmula 1 voltou 24 anos depois com público, ao contrário do que aconteceu depois com o MotoGP

Joe Portlock

Miguel Cordeiro

Subeditor da Rádio Observador

Quando o ano de 2020 começou, Portugal estava ausente da agenda dos grandes eventos e estaria representado em várias provas internacionais de diferentes modalidades mas sempre fora de portas. Em março, todas começaram a ser suspensas, adiadas ou até mesmo canceladas. O desporto parou. A partir de maio, com o mundo entre máscaras e protocolos sanitários, estavam criadas condições para o regresso dos grandes eventos desportivos. Foi nesse regresso que Portugal se colocou na linha da frente. Primeiro surgiu a confirmação de que Lisboa iria receber a Final Eight da Champions, num modelo inédito, sem adeptos, com jogos a uma mão numa só cidade que o primeiro-ministro, António Costa, promoveu como um “prémio para os profissionais de saúde” e que terminou com a taça para o Bayern. Em julho, a FIA confirmou que o Mundial de Fórmula 1 iria passar pelo Autódromo do Algarve e com a presença de público nas bancadas; no último fim de semana de outubro, cerca de 27 mil pessoas assistiram ao regresso do Grande Prémio de Portugal, 24 anos depois – e Hamilton não só ganhou como igualou o recorde de vitórias de Michael Schumacher. Por fim, um mês depois, o mais simbólico: o Mundial de MotoGP voltou a Portugal na última corrida também no Algarve, sem público pelo que correu mal na Fórmula 1 mas com muito apoio a Miguel Oliveira, que garantiu a primeira pole position na principal categoria, liderou a corrida do início ao fim, fez a volta mais rápida e somou o segundo triunfo do ano. Como teria sido ver o Autódromo Internacional de Portimão cheio a aplaudir o Falcão português?

A curva que deu a primeira vitória ao Falcão

A última curva do Grande Prémio da Estíria, na Áustria, onde Miguel Oliveira ultrapassou Jack Miller e Pol Espargaró

AFP via Getty Images

Aníbal Rebelo

Editor da Rádio Observador

Foram os seis segundos mais longos aqueles que percorreu Miguel Oliveira entre a última curva e a bandeirada de xadrez. O piloto português, com a inteligência que lhe valeu a alcunha de Einstein entre adversários, levou a sua KTM do terceiro ao primeiro lugar na Áustria, no Grande Prémio da Estíria. Seis segundos numa volta não é nada mas foi tudo para Miguel, que venceu e ganhou estatuto num paddock difícil de conquistar. 25 pontos que lhe abriram as portas às primeiras páginas dos jornais. Fora de Portugal foram mais de 3.737 artigos sobre esta vitória, números revelados pela CISION. Oliveira fechou este estranho 2020 com chave de ouro em casa, com a vitória em Portimão, uma corrida perfeita com a pole, a volta mais rápida com recorde do circuito e a vitória do semáforo à bandeira. E 2021 já está aí à porta.

Depois da paragem forçada, o futebol voltou 69 dias depois

Futebol regressou nas principais ligas europeias via Bundesliga, sem público nas bancadas e com golos celebrados com os cotovelos

MARTIN MEISSNER / POOL/EPA

João Filipe Cruz

Jornalista da Rádio Observador

Depois de mais de dois meses de paragem forçada, as redes voltaram a balançar nas principais ligas europeias (até aí jogou-se apenas na Bielorrússia, na Nicarágua e pouco mais). A Bundesliga foi o primeiro dos grandes campeonatos a voltar e logo com um clássico entre B. Dortmund e Schalke 04. Raphael Guerreiro até marcou dois golos mas, após 69 dias, o importante mesmo foi o facto de os fins-de-semana voltarem a ser preenchidos ainda que sem público nas bancadas e com um extenso protocolo sanitário.

Lisboa cheirou a Belo Horizonte e o futebol virou uma página

Lionel Messi teve a pior derrota da carreira em Lisboa frente ao Bayern, antes de rescindir o contrato mas acabar por ficar em Barcelona

POOL/AFP via Getty Images

André Maia

Jornalista da Rádio Observador

Naquele dia de 14 de agosto, quando o autocarro do Barcelona passou a zona das Amoreiras, ninguém poderia imaginar o que se seguiria depois. Em casa ou na redação, a memória não atraiçoava ninguém. Com apenas uma dúzia de minutos, o cheiro e a frase repetidas na cabeça eram iguais: Brasil-Alemanha, 1-0 para o Bayern. Brasil-Alemanha, 2-0 para o Bayern. Três. Quatro. Foi ainda para lá de Belo Horizonte no Mundial de 2014 – não foram sete, foram oito. E foi para lá de uma goleada histórica. O Estádio da Luz, em Lisboa, não foi apenas o palco de um resultado marcante mas também do fim de uma era. Pela primeira vez desde 2007/2008, o Barcelona não ganharia qualquer título numa época desportiva. O ponto final num já longínquo tiki  taka, na era do futebol total e, quem sabe, no reinado de Lionel Messi. A fotografia do argentino ao intervalo, cabisbaixo e apático, foi um vislumbre da novela de verão, da possível saída do eterno 10. Não se concretizou mas não apagou aquele dia. O dia 14 de agosto de 2020. O dia em que o Bayern venceu o Barcelona por 8-2 em Lisboa, num caminho que terminaria com a conquista da Liga dos Campeões.

A mudança de estação, a greve de fome e a primeira estrela Michelin. O ano louco de Ljubomir Stanisic

Irreverente, provocador, juntou-se ao coro de protestos, passou fome e viu o final do ano brilhar com uma estrela para o seu 100 Maneiras.Em breve, Ljubo regressa ao ecrã da SIC com um novo formato

© Fabrice Demoulin_100 Maneiras

Diogo Lopes

Jornalista de Lifestyle

Ljubomir Stanisic dificilmente adivinharia que em 2020 acamparia à porta da Assembleia da República. O carismático chef teve um ano em cheio: trocou a TVI pela SIC; foi cara de um movimento que luta por apoio ao setor da restauração e hotelaria; passou fome, como protesto, em nome desse mesmo movimento; e conquistou a sua primeira Estrela Michelin no restaurante 100 Maneiras. Deixou de ser apenas o cozinheiro de reality show que diz palavrões para ser isso e ainda a voz de reivindicação político-social de milhares de pessoas — nem lhe faltaram problemas com a justiça, que o está a acusar de corrupção.

Uma lufada de ar fresco vinda do espaço

A cápsula Dragon Endeavour parte da plataforma 39A, no Centro Espacial Kennedy, a bordo do foguetão espacial Falcon 9

Getty Images

Marta Leite Ferreira

Jornalista de Sociedade

Numa pandemia que revelou a vulnerabilidade da humanidade, à mercê da mesma natureza que tantas vezes espezinha, a exploração espacial protagonizou dois momentos de alívio — por sinal, precisamente quando menos motivos parecia haver para sorrir à conta dos números de casos de infeção pelo novo coronavírus. O primeiro chegou em finais de maio, durante a primeira vaga da Covid-19, quando uma histórica missão da SpaceX tornou-se a primeira protagonizada por uma empresa privada a levar astronautas para a Estação Espacial. O futuro da exploração do Espaço desenrolou-se perante o mundo inteiro numa época em que a incerteza científica parecia mais sufocante do que nunca. Cinco meses mais tarde, o Espaço veio novamente consolar os terráqueos da angustiante segunda vaga de Covid-19: uma sonda da NASA recolheu amostras do solo de Bennu, um asteroide milionário que pode vir a colidir com a Terra, mas que guarda também os segredos mais recônditos da origem da vida no nosso planeta. O espetáculo tecnológico destas missões e as ambições que simbolizam recordam-nos de que, afinal, o melhor pode ainda estar para vir.

A volta ao mundo entre assoalhadas

Foram largos meses de teletrabalho (aqui e ali interrompidos por fiéis companheiros de quarentena), de "pãodemia" e outras modas saídas da vida em casa

Getty Images/iStockphoto

Maria Ramos Silva

Editora de Lifestyle

2020 foi um ano de cão, e de gato, e de todos os animais que nos fizeram companhia em casa, o mundo possível quando estivemos isolados. Nestes 12 meses que o diabo amassou, armámo-nos em padeiros, vestimos calças de treino em reuniões via zoom, improvisámos hortas em casa, suspirámos por um quintal, e competimos pelo prémio de melhor estante. Se isto não dava um livro. Ou uma série de stories e publicações no Instagram.

A cultura invadiu-nos as casas e as redes sociais. E ‘salvou-nos’

O humor e a música (de Filipe Melo, sempre a terminar) foram o motor de "Como É Que o Bicho Mexe?", programa de conversas de Bruno Nogueira na rede social Instagram. (ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Gonçalo Correia

Jornalista de Cultura

O primeiro grande sinal chegou a 12 de março, uma quinta-feira, seis dias antes do Estado de Emergência e três dias antes de Salvador Sobral inaugurar os concertos caseiros e online: o festival açoriano Tremor anunciava o cancelamento da edição deste ano. Ninguém esperava o que se seguiu: até ao início de junho, tudo (de festivais a concertos, peças de teatro, estreias de filmes) adiado ou cancelado; a partir de junho, uma retoma anémica. Em Portugal as perdas na cultura foram superiores a 70%, segundo o INE, e o setor revoltou-se a pedir apoios. Para quem estava no sofá, a cultura foi decisiva para manter a sanidade: invadiu as redes sociais (de “Como É Que o Bicho Mexe?” aos concertos caseiros, DJ sets, até sessões de jazz no quintal), fez explodir a procura pelo streaming (sobretudo de séries, mas até os teatros portugueses colocaram peças online) e fez a indústria do cinema abraçar ainda mais os ecrãs das nossas salas: a Netflix reforçou a hegemonia, a HBO continuou a crescer e a Disney+ chegou a Portugal este ano.

A urgência do Estatuto do Artista

É para a cultura que nos voltamos quando tudo o resto falha. Mas para que sempre assim seja, não podemos falhar aos artistas que a concretizam.

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

Tiago Pereira

Editor da secção de Cultura

Já era um facto, mas nunca tinha sido tão visível: a arte mantém-nos vivos. É a cultura que nos salva, mas nem sempre o percebemos porque a damos como garantida. Está em todo o lado, em todos os formatos, a todos os preços. Mas, tecnologias e formatos à parte, toda a arte nasce de alguém. E ao darmos a arte por garantida, fazemos o mesmo com os artistas. Com o confinamento, os palcos foram fechados, as salas de concertos encerradas, os cinemas viram as portas trancadas e o trabalho de quem vive da cultura acabou. E a reabertura dos dias passou de raspão pela cultura — em alguns casos, nem sequer aconteceu. O que era um facto transformou-se numa urgência: sem um sistema social e fiscal que garanta a subsistência dos artistas quando a sua atividade não pode ser exercida, a sobrevivência fica em causa: a da arte e a da pessoa que a sente, pensa, transforma e produz, como matéria prima única e insubstituível. Nos últimos dias deste ano, Graça Fonseca, a ministra da Cultura, assegurou que a proposta de Estatuto do Artista está pronta. Esperamos agora que seja discutida e transformada em lei. Não precisávamos de uma pandemia para nada. E a arte não precisava de uma pandemia para mostrar que é o que de mais precioso temos. A cultura é o que nos forma, é o que nos dá mundo e é o reflexo do mundo que criamos. É para ela que nos voltamos quando tudo o resto falha. Mas para que sempre assim seja, não podemos falhar aos artistas que a concretizam.

Nenhum de nós merecia isto. Eles muito menos

31 utentes da residência Pratinha foram transportados para o hospital militar do Porto, após oito funcionários terem testado positivo à Covid-19. (RUI OLIVEIRA/OBSERVADOR)

Rui Oliveira/Observador

João Porfírio

Editor de Fotografia

Os idosos foram dos que mais sofreram com este novo “vírus que anda lá fora”. Os abraços e os beijos foram-lhes roubados. A todos, bem sei, mas a solidão já habitual de quem vive num lar ou em casa sozinho foi intensificada neste ano. Avós que ainda não conheceram os seus netos, os seus bisnetos. Pais e mães que não abraçam nem tocam nos seus filhos há meses. O rosto, quando lhes são concedidas visitas, foi substituído por máscaras. Conto-vos uma história: em reportagem num lar de idosos, uma mulher com mais de 90 anos agradece-me o facto de estar ali a dar-lhe atenção, de máquina na mão. No fim, faz-me um pedido: “Não lhe peço um abraço, posso só pedir para ver a sua cara?”.

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