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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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O bailarico de Santana na Figueira dança-se ao som de Quim Barreiros. Para PS e PSD, a música é outra

Candidato à Figueira da Foz, Santana levou Quim Barreiros ao Paião e crê na maioria. O "senhor presidente", do PS, está na rua em busca da vitória. E o PSD está em posição invulgar: contra o voto útil

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Joaquim de Magalhães Fernandes Barreiros, Quim para os fãs (e para o país), não costuma ser visto em palco sem um acordeão na mão. O momento, no entanto, é solene — e a música é circunstancialmente outra, nem “Garagem da Vizinha” nem “O melhor dia para casar”.

No Centro Cultural e Recreativo Oucofra, freguesia de Paião, concelho da Figueira da Foz, Quim até já tinha começado a dar música, transformando um pavilhão indoor no cenário de um bailarico popular. Mas desta vez tinha de dividir protagonismo com outro cabeça de cartaz da festa. E foi mesmo Joaquim Barreiros, de calças de ganga, o habitual bigode farto mas sempre impecavelmente aparado e camisola azul clara, a servir de mestre de cerimónias apresentando o outro artista da noite: “Bem, meus amigos: tenho o prazer de apresentar o futuro presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, o senhor doutor Pedro Santana Lopes”.

Ouve-se um bruá e Santana Lopes chega ao palco. Na plateia, que também assistiu ao concerto de Quim Barreiros de pé (em espaço fechado), agitam-se bandeiras verdes e amarelas, as siglas “PSL” e “FAP” (Figueira A Primeira) esvoaçam pelo ar e logo o candidato independente, antigo primeiro-ministro, ex-presidente do PSD e autarca do concelho entre 1997 e 2001 apressa-se a esclarecer: “Eu cantar não sei. Nisso temos aqui uma estrela”.

Estamos na primeira noite de campanha eleitoral na Figueira da Foz, terça-feira, 14 de junho, e não há que ter receios de desafinação em palco: não há karaoke nem falsetes de Santana.

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Na véspera, segunda-feira, a maioria das candidaturas não tinha ido para o terreno, devido à morte do antigo Presidente da República Jorge Sampaio e ao luto nacional de três dias (11, 12 e 13) decretado pelo Governo. Agora, a campanha arrancava com pompa e circunstância.

Foi com um concerto do “mestre da culinária” que o mediático candidato do movimento independente “Figueira a Primeira” decidiu fazer o arranque oficial da sua candidatura à presidência da câmara municipal da Figueira da Foz. As sondagens apontam-no como favorito: a primeira, da Eurosondagem/Libertas para o semanário Nascer do Sol, dava-lhe 38% de intenções de voto contra 34,3% do PS e 8,6% do PSD; a segunda, do ICS/ISCTE para o Expresso/SIC, projetava um resultado de 47% (próximo da maioria absoluta) contra 35% do PS e 8% do PSD.

No Centro Cultural e Recreativo que acolheu o arranque da campanha de Pedro Santana Lopes, via-se gente de todas as idades: de bebés a idosos. As t-shirts coloridas ombreavam com os panos de candidatura afixados nas paredes. E à entrada, media-se a temperatura de quem chegava mas também se vendiam pipocas, qual feira popular.

O amarelo e o verde coloriram as paredes do Centro Cultural em Paião.

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Até churros e farturas se vendiam — e os vendedores apoiam Santana. Se a votação fosse ali, o ex-primeiro-ministro teria maioria absoluta. Com t-shirts alusivas ao candidato vestidas, Sónia e Bero iam tentando despachar os fritos. Ele ainda diria que só estavam ali para vender churros e farturas e se necessário mudavam de “camisola” para as vender. Crenças políticas, negócios à parte. Mas ela, “namorada” e não mulher como se apressava a esclarecer, corrigia: acreditava em Pedro Santana Lopes e a isso tem direito.

A campanha da candidatura que tenta fazer regressar Pedro Santana Lopes à Figueira da Foz alimenta-se das saudades de uma Figueira que já não existe. Não se trata só do mandato de Santana, de 1997 a 2001, que os adversários acusam de ter deixado a autarquia excessivamente endividada enquanto o próprio e os apoiantes preferem destacar a “obra” feita e legada aos sucessores e aos munícipes. É, mais do que isso, as saudades de um tempo em que o concelho tinha mais habitantes, mais dinamismo, mais negócios e mais movimento diário.

A partir de 2004, três anos depois da saída de Pedro Santana Lopes da autarquia, a Figueira da Foz começou a perder habitantes de forma consistente — uma diminuição populacional que se acentuou nesta última década, a partir de 2011, e que um 2020 em contraciclo não chega para reverter. Em 2011 o município tinha 62.125 habitantes, agora terá perto de 59 mil pessoas (menos três mil habitantes ). As piores previsões apontam para que em 2031 o concelho possa vir a ter apenas 53 mil residentes, arriscando perder quase 10 mil moradores em 20 anos.

Se Santana Lopes pode reverter o problema, ninguém pode garantir, até porque este não é o único concelho do país e da região Centro (longe disso) a perder população. Mas todos os apoiantes têm um sentimento comum que os liga: as saudades de uma Figueira da Foz mais conhecida no país, mais capaz de fixar a população e com mais dinamismo económico.

Como vendedores ambulantes que cresceram e fizeram sempre negócio na Figueira da Foz, Sónia e Bero lembram-se bem do que era o município no início deste século e têm saudades: “O Santana quando cá estava era quando trabalhávamos melhor, quando tínhamos mais festas e romarias. A Figueira da Foz tinha mais gente”, nota Bero, entre o trabalho na caravana e os cigarros consecutivamente fumados no exterior. “Isto piorou desde que o Santana saiu e hoje está muito pior para os comerciantes e vendedores ambulantes”, queixa-se ainda. No concelho, veem marasmo: “A Figueira é muito bonita mas está mal aproveitada”, diz Sónia, logo concluindo: “Há pessoas que me perguntam: onde é que vamos dar uma volta à noite? E eu respondo-lhes: olhem, ao picadeiro”.

Vendedores de farturas à porta do concerto de Quim Barreiros.

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Os dois vendedores acreditam que Pedro Santana Lopes vai mesmo ganhar as eleições — mas não têm dúvidas que caso Santana não avançasse, o vencedor seria Carlos Monteiro, atual presidente da câmara municipal e recandidato com o apoio do PS. Até porque acham que o candidato apoiado pelo PSD, Pedro Machado, deu “um tiro no pé” com as críticas que fez a Santana Lopes (e o processo judicial que interpôs para impugnar a sua candidatura) e ao presidente da câmara. Por outras palavras, chateou gregos e troianos.

Quando era vereador da autarquia, que era anteriormente presidida por João Ataíde (foi para o Governo como secretário de Estado do Ambiente e entretanto já falecido), Carlos Monteiro fez um bom trabalho, dizem Sónia e Bero. Não lhe apontam nenhuma falha. É até, dizem, ‘uma pessoa simpática’. Mas como presidente de câmara, não os convenceu e não lhes conquistará o voto.

A insatisfação com Carlos Monteiro resulta também, conta a dupla de comerciantes, de um diferendo que os opôs a autarquia. Sónia relata-o: em tempos os dois estiveram com a caravana no Parque das Gaivotas, sem licença, e portanto ilegalmente. Ou semi-ilegalmente? “Legalmente não estava, mas estava porque pagava o parque. Sabiam que nós lá estávamos, deixaram-nos lá estar e, como costumo dizer, quem cala consente”. Depois da dificuldade e da inatividade provocadas pela pandemia da Covid-19, na primeira feira que foi possível fazer na Figueira da Foz, Sónia e Bero não puderam trabalhar. “O Carlos Monteiro fez cá uma feira e não nos deixou trabalhar, trouxe pessoas de Almada”, acusam. Este ano, tudo mudou: “Entretanto já nos deu licença para trabalhar. Também há eleições…”

As sondagens oficiais trazem confiança, mas Sónia também gosta de fazer os seus próprios estudos de opinião. A ficha técnica é simples: entre farturas e churros, vai falando com pessoas e conversa puxa conversa fala-se das eleições e de quem apoia quem. Se os seus dados estiverem certos, Santana não precisa de fazer mais campanha: “Aqui e no Parque das Gaivotas, 90% das pessoas dizem que vão votar no Santana”.

Mas então e a dívida? “Essa conversa já chateia”, riposta logo Sónia, progredindo: “É como no meu negócio: tenho de investir para depois ter retorno. Se as coisas que ele fez no mandato estivessem abandonadas era uma coisa. Mas praticamente tudo é utilizado e é útil”.

A “canjinha” do Quim e os “queixinhas, birrentos e chatos do regime”

No interior do Centro Cultural e Recreativo Oucofra, Quim Barreiros fazia a delícia dos figueirenses. Foi o método de Santana para os primeiros dias de campanha: sem calcorrear as ruas e as estradas do município em busca de votos, juntou apoiantes em concertos noturnos e aproveitou esses momentos para falar com a população.

Em palco, Quim foi o Quim de sempre: chega, mete o chapéu, agarra o acordeão e prossegue para os clássicos pimba. Agradece ao “senhor doutor Santana Lopes a simpatia que teve em me convidar”, siga a banda e venha a música: começa com “Qual é o Melhor Dia Para Casar” e com “Comer, Comer”, chama a  palco para discursar “o candidato à Junta de Freguesia de Paião e o candidato à Assembleia Municipal” e ouve perguntas de José Alberto Carvalho como “anda alguém com medo que eu ganhe a junta do Paião, porquê tanto medo?”.

O concerto de Quim Barreiros juntou centenas de apoiantes de Santana Lopes no Centro Cultural e Recreativo Oucofra.

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Findos os primeiros discursos, volta o baile. Mas antes, Quim Barreiros ainda diz a quem o ouve e dança ao som da música que “a organização pediu para vos comunicar que ponham a máscara, façam favor, está toda a gente vacinada e com a temperatura normal mas é bom que ponham a máscara, ‘tá?”. Isto antes de agradecer a uma senhora na plateia pelo jantar e “pela canjinha que me fez”. A senhora ri-se e, pelos sinais que vai fazendo com a mão, parece dizer que a “canjinha” é uma piada — e que quanto muito a “canjinha” era de uva tinta.

Quim Barreiros segue para a música, canta “Insónia” sobre a “doença” da “tua mulher” que “não dorme mais, passa a noite acordada”, que “tem noite que dá uma, tem noite que dá duas, tem noite que dá três… horas da madrugada”. E lá prossegue, com “Chupa Teresa”, “Pito Mau” e “Mestre da Culinária”, antes de apresentar “o futuro presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, o senhor doutor Pedro Santana Lopes”, para aplauso geral.

Sem papel escrito, Pedro Santana Lopes vai discorrendo ao microfone e falando às pessoas de improviso. Recupera, aliás, vários pontos que abordara numa conversa tida nessa tarde com o Observador, da vontade de que “a Figueira seja falada” não por causa dele, não em tempo de eleições, mas todo o ano, às mensagens que recebeu de jovens figueirenses que o querem como autarca e que o estimularam a avançar.

Faz as promessas sempre inevitáveis em tempo de eleições: garante que “não haverá uma freguesia que não tenha uma unidade de saúde como deve ser a funcionar” porque “isso é básico” e diz que “o sistema de transportes” não vai funcionar “só em altura de eleições”, vai funcionar “três vezes por dia entre várias freguesias e para o centro do concelho: logo de manhã, ao meio-dia e às cinco e meia da tarde”.

Pedro Santana Lopes discursou a meio do concerto.

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Santana diz, e o povo aplaude em resposta, que nos próximos anos vai trabalhar para pôr os figueirenses “a viverem melhor, os jovens a viverem cá, as pessoas a ficarem cá o ano todo”. E acaba com um número: chama ao palco um homem da sua lista que “não pode ser candidato” por impedimento do tribunal, “por causa de uma folha que faltava”, mostra porquê exibindo um papel e diz que quem recorreu à justiça por causa disso “não aceita o espírito democrático”, são “queixinhas, birrentos, mal dispostos”, é “gente que quando sabe que em princípio vai perder, não sabe perder e vai para as secretarias e para os tribunais”. Chama-lhes aliás “os chatos do regime” e pede a quem o ouve: no dia 26 de setembro, vão às urnas dar-lhes uma lição.

Perante isto, no Centro Cultural e Recreativo canta-se já “vitória” na plateia. No palco canta-se “Animas da Quinta” (há gente de braços no ar no bailarico, a exclamar a plenos pulmões: “A égua da tua mãe e o cavalo do teu pai!”), “A Garagem da Vizinha” e por aí fora. À saída também há percalços: Pedro Santana Lopes pode ter uma missão difícil se ganhar, mas a de um apoiante seu que tenta enfiar uma bandeira num carro de cinco lugares (entra na diagonal, pano no banco de trás e pau da bandeira a sair janela fora) também se revela espinhosa.

Escolha do PSD “é anti-natural”, natural seria apoiá-lo, mas Santana corre para a maioria

Faltavam perto de quatro horas para o evento de arranque oficial da campanha e Pedro Santana Lopes estava sentado numa “sala de conferências”, ou sala de trabalho, num dos pisos de um hotel localizado na Avenida 25 de Abril, na Figueira da Foz. Estava de calças verdes e polo escuro, de volta de papéis e documentos. Dizia-nos: “Esta é a sala onde trabalho mais sossegado. A sede é lá em baixo, na Rua da República, mas é um desassossego”. Perguntávamos-lhe se ia discursar naquela noite, ele sorria e fazia um gracejo de político experimentado: “Oh, tenho de ir dizer boa noite às pessoas…”.

Da varanda dessa sala de hotel via-se o extenso areal da praia da Figueira da Foz. Santana Lopes pousava o olhar no exterior: “Olhe, quando olho para a Figueira aqui desta janela, a maior parte do que aí está fui eu… não a praia, isso foi Deus nosso senhor — para quem acredita — mas os campos de futebol, as passadeiras, a iluminação, tudo isso fui eu que fiz há 20 anos”. A tese é de que a Figueira da Foz pouco evoluiu desde então: “É assim andando por todo o concelho, as pessoas dizem: ó sotôr, desde que fez aqui o saneamento ninguém completou, falta esta rua, falta aquela. É preciso governar a trabalhar, não a chorar”.

Na sala, Santana tinha uma moldura com uma fotografia da noite de vitória eleitoral em 1997. A data: 14 de dezembro. Sítio dos festejos: hotel Mercure. Sentado, com o gravador já ligado, defenderia as “provas dadas” na autarquia, a “muita obra” feita e a “relação afetiva” com o município, tal como a “experiência acumulada” nos 20 anos passados desde que saiu para se candidatar à Câmara Municipal de Lisboa (numa disputa que venceu, tendo como opositor João Soares).

Santana Lopes trabalha a partir de uma sala de hotel na Figueira da Foz.

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No dia anterior, segunda-feira, sem ações de campanha devido ao luto nacional pela morte de Jorge Sampaio, Santana Lopes estivera num debate na RTP 3 e acusara a candidatura do PSD de tentar “ganhar na secretaria”, tentando travá-lo nos tribunais. À conversa com o Observador, confessava que “esperava outra atitude” e dizia: “Deve ser coisa muito rara no mundo um partido fazer a um ex-presidente e a alguém que foi primeiro-ministro o que o PSD tentou fazer comigo e com a minha candidatura, quando ainda para mais nunca ataquei o PSD e sempre respeitei os laços que tive durante décadas”.

A decisão de voltar à política ativa e avançar, depois do fiasco que foi a passagem pelo Aliança, foi tomada em fevereiro, com o país confinado, revelaria ainda o candidato. Santana diz que recebeu convites de vários municípios mas que a voltar, teria de ser à Figueira da Foz. Chuta a dívida para canto, dizendo que não se arrepende dos investimentos que fez. Promete fazer no concelho uma “Escola de Ciências e Tecnologias do Mar” e diz que há “um um centro de tecnologias avançadas”, de investigação ligada ao mar, que lhe foi proposto por “representantes de um país amigo de Portugal” que não o querem erguer nem no Porto nem em Lisboa — um centro que garante que será financiado por fundos privados.

Santana volta ao passado: nos últimos 20 anos, o problema da Figueira da Foz foi “ter ficado parada”, diz. “Aveiro andou. Aqui ao lado, Cantanhede andou. Viseu andou. A Figueira não andou. É bonita, isso é a beleza natural, mas não avançou”. E dá exemplos de cidades que é preciso acompanhar: “Braga, por exemplo, tem uma forte componente de investigação e novas tecnologias. Atrai imensas startups e gente de outros países, cresceu. Até Bragança, o Politécnico de Bragança é uma coisa bestial”. Na Figueira da Foz, o cenário que vê é outro: “Então estes tipos nestes 20 anos… sejam de que partido forem, não é por aí, não poderiam ter andado mais com isto? Fizeram aqui um jardinzinho, ali uma rua, acolá uma rotunda e pouco mais”.

O candidato acredita na maioria absoluta. E explica porquê: “O PS já está há 12 anos no poder e acho que as pessoas querem mudar. Só que o PSD foi para uma escolha anti-natural”. Porquê anti-natural? “Apesar de ter saído do PSD, se havia concelho do mundo onde era natural o PSD apoiar a minha candidatura era aqui — e os eleitores sabem disso”, responde. Deixa umas bicadas à estrutura local dos sociais-democratas, dizendo que “o presidente da concelhia do PSD é um tipo que há uns anos saiu para ir apoiar o candidato do PS, depois voltou, faz muito jogo com o PS”.

Santana Lopes volta a concorrer à Figueira da Foz depois de ter ganho as eleições em 1997.

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Aproveitámos a deixa: e Santana Lopes, com quem se entenderá se vencer sem maioria absoluta? Com o PS, o que noutras circunstâncias seria muito improvável, ou com este PSD que recorreu aos tribunais para o tentar impedir de se candidatar? Santana sorriu, disse que ninguém lhe perguntara isso. Notámos que “à partida” a resposta seria óbvia, mas estas circunstâncias não são normais. Ele respondia: “À partida, à partida… à chegada, vamos ver. Isso é… o mistério. É o mistério da Figueira”. Vincava que hoje é independente e liberdade não lhe falta para decidir. E nota que, mais do que o partido, dependeria do “caráter das pessoas” com quem conversaria. Para bom entendedor, meia palavra basta.

Tem saudades da vida aqui na Figueira, face ao frenesim maior de Lisboa?
É um estilo de vida completamente diferente, mas diria que ainda é mais adequado à minha maneira de ser hoje em dia do que era na altura. Se calhar estou mais eremita, gosto mais de estar comigo próprio. Na altura era mais uma agitação também exterior, era de facto mais irreverente. Chamavam-me terrível. Hoje em dia sou mais experiente e obviamente muito mais sossegado. Trabalhar, trabalho com todas as forças que tenho. Fazia-o na altura e vou fazê-lo agora. Cá estou. Não é fácil porque tenho filhos, tenho netos, tenho a minha vida organizada noutro lado. Mas gosto muito do desafio.

Quando cá viveu, que espaços da Figueira é que gostava mais de frequentar? Onde é que passava mais tempo, onde ia mais vezes?
Não quero fazer publicidade ou destacar, mas há um restaurante onde ia muito, onde ainda vou hoje em dia, da Celeste Russa, toda a gente sabe quem é. Hoje em dia a Figueira está com bons restaurantes. Quiaios na altura… bares há muitos hoje em dia, discotecas havia mais na altura.  Havia um restaurante que era O Solar de Lavos, que era bem giro, entretanto fechou. Mas espaços? Dos sítios onde mais gosto de ir é ao miradouro da Bandeira, lá em cima. E gosto muito de ir para o lado do Bom Sucesso, Quiais, para as lagoas. Conhece as lagoas? São lindíssimas, é uma raridade. A lagoa da vela, a lagoa das brasas… mas também gosto do sul, gosto de Lavos, tem uma praia bem bonita. Não quero estar a distinguir. O Paião, o restaurante O Peleiro, sei lá…

Quando saiu, em 2001, as pessoas lidaram bem com isso, com só ter cumprido um mandato?
Ficaram com muita pena. As pessoas viram que fui mesmo voluntário à força. Foi um processo… houve movimentos de abaixo assinado. Um senhor até que já morreu, Galamba Marques, fez petições e milhares de pessoas assinaram para eu ficar. Convoquei as pessoas aí para uma coisa pública, expliquei-lhes e o doutor Durão Barroso veio cá e disse que eu tinha de ir, que era uma missão patriótica. As pessoas compreenderam, acho que tiveram muita pena. Se calhar há quem não perdoe mas não acredito, tudo o que oiço na rua é: “foi pena”, “já devia ter voltado há mais tempo”.

PS. No caminho para o mercado, o presidente encontrou um candidato

A piada faz-se entre apoiantes e membros da candidatura, antes da primeira arruada da campanha: “Com o Santana ainda conseguimos lidar, agora com o São Pedro…”. É quarta-feira de manhã, 15 de setembro, e a campanha do candidato do PS à Figueira da Foz arranca mal a chuva dá tréguas — um dia depois de Santana Lopes e Pedro Machado (PSD), porque Carlos Monteiro também é presidente de câmara e a véspera foi dia de reunião de Assembleia Municipal.

Carlos Monteiro está satisfeito com o que vê no Café Brasil, onde vai encontrando figueirenses que conhece há anos — ele que é, como não se cansam de dizer os apoiantes, “daqui, nascido e criado na Figueira da Foz”, ao contrário de “outros candidatos”. Se entre apoiantes de Santana há sondagens favoráveis resultantes de conversas de rua entre munícipes, aqui também parece haver motivo para entusiasmo: “Esta é a melhor ação de campanha. Neste café vamos ter 95% dos votos”, graceja Monteiro, de gargalhada fácil e ruidosa.

É o primeiro encontro oficial para ações de rua na campanha: um passeio a pé do Café Brasil, situado na Rua de São Julião, até ao Mercado Municipal Engenheiro Silva. Não são muitos minutos a pé mas Carlos Monteiro e a comitiva, que impressiona à vista por ter mais de três dezenas de pessoas e símbolos do PS e da JS, haveriam de garantir que o passeio seria longo, parando quase porta a porta, loja a loja. Antes disso, o candidato, bem humorado, ainda faria outra piada: “Tenho cometido um erro. Digo sempre que a nossa lista é de gente séria, competente, trabalhadora. Mas esqueço-me sempre de dizer que somos os mais bonitos”.

A dimensão da comitiva é robusta e não é por acaso: ali, mais do que o PSD (que ainda por cima tem simpatizantes e militantes divididos, sugerem as sondagens) e mais do que o movimento independente “Figueira A Primeira”, o PS tem uma estrutura local consolidada. Parte aliás para estas eleições autárquicas com uma situação privilegiada: das 14 freguesias do concelho, governa 12. No grupo seguem até três jovens a representar a Juventude Socialista, todos eles da Figueira da Foz e todos com 19 anos: Rafael Montes, Esmeralda Santos e Constança Dinis.

A arruada arranca, para-se na mercearia “Primorosa” e na loja “Vestidos de Gala”. Carlos Monteiro e a estrutura do PS saberão, certamente, quem apoia o candidato socialista “publicamente” — é assim numa cidade como a Figueira da Foz. Se é ou não por causa disso que na caminhada rumo ao mercado só parecem encontrar apoiantes, não podemos garantir. Mas a rua parece estar com ele, o que também indicia a bipolarização nestas eleições que Pedro Machado (PSD), Rui Curado Silva (Bloco de Esquerda), Bernardo Reis (CDU) e Miguel Mattos Chaves (CDS) tentam a todo o custo evitar.

Na primeira paragem em que se demoram mais, numa loja de vestidos de noiva, Carlos Monteiro e a comitiva socialista encontram Lúcia, uma figueirense revoltada com a candidatura de Santana Lopes — que não chega nunca a tratar pelo nome.

Lúcia começa por dizer ao candidato e apoiantes que tem “muita pena de ir não ir convosco”. Garante-lhes que está com a candidatura socialista “de coração” e pede “muita força para o nosso presidente, que é a melhor pessoa que eu conheci”. E ainda alude a guerras nas redes sociais e à “ingratidão” dos figueirenses que estão agora com Santana: “Uma pessoa que vem de Lisboa, ou de Cascais, vem para aqui fazer o quê?! Estou a ver muitos vira-casacas no Facebook! É gente ingrata, este homem [Carlos Monteiro] fartou-se de ouvir o que não devia. Como é que vem agora um indivíduo… assim vê-se a ingratidão das pessoas da Figueira da Foz!”.

A comitiva gosta de ouvir mas tenta acalmar Lúcia, Carlos Monteiro diz que “vai correr bem” só que nota-se a tensão: num concelho em que a maioria das pessoas se conhece, a política está a dividir vizinhos. E Lúcia prossegue, sem travões: “Uma pessoa que passou pelo [furacão] Leslie, por uma pandemia! Até o homem das farturas… agora vêm falar de outros candidatos?! Cambada de ingratos! Se ele [Santana] tivesse lugar noutro lado, não vinha para a Figueira da Foz”.

As paragens sucedem-se. Primeiro uma barbearia, depois uma ourivesaria (a “Ourivesaria Santos”). Desta vez, ao invés de uma pessoa indignada, encontram uma mulher emocionada: “Está tudo bem, não chore, não fique assim”, dizem-lhe membros da comitiva. “Ela quer a vitória do PS”, explicam aos jornalistas. Na Assimetria 31, somam-se mais uns apoiantes. Há quem diga a Carlos Monteiro que “só quem for estúpido é que não vê que fez um bom trabalho”. E quem lhe elogie a prestação no debate do dia anterior, na RTP3, em que o autarca e candidato socialista assistiu de cadeirinha à troca de farpas entre Santana Lopes e Pedro Machado (PSD): “A maneira de estar calado foi muito bem pensada, para deixar lá a guerra entre eles. Foi inteligente, eu gostei”.

A arruada aconteceu pela zona marginal da Figueira da Foz.

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Na rua, uma das moradoras, Celeste Miranda, diz que apoia Carlos Monteiro. Vive na Figueira da Foz há quase 40 anos e defende que o socialista “nasceu aqui, sabe aquilo de que a Figueira precisa, conhece toda a envolvência”.

Já junto ao mercado, o candidato socialista pára para um abraço especial: encontra Francisco Nunes, ‘o senhor Chico do raio-X’, o pai de um antigo colega de liceu de Carlos Monteiro (estudou na Figueira da Foz) que quando lhe perguntamos a idade graceja que tem 28. O “senhor Chico” também não tem dúvidas da seriedade de Monteiro: “Tem feito um bom trabalho. Eu já o conheço há muitos anos, é um tipo que conhece a Figueira, é honesto, é um tipo humano e sério”.

Em plena arruada dá-se outro encontro inesperado: o assessor vê passar o candidato da CDU, Bernardo Reis, e avisa o candidato socialista que se aproxima de pronto para o cumprimentar. Dá fotografia e tudo, com cumprimento caloroso: “Ó senhor candidato!”.

Durante a arruada, houve um encontro inesperado entre os candidatos do PS e da CDU.

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Carlos Monteiro move-se com facilidade pelas ruas, não fosse presidente de câmara. Quem não vai votar nele ou não se aproxima ou prefere não falar, porque o apoio das pessoas que cumprimenta é esmagador. A proximidade com os munícipes expõe os muitos anos a crescer e viver na Figueira da Foz e Carlos Monteiro até encontra uma antiga aluna sua no liceu — foi professor —, Sara Valada.

Monteiro passa por várias lojas: a “Roupa Nova”, a “Rêverie”. Chega à Rua do Paço e aproveita passar por uma imobiliária para defender as suas propostas e medidas para um dos temas caros ao PS nesta campanha eleitoral, a habitação: “Apesar de em alguns anos termos perdido habitantes — já estamos a aumentar desde 2020 —, há cinco vezes mais procura de casas do que oferta. Ontem aprovámos em Assembleia Municipal mais uma estratégia para a habitação. Mesmo com o número de residentes a ter caído, há falta de habitação, é uma cidade muito procurada”, garante.

O périplo prossegue com paragem na Vaz Joalheiros, depois na Salgueiro Tecidos — “a mais antiga” loja da Figueira, com 110 anos. Mais uma oportunidade para Carlos Monteiro defender o seu mandato autárquico: “Temos a iniciativa Comércio com História, que dá alguns benefícios fiscais de arrendamento a quem não é proprietário do espaço”.

Atrás do balcão da Salgueiro Tecidos, Otília Medina, há 40 anos na loja (“era do meu pai e do meu tio”), assente. Mas depois da comitiva sair reconhece ao Observador que “depois da crise e da pandemia nota-se uma grande diferença no negócio, está pior” e que “a Figueira da Foz está um bocado deserta, depois do verão parece uma aldeia”. Ainda assim, apoia Carlos Monteiro: “Acho que tem feito um bom trabalho. Nunca se agrada a todos mas é bom ter um figueirense à frente, tem mais sensibilidade para os problemas da terra”.

Passa-se depois por um quiosque e na comitiva comenta-se o travão constante, os cumprimentos que se sucedem. “Então e o Mário Soares também não falava a toda a gente?”, pergunta Monteiro, convicto de que a proximidade com as pessoas é um trunfo para uma vitória no dia 26 de setembro. Ainda haveria de cumprimentar funcionários da câmara que estavam a trabalhar numa obra pública, com os funcionários a gracejar: “Estava a ver que não vinha!”.

Contra o “paraquedista” que não é daqui, mas com sorrisos para a comadre

É altura de entrar no mercado e à entrada deparamo-nos logo com uma apoiante fervorosa: uma comerciante, Ilda Andrade, aproxima-se e exclama que “temos de gritar pelo PS”, pede a Carlos Monteiro que “continue” e dá-lhe “força”, canta “PS! PS! PS!” e diz ao Observador que é socialista: “Só apoio este e mais ninguém. É uma pessoa humilde, quanto tive problemas recebeu-me sempre e resolveu”. Ainda aproveita para malhar em Santana: “Quer-se é uma pessoa que seja da Figueira, nascida e criada cá, não é de um paraquedista que precisamos. Alguém que nasça aqui, que faça a vida aqui, que criou os filhos aqui”.

O candidato socialista acabou a manhã a visitar o mercado municipal.

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Monteiro move-se como um local: pergunta a alguém que bebe café “olá, então o meu amigo está em forma?”, entoa um “ó” arrastado a que se segue um abraço quando vê outro figueirense e encontra uma mulher de 97 anos, Ana Paula, que lhe diz que “os 97 já pesam mas vou lá pôr uma cruzinha”.

É já perto do fim da ronda pelo mercado que acontece o primeiro encontro com uma apoiante assumida de outro candidato. Carlos Monteiro sabe-o antes de se aproximar, é aliás ele que toma a iniciativa do encontro: “Vamos aqui cumprimentar uma apoiante do dr. Pedro Santana Lopes”. É Flávia Varela, uma das comerciantes do mercado, que lhe diz de pronto: “Eu gosto de si, você sabe, mas o meu voto vai para o meu compadre”.

Flávia Varela desfaz o mistério: diz que gosta do “senhor presidente” mas que Pedro Santana Lopes “é padrinho do meu filho, é como família, gosto muito dele e gostei muito do trabalho dele na Figueira”. A comerciante vinca que “os anos em que ganhei mais dinheiro na Figueira” foram quando Santana era presidente e acha que o “compadre” vai ganhar. De Pedro Machado, o candidato do PSD, é que não gosta mesmo nada: “O que ele fez ao doutor Santana Lopes não se faz”.

Carlos Monteiro, candidato do PS, cumprimenta uma apoiante assumida de Santana Lopes.

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Carlos Monteiro não ouve muitas queixas, mas há quem lhe diga para “ir alcatroar aquilo em Buarcos, que está uma vergonha”. A comitiva sobe ao piso um do mercado e visita as novas instalações da Universidade Sénior, para ali transferida por decisão da autarquia. “O mercado foi todo requalificado e esta parte de cima não tinha serviços. Tínhamos a universidade sénior com perto de 400 pessoas a frequentar, passou para aqui”.

Um dado curioso na arruada de Carlos Monteiro, invulgar numa ação de campanha deste tipo, é que o candidato nunca apela ao voto, nunca pede a “cruzinha” da praxe — cumprimenta as pessoas, mostra-se afável e interessado e confia que isso bastará para que o apoiem. Só tem de o fazer quando é abordado por um casal, Agostinho da Costa e Fernanda da Costa, homem e mulher que cresceram na Figueira da Foz (ela ali nascida, ele desde os 9 anos) mas que só regressaram recentemente depois de décadas a trabalhar nos Estados Unidos da América, onde deixaram dois filhos e cinco netos. Ainda lá voltam com frequência, vão e vêm com regularidade: “Estivemos lá agora dois meses”.

Fernanda da Costa pede ao candidato socialista: “Convença-me a votar em si”. E Carlos Monteiro tenta, falando do que fez e do que ainda tenciona fazer. Fernanda ouve, avisa-o que “se não for verdade vou lá à câmara ter consigo” e fica com um cartão com o contacto do presidente. Tal como o marido, diz que ainda se está a inteirar mas que gostou de ouvir o candidato falar: “Respondeu a algumas questões e mudou-me um bocadinho a ideia. Há duas semanas estava inclinada para o outro, para o Santana”.

Está confiante que dia 26 vai ter uma boa vitória?
Estou confiante por aquilo que as pessoas nos vão dizendo. Para o bem ou para o mal — para mim é para o bem — as pessoas encaram-me como um deles, com proximidade. Há uma disponibilidade muito grande, sempre, para resolver os problemas das pessoas. Às vezes dizem-me que me preocupo com coisas pequenas, podem ser coisas pequenas mas para quem está do outro lado podem ser grandes problemas. Esse relacionamento com muitas das pessoas tem 12 anos, tem 20 e tal anos, tem 30 anos. Vem de quando era professor e diretor de escola, continuou agora estando na câmara. Essa proximidade e essa confiança não se perdem de um momento para o outro. Acredito que na hora da verdade as pessoas vão votar em quem confiam e com quem têm proximidade.

O candidato do CDS disse que a Figueira da Foz tem “definhado” nos últimos anos. Como encara a crítica?
Só pode ser feita por quem não conhece. Em 2011 éramos em termos de rendimento per capita o 27º concelho, hoje somos o 25º. Em 2020 e 2021 começámos a inverter a perda de residentes. Estamos a atrair novos residentes — e novos residentes italianos, alemães, franceses e alguns nepaleses. Tem sido feito um trabalho em termos de educação, o ensino é de grande qualidade. Depois circula-se na Figueira com segurança. Ainda temos algumas situações que nos preocupam, portanto vamos pôr videovigilância. Temos um parque industrial com empresas que faturam 3,1 mil milhões de euros. Somos o concelho mais industrializado do distrito. Temos um conjunto de fatores que foram crescendo. Está previsto a curto prazo vir para cá um polo da Universidade de Coimbra. Porquê agora? Porque agora com o PRR é que há fundos para isto. A economia azul hoje está nestes quadros comunitários e a Universidade de Coimbra precisa de mar e o mar está na Figueira. Em termos de indústria as ideias estão aí. E em termos de turismo, desde 2014 temos estado acima da média por exemplo de Aveiro em termos de dormidas por 100 habitantes. De 2014 a 2019, subimos sempre. Estivemos sempre acima de Aveiro, que é capital de distrito.

Se os resultados eleitorais forem próximos, sem maioria absoluta, como resolverá?
Já governámos quatro anos sem maioria absoluta. Temos quatro eleitos, o PSD tinha 3 e o movimento independente tinha 2. E governámos sempre a resolver os problemas do concelho, que na altura eram muito complicados, tínhamos uma situação financeira complicada. Não tínhamos credibilidade financeira. Resolvemos a concertar com as pessoas. Para não errar, digo que 90% das decisões de câmara foram aprovadas por unanimidade. É este diálogo e esta concertação que sempre existiram e vão continuar a existir. Quero crer que todos os que forem eleitos têm como objetivo principal o desenvolvimento do concelho. Tudo o que for positivo vai ser aprovado.

Enfrentou o furacão Leslie e uma pandemia. O que tenciona fazer e o que ainda falta fazer?
Quando apanhámos o Leslie houve um prejuízo de 40 milhões no concelho, é o número das seguradoras, não é meu. Em termos de espaço público houve um prejuízo de quatro milhões e nas coletividades foi superior a 800 mil. Nessa altura, já tínhamos pagado na ordem dos 60 milhões de dívida mas conseguimos ter disponibilidade financeira para apoiar as coletividades. Com a pandemia houve pessoas que passaram grandes dificuldades e devemos ter colocado na ordem dos dois a três milhões em apoios diversos, quer às coletividades quer às instituições quer às pessoas. E isso retardou algumas obras, algumas pavimentações, alguns asfaltamentos. Ainda há pouco alguém me dizia que a rua dele estava uma miséria, é verdade, há ruas que estão más mas entre pavimentar ruas ou deixar que alguém com o nosso conhecimento passe fome, a prioridade foi sempre essa. Há outros atrasos que provocaram também alguma insatisfação. Houve algumas coisas que correram menos bem, mas também a nível nacional foi assim.

Critica a dívida que herdou. Houve investimentos feitos no mandato de Santana Lopes que não teria feito?
Teria feito de outra maneira. Por exemplo, temos o Mosteiro de Seiça, que andamos há 4 ou 5 anos para começar a obra. Mas só a começámos quando tivemos fundos comunitários, é uma obra de 2,6 milhões e ia afetar muito o orçamento da câmara se a fizéssemos sem fundos comunitários. O dr. Santana Lopes fala do saneamento, o saneamento foi uma obra importante mas poderia ter sido feita com fundos comunitários. Desvaloriza as nossas obras, mas o que tenho para lhe dizer é que com a dívida que já pagámos tinha feito seis Centros de Artes e Espectáculos (CAE), ele fez um. Além disso, fizemos três novos centros escolares, três novos centros de saúde, requalificámos o Castelo Engenheiro Silva. Não tínhamos um quartel de bombeiros decentes nem tínhamos um corpo de bombeiros equipado, fizemos um novo quartel de bombeiros e equipámos os nossos bombeiros.

PSD. Sarmento quer Machado autarca, Machado quer Sarmento ministro

Pedro Machado tem uma missão espinhosa pela frente: é o único candidato do PSD no país que tem de enfrentar numa batalha autárquica alguém que, pelo mesmo partido, foi presidente dos sociais-democratas, primeiro-ministro e presidente da câmara municipal a que agora mesmo se recandidata.

Não é fácil enfrentar Pedro Santana Lopes e a estratégia de tentar impugnar a candidatura do antigo presidente do PSD na justiça vale-lhe ataques cerrados de Santana. Mas Pedro Machado, que foi presidente da entidade Turismo do Centro, vai à luta tentando vender aos eleitores a ideia de que é ele quem tem o melhor programa eleitoral para a Figueira da Foz, por um lado, deixar de “definhar” como considera ter acontecido nos últimos anos com o PS, e para por outro lado alavancar o concelho para o “futuro” e não para o passado da gestão autárquica de Santana.

Internamente, acredita-se na campanha que, mais do que o melhor candidato, Pedro Machado é o candidato com o melhor programa eleitoral para a Figueira da Foz. É um programa eleitoral com “dez eixos programáticos, oito medidas prioritárias e 139 medidas”. Mas as duas sondagens já divulgadas, que lhe dão intenções de voto inferiores a 10%, parecem sugerir que ou a mensagem não está a passar ou não está a ser suficiente para convencer os eleitores.

Na primeira semana, a agenda de campanha era sobretudo temática: num dia dedicado à economia visitava empresas, num dia dedicado à educação e cultura visitaria escolas e o CAE, num dia dedicado ao mar visitaria a Docapesca e reuniria com a incubadora de empresas Marefoz. Só mais perto do fim da primeira semana, na sexta-feira, sábado e domingo, iria a cafés e feiras e procuraria mais o contacto direto com pessoas na rua. A popularidade indiciada pelas sondagens, por esta altura, também não convida a grandes arruadas mas é também pelos espaços institucionais que Pedro Machado quer passar, para falar das suas propostas para a autarquia.

Na terça-feira, 14 de setembro, Pedro Machado arrancava às 10h a campanha oficial com uma visita à empresa Somitel, na zona industrial da Figueira da Foz. Foi guiado por José Manuel Vieira Marques, empresário e administrador do grupo que se especializou nas áreas das instalações elétricas, telecomunicações e novas tecnologias, e levou consigo um convidado do PSD ligado à área da economia: Joaquim Sarmento, no passado descrito como uma espécie de homólogo laranja de Mário Centeno e atualmente presidente do Conselho Estratégico Nacional (CEN), órgão de aconselhamento programático do PSD em especial (mas não só) para a área da economia e finanças públicas.

O candidato social-democrata visitou duas empresas na manhã do primeiro dia oficial de campanha.

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Notando que tem como uma das principais ambições de candidatura que o parque industrial da Figueira da Foz “cresça” e se projete em área, já à conversa na “copa” de cafés do Grupo Somitel, o candidato do PSD insistiria na ideia de que tem “o programa mais consistente, mais completo e mais abrangente nas áreas de intervenção da política pública municipal”. Enfrentando personalidades mais mediáticas, como Carlos Monteiro — por ser presidente da câmara — e Santana Lopes, Machado procura convencer pelas soluções técnicas.

A visita arrancava com “uma breve apresentação” deste grupo de empresas, que tem na zona industrial da Figueira da Foz “a sua sede operacional”, que conta com cerca de “220 trabalhadores” e que fatura “na casa dos 11 milhões de euros”. José Manuel Vieira Marques daria ainda uma novidade: o grupo está a entrar também no setor de negócio do turismo, até porque, considera o administrador “como figueirense e como alguém que nasceu na Figueira”, o turismo “vai ser uma das grandes alavancas da economia nesta zona mais litoral, é onde somos bons e temos algumas condições naturais que permitem alavancar esse tipo de negócio”.

Na visita à empresa, uma parede decorada com uma imagem de um jogo entre a Académica de Coimbra e o Benfica — numa divisão mais descontraída, com uma mesa de pingue-pongue instalada — haveria de valer uma piada de Pedro Machado, aficionado do outro rival lisboeta do Benfica (o Sporting). Mais tarde, quando conheceu um funcionário da empresa com a mesma cor clubística, faria o gracejo: “Percebe-se a diferença que faz ter um sportinguista na coordenação de um trabalho”.

Numa das salas da empresa, o administrador da Somitel, José Manuel Vieira Marques, ofereceu ao candidato um livro sobre a freguesia de São Pedro. Pedro Machado agradeceu, ainda o tentou oferecer a Joaquim Sarmento mas o presidente do Conselho Estratégico Nacional (CEN) recusou com graça: “Depois ofereces quando fores presidente de câmara”. Uns minutos mais tarde, seria Pedro Machado a vaticinar um futuro para Sarmento, dizendo-lhe que vai ser o próximo ministro das Finanças. A resposta entre gargalhadas: “Pensava que eras meu amigo, pá”.

Enquanto folheavam o livro, Pedro Machado e Joaquim Sarmento iam comentando o troço ferroviário Linha do Oeste e recordavam as invasões napoleónicas e a resistência nas linhas de Torres. E Sarmento aproveitava para comentar um facto histórico: “O Junot [Jean-Andoche Junot] tinha um general que não tinha um braço. Ficou o maneta. Daí a expressão ir para o maneta”. Já Pedro Machado dir-lhe-ia: “Temos aqui a 500 metros, nem isso, a casa onde o Wellington esteve com as tropas e temos de a recuperar em definitivo. É preciso, para combater a sazonalidade do turismo, criar produto para outros meses fora do verão”.

Pedro Machado contou com a presença de Joaquim Miranda Sarmento.

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Enquanto percorria a empresa, a comitiva — com pouco mais de uma dezenas de pessoas — ia vendo um dos slogans da Somitel escrito pelas paredes e pelo chão: “Acertar é humano”. Serviria para uma piada autárquica ouvida na comitiva: “Espero que os figueirenses acertem”.

O administrador da empresa deixava uma sugestão, que se criasse “um condomínio” em todo o parque industrial da Figueira da Foz, com um sistema de segurança partilhado entre as diferentes empresas que ali têm as suas instalações. “Assim não precisávamos de ter todos segurança individualizada, com um ou dois carros a fazer rondas se calhar custava 50 euros a cada”. Pedro Machado ouvia e registava, apercebendo-se também — pelo seu candidato à junta de freguesia de Lavos — que aquela zona estava a tornar-se “uma zona de aceleras” à noite.

À saída, o administrador da empresa contaria ao Observador já conhecer Pedro Machado “há bastante tempo, se calhar há 15 anos ou mais”. Vincando que como empresário deve ter uma postura imparcial, José Manuel Vieira Marques acrescentava que o seu presidente será “o que for eleito” e explicava que aquilo que quer é que “haja uma nova dinâmica e vaga de investimento na Figueira”. E o concelho, diz, “só consegue ter dinâmica crescendo e fixando a população”.

A Figueira da Foz “é o melhor sítio do mundo para se viver e tem todas as condições para no prazo de dez ou 15 anos ter 100 mil habitantes”, defendia o administrador da Somitel, mas “não é um concelho bom para trabalhar, as pessoas fogem, é preciso criar mais empresas, facilitar o investimento dos empresários que querem investir”. Há muita gente que gostava “de viver num sítio como este, mais perto do mar, para ter mais qualidade de vida”, acredita, mas para ter essa hipótese é preciso existirem “oportunidades de emprego” acrescidas.

A terminar a primeira manhã de campanha, Pedro Machado e os candidatos do PSD à Figueira da Foz visitariam a United Resins, outra empresa de referência da região, que se queixava que a atividade de produção e transformação de resinas ficou “esquecida” em Portugal e que os custos da matéria-prima são demasiado altos.

Numa das divisões da United Resins a comitiva encontraria dois pássaros em gaiolas. Nova piada: “Se viesse aqui o PAN estávamos tramados”. O empresário António Mendes Ferreira fazia a visita guiada e aproveitava para se queixar que “se isto fosse como o setor automóvel e não se comprasse um carro por não ter depois assistência técnica, ninguém fazia empresas em Portugal”.

Contando que o seu segredo tem sido “estar tempo suficiente numa atividade económica para resistir aos maus momentos e ganhar dinheiro nos bons”, o empresário da United Resins brincaria ainda dizendo que os players do seu setor de negócio vão variando tal como os intervenientes políticos, “na democracia não são sempre os mesmos que estão em Portugal”. Joaquim Sarmento não se deixaria ficar: “Olhe que em Portugal ultimamente são quase sempre os mesmos, por isso é que isto está como está…”.

Pedro Machado deslocou-se ainda junto ao 5º Molhe, praia da Cova-Gala, freguesia de São Pedro, para destacar outro dos problemas que encontra na gestão autárquica do PS na Figueira da Foz, ao longo dos últimos anos: a demora na solução do grave problema da erosão costeira. As soluções propostas “são parcas”, entende, “para o problema que aqui está” e só a areia “não resolve o problema da proteção costeira”.

A erosão costeira da Figueira da Foz é um dos problemas apontados pelo candidato do PSD.

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Que expectativas tem para esta campanha eleitoral?
Fizemos um grande programa eleitoral, conhecemos os problemas a fundo da Figueira da Foz, ouvimos especialistas nacionais e muitos aqui da Figueira da Foz. Sinalizámos este início de campanha exatamente dando prioridade à área de investimento, à criação de emprego. Temos uma expectativa elevada de podermos nestes dias de campanha dirigirmos dias temáticos, no sentido de nos aproximarmos das pessoas, dos figueirenses e dos seus problemas reais e de lhes apresentarmos as nossas soluções.

Santana Lopes criticou-o dizendo que tentou ganhar as eleições na secretaria. Como reage?
O tempo dos tribunais acabou, agora estamos no tempo da campanha, de esclarecimento dos programas eleitorais. O que é dos tribunais, compete aos tribunais resolver. Como ficou esclarecido por outros candidatos que tiveram problemas semelhantes e não tiveram nem de perto nem de longe a dimensão mediática deste. Não nos queremos substituir aos tribunais. Queremos regras iguais para todos e que todas as candidaturas tenham exatamente o mesmo ponto de partida. Por isso o PSD, quando foi identificado um conjunto de possíveis irregularidades, transmitiu-as a quem de direito. Esse tempo acabou, o tribunal constitucional já se pronunciou, a CNE já se pronunciou, agora queremos fazer o nosso trabalho e estar perto dos figueirenses.

Enfrentará um antigo presidente do PSD e um antigo presidente da câmara municipal da Figueira da Foz pelo PSD. Isso torna a missão muito mais difícil?
Estamos perante dois modelos. Um corresponde ao final do século passado, nomeadamente no caso dessa candidatura que identifica, entre 1997 e 2001 mas também àquilo que é o arranque deste século com a candidatura do PS. Aquilo que nos estamos a propor hoje é um modelo para o futuro. É evidente que há uma bolha mediática à volta da candidatura Figueira A Primeira que naturalmente traz para esta campanha um desafio maior, uma maior intensidade, um maior esforço de podermos chegar junto daquele eleitorado tradicionalmente do PSD que perante este cenário pode estar menos esclarecido. Temos uma missão redobrada de explicar qual é a candidatura do PSD e como nos propomos a governar a câmara municipal com uma ambição diferente daquela que foi a que caracterizou o final do século passado.

Uma surpresa ao almoço. E a sombra Santana

Nas visitas matinais a empresas, Pedro Machado tivera consigo uma figura de relevo do PSD, Joaquim Sarmento. Mas num almoço de campanha, com um núcleo muito circunscrito de pessoas (menos de uma dezena), contaria com um convidado ilustre: o académico e antigo ministro social-democrata Miguel Poiares Maduro, que é figueirense e que ajudou a coordenar o programa eleitoral do PSD à Figueira da Foz.

Poiares Maduro contaria ao Observador que Pedro Machado pediu-lhe “para colaborar na organização do programa, quer juntando várias pessoas aqui da Figueira que são especialistas em diferentes áreas quer trazendo pessoas de fora da Figueira que oferecessem um olhar diferente e trouxessem exemplos de políticas bem sucedidas noutros locais”.

Defendendo que Pedro Machado é “alguém com muita competência e que demonstrou até como responsável do Turismo do Centro uma enorme capacidade de gestão e uma forma de gestão virada para o futuro que é o que acho que a Figueira precisa”, o antigo ministro do PSD não poupou nos elogios. Disse, por exemplo, que teve a oportunidade de conhecer melhor a forma como Pedro Machado trabalha e ficou impressionado pela “capacidade de método que tem: se participar numa reunião com o Pedro, ele vem extraordinariamente preparado, já obteve imensa informação sobre os assuntos que tem para discutir e preparar”.

Pedro Machado também é presidente do Turismo do Centro.

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O candidato do PSD “gosta de juntar muitas pessoas competentes à sua volta, vai à procura dos melhores quadros e das pessoas que lhe possam trazer melhores competências e capacidades reforçadas para os problemas que enfrenta”, entende Poiares Maduro.

A campanha social-democrata tem porém um “fantasma”, uma sombra que paira e que raramente é diretamente abordada em on: Pedro Santana Lopes. Questionado sobre isso, Poiares Maduro falou abertamente: Santana “é um ex-militante do PSD que foi presidente da câmara eleito pelo PSD e naturalmente que isso representa para o dr. Pedro Machado um desafio particularmente acrescido. A visibilidade mediática é uma grande vantagem e naturalmente que um ex-primeiro-ministro tem-na”.

Poiares Maduro diz compreender quem, pelo mediatismo de Santana Lopes e pelas suas anteriores posições de poder, vir no antigo presidente do partido a capacidade de “elevar a Figueira de novo a uma visibilidade, uma dimensão e uma importância no contexto do país que os figueirenses aspiram, que a Figueira já teve e que perdeu”.  A divisão entre os eleitores e militantes sociais-democratas pode ser portanto uma realidade, assumia.

O social-democrata quis porém vincar que o PSD fez uma escolha antes mesmo do anúncio de candidatura “do dr. Santana Lopes” e defendeu que Pedro Machado, “pelo trabalho que teve no Turismo do Centro, também é suscetível de demonstrar aos figueirenses essa capacidade de trazer a Figueira para os tempos futuros, não deixar a Figueira prisioneira de um certo marasmo em que as pessoas a concebem e lhe atribuem mas voltar a colocar a Figueira no lugar que para os figueirenses é o lugar da Figueira, enquanto uma cidade da maior relevância em Portugal e uma das principais praias do país”

A mesma confiança no candidato tem Joaquim Sarmento, presidente do CEN, que nessa qualidade tem “ido a muitos sítios onde o PSD apresenta candidatos” e que diz ter ficado agradado com “o projeto de futuro” que Pedro Machado apresenta “para esta cidade tão importante do Centro do país”.

Considerando o candidato social-democrata “uma pessoa bastante competente, séria, dinâmica, dedicada à causa pública”, alguém que “tem feito um trabalho notável na região através do Turismo do Centro”, Sarmento considerou que o PSD “está a conseguir apresentar uma alternativa” ao PS no país e “as autárquicas são um ponto importante para o PSD e para essa alternativa, para que em 2023 ou até antes disso o país possa mudar de rumo e voltar a ter uma perspectiva de crescimento e desenvolvimento económico contrária a estes últimos 20 anos de estagnação marcados pela governação socialista”.

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