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Eram nove da noite quando, de regresso do trabalho, João Ferreira da Cruz encontrou, perto da Igreja de Santa Engrácia, encostado ao Recolhimento do Convento do Desagravo, o tronco de uma mulher. O guarda-barreira das Portas de Santa Apolónia, responsável pela entrada e saída de mercadorias da cidade de Lisboa, correu a chamar alguém, voltando pouco tempo depois, acompanhado por soldados da Fundição de Cima, a fábrica de armamento do Exército que havia ali perto (no atual Largo do Outeirinho da Amendoeira). Foi então que João Ferreira olhou para o cadáver com mais atenção: os braços estavam atados com uma “fita de linha”, as mãos tinham sido cortadas e a “magreza” era “extrema”, denotando “falta natural de saúde ou prisão forçada e continuada de privação de alimentos”. No peito havia 19 punhaladas, distribuídas por duas filas paralelas, sete do lado esquerdo e 12 do lado direito. “As feridas já fechadas provavam que houvera tempo e coragem para lhes lavar o sangue”, escreveu a Revista Universal Lisbonense. Faltavam as pernas, cortadas pelas virilhas. Da cabeça, nem sinal. Os homens, em choque, foram chamar o Regedor da Paróquia de Santa Engrácia, que colocou a polícia a guardar o corpo.

Entretanto, na Travessa das Mónicas, um patrulha fazia a ronda da noite. Ao passar pelas ruínas do palácio dos Condes de Loulé, que tinha ardido em 1820, apanhado pelas chamas que devoraram o Convento das Mónicas, mesmo ali ao lado, deparou-se com duas mãos, duas pernas e uma língua atiradas para o meio da rua, pouco antes do Largo da Graça. Concluiu-se que pertenciam ao torso de Santa Engrácia e que tinham sido separadas “do corpo, cortando primeiro a carne e depois os ossos”. Chamou-se mais uma vez o Regedor, António Ferreira do Sul, e deixaram-se as mãos e as pernas à guarda dos mesmos cabos da polícia que tinham sido colocados junto à igreja em construção. A pouco ou nenhum sangue nos dois locais indicava que o cadáver tinha sido “para ali conduzido para tornar difícil qualquer descoberta”, escreveu O Patriota.

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