Seguiu as pistas de Stieg Larsson e descobriu quem matou o primeiro-ministro da Suécia /premium

08 Junho 2019504

Anos antes de escrever a saga Millennium, Stieg Larsson tentou deslindar o homicídio do primeiro-ministro sueco. Jan Stocklassa seguiu as pistas que ele deixou: "Sei como e por que Olof Palme morreu".

Tudo começou com… arquitetura. Mais concretamente, com a “sintaxe espacial”, uma teoria obscura desenvolvida nos anos 70, segundo a qual a configuração dos espaços pode influenciar o comportamento humano e que Jan Stocklassa, ex-diplomata e CEO de uma empresa de software para jogos de azar online, resolveu testar, numa espécie de homenagem ao diploma universitário que guardara na gaveta algumas décadas antes.

A ideia era aplicar a teoria a casos reais e fazer do resultado um livro sobre como o mesmo espaço — um casa, por exemplo — pode determinar comportamentos semelhantes em pessoas diferentes. Mas claro que, não fosse Stocklassa sueco, a componente crime também tinha de fazer parte da mistura. Foi o que bastou para desencadear uma sucessão de eventos digna de um policial nórdico. Com uma grande, grande diferença: no livro de Jan Stocklassa, tanto os crimes como as personagens são reais. E os perigos também.

Foi depois de uma mulher aparecer morta nas margens de um lago na região de Småland, a cerca de 250 km de Estocolmo, que resolveu escrever um livro, o seu segundo. Daí até estar a ler sobre os homicídios von Sidow, que tinham chocado a Suécia em 1932, passou apenas um mês. Não muito depois, percebeu que tinha acontecido outro crime na mesma casa em que Hjalmar von Sidow, a cozinheira e a empregada da família tinham sido espancados até à morte com um ferro de engomar (nada menos do que pelo filho mais velho do dono da casa, que, assim que percebeu que ia ser detido pela polícia, também matou a tiro a namorada, suicidando-se de seguida).

Stieg Larsson investigou o homicídio de Olof Palme e colaborou com a polícia. Deixou vinte caixas cheias de documentos sobre o crime

Em novembro de 2003, depois de 23 anos a morar no apartamento manchado de sangue que, entre 1932 e 1980, ninguém quis arrendar, o outrora conceituado médico Alf Enerström, ex-marido de Gio Petré, atriz relativamente famosa que chegou a participar em Morangos Selvagens, de Bergman, recebeu uma ordem de despejo. Quando as autoridades chegaram para o retirar da casa que não pagava há meses, foram recebidos a tiro — uma agente da polícia foi atingida várias vezes, mas sem gravidade; Enerström, de panela na cabeça a fazer de capacete, foi internado num hospital psiquiátrico.

Para Jan Stocklassa não podia ser melhor: não só confirmava a teoria da sintaxe espacial, com uma série de crimes no mesmo endereço, como até juntava ao bolo uns quantos nomes sonantes.

Ou parecia que não podia ser melhor: na sequência das suas investigações sobre von Sidow e Enerström, o autor encontrou rapidamente o relatório da Comissão de Investigação ao homicídio do primeiro-ministro sueco Olof Palme, onde o nome do ex-médico, conhecido fanático militante anti-Palme, aparecia, acusado de envolvimento. Foi na noite de 28 de fevereiro de 1986, enquanto caminhava pelas ruas de Estocolmo com a mulher, Lisbeth, de regresso a casa depois de terem ido ao cinema, que Palme foi alvejado mortalmente, pelas costas. 33 anos depois, o caso continua em aberto.

Em outubro de 2010, marcou encontro com Alf Enerström. Em janeiro de 2012, encontrou-se com Gio Petré, a ex-mulher. Foi nessa altura, explica em “Stieg Larsson – Os arquivos secretos e a sua alucinante caça ao assassino de Olof Palme”, que disse definitivamente adeus ao livro sobre a sintaxe espacial e à ideia de seguir os crimes dentro da mesma casa. E foi nesse mesmo mês que, ao procurar um obscuro folheto anti-Palme, assinado pelo então casal em 1977 — “Fizemos Cair o Governo” –, deu início à fase final da cadeia de eventos que o faz estar agora, numa segunda-feira de junho de 2019, sentado no terraço de um hotel junto ao Marquês de Pombal, a dar entrevistas.

O investigador demorou oito anos a escrever “Stieg Larsson - os arquivos secretos e a sua alucinante caça ao assassino de Olof Palme”

Primeiro conheceu um bibliotecário que também se tinha dedicado a investigar o envolvimento de Enerström no crime. Depois esse bibliotecário aconselhou-o a falar com Anna-Lena Lodenius, co-autora do livro “A Extrema-Direita”, publicado em 1991. Ela recebeu-o na própria casa, deu-lhe acesso ao ficheiro que tinha com o nome do médico e ao resto dos seus arquivos.

O momento eureka vem assim descrito no livro agora lançado em Portugal:

“Os documentos tinham em comum serem relativos ao ódio anti-Palme e indicavam ocasionalmente a possibilidade de determinada pessoa ou organização estar implicada no seu assassínio.

Pousei estes papéis à minha frente na mesa. Nenhum estava assinado, nem datado, era a mesma prosa precisa e habilmente formulada que se encontrava no memorando acerca de Alf. Estava completamente perdido. Ou antes, entrei na outra divisão, onde Anna-Lena fazia a triagem a papéis.

— Diz-me, sabes o que é isto?

Anna-Lena folheou os papéis que eu tinha nas mãos e leu algumas linhas.

— É de Stieg — disse ela

— Stieg?

— Foi Stieg Larsson que escreveu isso. É sem dúvida algo que ele escreveu na altura em que se interessava bastante pelo homicídio de Palme.

— Queres dizer Stieg Larsson, o autor de policiais? Ele investigava o assassínio de Palme?

— Sim, paralelamente às suas investigações acerca da extrema-direita — disse Anna-Lena. — Foi muito antes de ter escrito os policiais. A maior parte do material nestes ficheiros vem de Stieg. Ele enviava-me sempre cópias dos documentos importantes, para o caso de acontecer alguma infelicidade aos originais.”

Escusado será dizer que o outro autor de “A Extrema-Direita”, bem como fundador da revista anti-racista Expo, era Stieg Larsson, antes de famoso escritor de policiais — e da saga Millennium —, conhecido jornalista de investigação e ativista, mais do que de esquerda, anti-extrema-direita. E que, enquanto não conseguiu chegar ao arquivo pessoal dele sobre o caso Palme, exatamente um ano depois, em março de 2013, Jan Stocklassa não descansou.

“Stieg Larsson – Os arquivos secretos e a sua alucinante caça ao assassino de Olof Palme” conta a história de todas estas coincidências e não só: a partir das pistas deixadas pelo aclamado autor da saga Millennium, morto em novembro de 2004 por um ataque cardíaco fulminante, Stocklassa fez a sua própria investigação.

Oito anos, dezenas de contactos e vários países depois, diz ter descoberto quem, na noite de 28 de fevereiro de 1986, alvejou o primeiro-ministro sueco Olof Palme, enquanto regressava a casa a pé vindo do cinema, sem seguranças e na companhia da mulher, Lisbeth Palme.

Ao Observador, falou sobre a forma como a vida do famoso autor da saga Millennium se confunde com os personagens que criou e sobre a investigação que ambos empreenderam acerca do homicídio de Palme e envolve extremistas suecos e espiões sul-africanos. Trinta e três anos depois, garante que a polícia está “finalmente na direção certa” e que o crime deverá ser resolvido em breve.

Também revela que já está a trabalhar num novo livro e que acredita que o facto de se ter esquecido do computador portátil, carregado de documentos, no avião que o trouxe a Lisboa — “Um erro de amador, eu sei” — não deverá deixar o projeto em risco. Não quis avançar sobre o que será, mas, pelas pistas que deu, tudo indica que o tema é o atentado terrorista que a 21 de dezembro de 1988 fez explodir o avião da Pan Am que fazia a ligação entre Londres e Nova Iorque sobre a cidade escocesa de Lockerbie — e que também estará relacionado com o assassinato do primeiro-ministro sueco, dois anos antes.

Estamos aqui para falar deste livro, mas, há nove anos, quando começou a fazer pesquisa para um outro, nunca imaginou que íamos estar aqui a falar disto. O que lhe aconteceu? Que história é esta que, por si só, podia dar um romance?
Ia escrever outro livro e algo aconteceu perto da minha casa de verão na costa da Suécia, junto a um oceano muito diferente, mas até um pouco parecido com Portugal. Uma mulher foi assassinada a apenas três quilómetros da minha casa. Quando googlei o sítio onde o crime aconteceu — era um sítio muito estranho, misterioso — descobri que outra mulher tinha sido morta lá há 170 anos e pus-me a pensar: se existe um local como este, onde aconteceram vários homicídios, talvez existam mais. Comecei à procura de outros sítios e encontrei alguns…

Sendo que, por trás, tinha o enquadramento da arquitetura, da teoria da “sintaxe espacial”…
Sim, sim, exatamente. Isso era uma coisa que tinha aprendido há muitos anos: os lugares podem ter influência nas pessoas e afetá-las de modo a que se sintam em harmonia ou inseguros ou, até, que os levem a cometer crimes. E depois encontrei um apartamento em Estocolmo onde tinham sido mortas três pessoas em 1932, para onde se tinha mudado, em 1980, uma pessoa que tinha sido suspeita no homicídio de Olof Palme. Comecei a investigar esta pessoa e isso levou-me ao arquivo do Stieg Larsson. Portanto, sim, foi um longo e sinuoso caminho, aquele que percorri até chegar até esta história.

Olof Palme foi primeiro-ministro da Suécia entre 1969 e 1976 e depois entre 1982 e 1986. Morreu aos 59 anos

Ao longo desse tempo, falou com uma série de pessoas próximas de Stieg Larsson, a mulher dele, colegas… o que é que lhe revelaram sobre ele?
Quando comecei não sabia nada, tinha lido os livros, mas não sabia nada sobre ele — nem sobre o homicídio de Olof Palme. Sabia que tinha sido o nosso primeiro-ministro e sabia que tinha sido assassinado, só isso. À medida que fui conhecendo os amigos do Stieg Larsson e a companheira dele — eles não eram casados, o que fez com que ela não recebesse um único euro da herança, o pai e o irmão do Stieg Larsson têm 100 milhões de euros, mas a Eva Gabrielsson não tem nada…

E nem sequer eram próximos, o pai e o irmão?
Não, nada próximos, mas a Eva era extremamente próxima, era a pessoa que o ajudava e com quem ele falava sobre tudo, fosse a sua luta contra a extrema-direita, a investigação do caso Palme ou a escrita dos seus romances. Ela era a pessoa mais importante para ele. Agora conheço-a bastante bem, encontramo-nos regularmente, ela também é arquiteta, portanto temos algo mais sobre que falar, além do homicídio e do Stieg.

Que retrato dele é que ela lhe descreveu?
Aquilo que percebi, tanto das conversas com ela como com os seus colegas e amigos, é que, apesar de estar obcecado com a luta conta a extrema-direita, ele era também uma pessoa muito calorosa, atenciosa, dedicada e também divertida. Era muito bem-humorado.

Recorda-se de algum episódio que lhe tenham contado?
Sim, lembro-me de uma história que até está relacionada com o homicídio de Palme. Ele estava muito interessado no caso, então, um dia, foi a uma reunião de pessoas comuns que estavam também a fazer as suas próprias investigações privadas. A certa altura, uma senhora — e não há muitas senhoras neste contexto, mas esta estava lá — pediu o microfone e começou a sussurrar: “Eu sei quem matou Olof Palme”. E toda a gente gritou: “Então diz-nos! Quem foi?”. E ela respondeu, no mesmo tom: “Não posso, é muito perigoso”. No dia seguinte, o Stieg apareceu na redação a rir à gargalhada e contou a história a toda a gente — achava hilariante que ela tivesse pedido o microfone para falar em surdina, era esse o tipo de situações e de humor de que ele gostava.

"Estava à espera de encontrar uma pequena pilha de papéis, ou até uma grande pilha de papéis, ou uma caixa de papéis, mas quando abrimos aquela porta de metal encontrámos vinte caixas cheias de documentos do Stieg Larsson."
Jan Stocklassa

Essa obsessão que Stieg tinha com a extrema-direita, percebeu que estava relacionada com o avô dele, certo?
Quando era muito pequeno, os pais não podiam tomar conta dele, porque trabalhavam e moravam muito longe, num apartamento pequeno, por isso pediram aos avós para criarem o Stieg, o que eles fizeram até à morte do avô, tinha o Stieg 9 anos. O avô era um feroz anti-nazi e também um socialista, um comunista, e foi dele que o Stieg herdou muitas das suas posições políticas, nomeadamente a luta contra os extremismos, especialmente os de direita.

Como é que ele travou este combate? Li que chegou a infiltrar-se em alguns grupos…
Não creio que ele se tenha infiltrado pessoalmente, o que percebi foi que trabalhava com várias pessoas, algumas delas muito jovens, e que elas é que se infiltraram em alguns movimentos de extrema-direita para lhe passarem informações. É praticamente o único método eficaz para perceber verdadeiramente o que pensam estas pessoas, que dizem uma coisa em público e depois, por detrás das cortinas, fazem a saudação nazi e defendem posições muito mais extremas.

Eva Gabrielsson viveu com Stieg Larsson durante 32 anos. Como não eram casados, não herdou nada

Portanto, por um lado, o Stieg Larsson era obcecado com a luta contra a extrema-direita e, por outro, com a ideia de descobrir o assassino de Olof Palme. E ambos os universos colidiram, porque uma coisa e a outra estão relacionadas.
Exatamente. Comecei a investigar o caso há oito anos e encontrei os arquivos do Stieg há seis.

O que é que encontrou nesses arquivos?
Primeiro encontrei um documento, no arquivo de uma pessoa…

Anna-Lena Lodenius…
Sim, ela também era amiga do Stieg, mas, na altura, eu não sabia. Estava à procura de informação sobre Alf Enerström no arquivo dela e encontrei um documento, aliás vários, com um estilo de escrita especial, e perguntei-lhe quem os tinha escrito. E ela respondeu: “Stieg Larsson, o escritor de policiais”. Por que é que ele estava interessado no Olof Palme? Disse-me: “Ele estava mesmo muito interessado, deve haver mais papéis em algum lado”. Mas ela não sabia onde, então comecei a procurar e, alguns meses mais tarde, fui com o chefe de redação da revista Expo, que o Stieg fundou, ao armazém deles. Estava à espera de encontrar uma pequena pilha de papéis, ou até uma grande pilha de papéis, ou uma caixa de papéis, mas, quando abrimos aquela porta de metal, encontrámos vinte caixas cheias de documentos do Stieg Larsson.

E depois?
Depois fiquei abismado, sabia que aquilo era um tesouro, mas não sabia o que pensar, comecei imediatamente a ler.

"Pode ter havido um ou dois polícias que não quiseram resolver o caso, mas, no geral, acho que a polícia era apenas estúpida."
Jan Stocklassa

E deram-lhe os documentos? Impuseram-lhe regras?
Deram-me regras, tinha de ficar naquele armazém, não podia levar nada. E lá fora a neve rodopiava e estava muito frio, era um dia feio de inverno nos arredores de Estocolmo. Fiquei lá o dia inteiro, a ler. Descobri uma série de pistas e comecei a aperceber-me de um padrão, a perceber que o Stieg tinha a sua própria teoria sobre quem tinha assassinado Olof Palme.

E a teoria dele era diferente da sua.
Sim, nessa altura já estava há três anos a investigar e já tinha a minha própria teoria, acreditava que a morte de Olof Palme tinha sido levada a cabo por dois ou três extremistas. Depois percebi que o Stieg Larsson acreditava numa conspiração orquestrada na África do Sul, com o auxílio da polícia secreta sueca. Só percebi mais tarde que as duas teorias se interligavam.

Quando estava a desenvolver a própria investigação, o Stieg Larsson falou com a polícia.
Sim, várias vezes.

E nada aconteceu?
Bom, na verdade, em 1987, um ano depois do crime, a polícia estava a investigar o material que ele e outras fontes lhes tinham entregado, por isso nessa altura estava na pista certa. Mas foi só durante um ano, depois foi nomeado outro responsável pela investigação e disse: “Não, isto é lixo, não houve conspiração nenhuma, isto foi obra de uma só pessoa”.

No sítio onde Palme foi assassinado, na rua Sveavägen, no centro de Estocolmo, existe agora um memorial

Acha que isso aconteceu porque não interessava à polícia resolver o crime ou porque os polícias eram burros?
Na verdade, acho que aconteceu porque eles eram burros. Há um ditado que diz qualquer coisa como “nunca atribuas à maldade aquilo que pode ser facilmente explicado com a ignorância”. Acho que foi o que aconteceu. Pode ter havido um ou dois polícias que não quiseram resolver o caso, mas, no geral, acho que a polícia era apenas estúpida.

Prova disso será o facto de ter conseguido entrevistar à primeira o ex-espião sueco Bertil Wedin, uma pessoa de interesse para a investigação, que a polícia sueca não conseguiu interrogar em 32 anos.
Sei que continuam a tentar, escreveram-lhe uma carta há apenas dois meses a pedir-lhe uma reunião. É engraçado que continuem a tentar, ao fim de, agora, 33 anos. Quando eu fui lá, comprei um bilhete de avião, encontrei o número de telefone dele, liguei-lhe, pedi-lhe uma reunião e no dia seguinte estava com ele. Não me parece impossível, mas é mais difícil para a polícia, evidentemente.

Já lá iremos, mas vamos voltar um pouco atrás. Quando é que percebeu que o livro que se preparava para escrever nunca iria acontecer e que tinha de seguir estas pistas?
Acho que, apesar de, na altura, não o ter percebido, foi logo que que encontrei o primeiro documento escrito pelo Stieg Larsson. Foi esse o incidente excitante, o momento em que tudo muda. Ter encontrado o resto dos papéis foi só a continuação disso, mas só percebi um pouco mais tarde. Pus o [outro] livro de lado, mas ele continua lá, talvez algum dia o venha a escrever, mas agora acho que estava destinado a escrever esta história.

"Vi-me em situações que pareciam retiradas dos romances do Stieg Larsson. Com muita gente má, espiões e assassinos, e pessoas inocentes."
Jan Stocklassa

Conseguiu encontrar semelhanças entre a vida de Stieg Larsson e esta investigação e as personagens que ele criou na saga Millennium?
Sim, acho que muitos dos personagens dele foram tirados da vida real. A Lisbeth Salander é um extremo, é uma personagem fictícia, não encontrei ninguém que fosse assim tão radical, mas talvez se recorde, no primeiro livro, de um velho de extrema-direita que vive sozinho numa grande mansão numa aldeia isolada. E eu encontrei uma senhora que vive sozinha numa grande mansão que também tem ideias muito extremistas…

Que por acaso também é uma atriz famosa…
Que por acaso também é uma atriz famosa e perdeu os filhos num trágico acidente. E este foi apenas um dos momentos em que, de repente, me vi em situações que pareciam retiradas dos romances do Stieg Larsson. Com muita gente má, espiões e assassinos, e pessoas inocentes.

Olof Palme (ao centro) em 1983 no Eliseu, numa reunião de chefes de governo socialistas. Mário Soares é o segundo à direita

Tanto que acabou por ter também uma Lisbeth Salander a ajudá-lo na vida real.
Sim, sim! Acabei por usar alguns dos métodos do Stieg Larsson. A Lisbeth Salander era uma hacker e o Stieg Larsson usou esses métodos, e eu acho que, no meu caso, também houve pirataria informática envolvida. Tive uma fonte, que protejo no livro, que me entregou e-mails. E outro dos métodos que usei foi a infiltração, que o Stieg também usou inúmeras vezes. Encontrei uma mulher em Praga, na República Checa, que me ajudou a chegar a uma pessoa que suspeito ter estado envolvida diretamente na execução do nosso primeiro-ministro. E agora [essa mulher que me ajudou em Praga] é a minha namorada, foi o outro resultado daquele projeto tão excitante que levámos a cabo juntos.

Sendo que começou por encontrá-la no Facebook, onde ela era amiga desse suspeito.
Sim, ela tinha uma foto falsa de perfil e era da República Checa, onde eu tinha morado durante muitos anos. Fiquei intrigado por ele conhecer uma pessoa assim e contactei-a. Encontrámo-nos num bar, em Praga.

Como foi esse primeiro encontro?
Foi peculiar, tínhamos combinado encontrar-nos num bar que eu já conhecia, mas, quando lá cheguei, à hora marcada, ela não estava. Sentei-me, pedi as bebidas que ela me tinha indicado e nada. Fiquei lá durante uma meia hora e, de repente, uma rapariga sentou-se e começou a beber do copo. Disse-lhe que aquilo não era para ela, que estava à espera de uma pessoa, mas ela respondeu: “Sou eu, sou a Lída”.

"Quando fui para a África do Sul, tive ainda mais medo, porque estava noutro continente, onde há pessoas a serem mortas a toda a hora, seja por motivos políticos ou financeiros. É um lugar muito perigoso e eu ia encontrar-me com pessoas muito perigosas."
Jan Stocklassa

E foi ela quem o ajudou a abordar o tal suspeito.
Sim, mas isso foi muito mais tarde. Primeiro ajudou-me fazendo-lhe perguntas através do Facebook e acedendo aos e-mails dele e depois, dois anos mais tarde, ajudou-me encontrando-se com ele e filmando tudo.

Voltando à saga Millennium, diria que Stieg Larsson é Mikael Blomqvist?
Sim, acho que ele escreveu sobre si próprio. E escreveu sobre as muitas falhas que tinha e também um pouco sobre a forma como gostaria de ser. É ele, definitivamente. A revista Millennium, por exemplo, é a revista Expo, é muito semelhante.

Stieg, Mikael e Lisbeth

Stieg Larsson morreu com apenas 50 anos, de ataque cardíaco, num dia em que o elevador estava avariado e foi obrigado a subir sete lanços de escadas. Nunca tirou proveito da fama que a trilogia que criou — e que vendeu 80 milhões de livros em todo o mundo — lhe trouxe: morreu a 9 de novembro de 2004, o primeiro tomo da saga Millennium foi publicado em 2005.

“Os homens que odeiam as mulheres”, “A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo” e “A rainha no palácio das correntes de ar” foram adaptados ao cinema, primeiro na Suécia e depois em Hollywood, com o agora 007 Daniel Craig no papel do jornalista/celebridade Mikael Blomqvist e Rooney Mara no da anti-heroína Lisbeth Salander.

O sucesso da trilogia policial foi tanto que, em 2015, foi editado um quarto livro, escrito por David Lagercrantz, jornalista e biógrafo de Zlatan Ibrahimović, e dois anos depois um quinto — “A rapariga que perseguia a sua sombra” e “O homem que perseguia a sua sombra”. A 22 de agosto de 2019, será finalmente publicada a conclusão da saga.

E que falhas eram essas? E como é que acha que ele gostaria de ser?
Ele era um jornalista de investigação obsessivo que, provavelmente, não tratava muito bem da sua vida privada — sobre a parte das infidelidades não sei, não tenho provas disso, e mesmo que tivesse não lhe contava. O Mikael Blomqvist é uma pessoa bastante normal — se comparado com Lisbeth Salander, por exemplo, é só um jornalista sueco normal.

Para fazer esta investigação, esteve em Praga, no Chipre, na África do Sul e, já nos disse, encontrou-se com espiões e assassinos. Teve medo?
A primeira vez que saí da minha zona de conforto foi quando fui sozinho para a República Turca do Chipre do Norte, onde não há acordos de extradição com nenhum país. É uma espécie de não-país e podia realmente ser perigoso. E eu sabia que o Bertil Wedin, de quem eu andava à procura, conhecia o chefe da polícia e o presidente, e estava, por isso, numa posição de muita força. Aí, tive medo. Usei um nome falso, tomei precauções para que ele não soubesse onde estava hospedado, fui muito cuidadoso. E, no fim, nada aconteceu, mas podia ter acontecido. Quando fui para África do Sul, tive ainda mais medo, porque estava noutro continente, onde há pessoas a serem mortas a toda a hora, seja por motivos políticos ou financeiros. É um lugar muito perigoso e eu ia encontrar-me com pessoas muito perigosas.

"Olof Palme não foi assassinado apenas por ser ativamente contra o apartheid. Havia uma ligação a grandes negócios de armas e petróleo que estavam a ser feitos na altura, e com o envolvimento da África do Sul naquilo que ficou conhecido como o Caso Irão-Contras."
Jan Stocklassa

Quem diria que foi a pessoa mais perigosa com quem teve contacto durante a pesquisa para este livro?
Acho que tenho de dizer o mesmo que o Bertil Wedin me disse quando lhe perguntei sobre o Craig Williamson: “Não posso dizer nada de mau, porque é provável que o Craig Williamson leia isto”. Ele admitiu vários assassinatos e acho que é bem provável que tenha cometido mais, é uma pessoa muito competente e perigosa.

Quem é Craig Williamson?
Ele foi considerado o maior espião do regime do apartheid na África do Sul, foi a pessoa que conseguiu infiltrar-se em movimentos anti-apartheid em Genebra, que mandou cartas-bomba para várias mulheres e que fez explodir os escritórios do ANC [Congresso Nacional Africano] em Londres. Basicamente, ele era o melhor espião deles e a pessoa que usavam para comandar as operações fora da África do Sul. Lá dentro muitos podiam fazê-lo, mas fora da África do Sul não tinham muitas pessoas capazes e ele era o número um deles.

E ele aceitou falar consigo?
Sim, acabou por aceitar, não gosta muito de jornalistas suecos porque muitos o têm acusado de ter assassinado o nosso primeiro-ministro, mas, no fim, aceitou. Não foi muito agradável, mas revelou-se uma pessoa muito inteligente — quando começa a falar somos arrastados para as suas descrições. Na reunião que tivemos não me disse grande coisa, mas, mais tarde, começou a falar mais, mandou-me e-mails e pistas para me dar a entender de que forma o homicídio tinha sido executado e onde eu podia procurar mais provas.

O que o levou a descobrir quem matou Olof Palme?
Bem… como ele foi morto. Levou-me a descobrir como ele foi morto e por que motivos. Não foi uma coisa simples. Olof Palme não foi assassinado apenas por ser ativamente contra o apartheid, havia uma ligação a grandes negócios de armas e petróleo que estavam a ser feitos na altura, e com o envolvimento da África do Sul naquilo que ficou conhecido como o Caso Irão-Contras e com o financiamento de vários movimentos de guerrilha na Nicarágua, Angola ou Afeganistão.

A 21 de dezembro de 1988 um Boeing 747 explodiu sobre a localidade escocesa de Lockerbie. 270 pessoas morreram, entre elas o diplomata sueco Bernt Carlsson, próximo de Olof Palme

E essas relações são todas reveladas no seu livro?
Explico como a África do Sul, apesar de ser tão diferente da Suécia e dos Estados Unidos e do Reino Unido, se envolveu nisto. Eram tempos excitantes na altura, a Guerra Fria estava a chegar ao fim, mas ainda ninguém sabia, portanto a luta estava ao rubro.

Para além disso, estabelece ainda ligações entre o assassinato de Olof Palme e outros casos da altura, como o atentado de Lockerbie e a morte de Samora Machel. De que forma é que tudo isto está ligado?
Uma das relações é feita através daquilo que o Craig Williamson me disse: “Fui acusado de tanta coisa, fui acusado de matar Olof Palme, de mandar abaixo o avião em Lockerbie e até de fazer cair o avião de Samora Machel, o presidente de Moçambique, mas nada disso é verdade”. Mas, ao mesmo tempo, parecia que ele estava a tentar contar-me alguma coisa com isto, como se estivesse a dizer-me o contrário, como se tivesse estado envolvido nestes casos.

Acredita, então, que todos estes casos estiveram relacionados?
Acredito que a África do Sul esteve envolvida nestes três casos. Mas o Craig Williamson não matou Olof Palme.

Quem o matou, então?
É uma acusação muito grave. Tudo o que posso dizer é que a polícia está neste momento a analisar várias das coisas que descrevo no livro e que estão finalmente na direção certa. Há apenas um mês, consegui convencer um grupo de jovens da altura, que agora têm 50 e tal anos, e que encontraram um walkie-talkie dois dias depois do homicídio, a entregá-lo à polícia. Tiveram-no durante 33 anos e, finalmente, deram-no à polícia.

Como é que encontrou essas pessoas?
Há dois ou três anos, um amigo disse-me que tinha ouvido esta história logo em 1988, dois anos depois do crime, e tentei encontrar os tipos, mas não consegui. Agora que o livro já tinha sido publicado, tentei outra vez e, depois de algumas investigações, encontrei-os e falei com dois deles. A história é muito consistente e eu acredito que foi assim que aconteceu: eles encontraram o walkie-talkie na zona por onde o assassino escapou, dois dias depois do crime, e eram novos e estavam interessados em tudo — rock e miúdas, calculo — menos em homicídios, portanto não o entregaram. Mas agora, finalmente, fizeram-no.

Nunca foi ameaçado, durante todo este processo?
Diretamente não, mas continuo a controlar aquilo que acontece entre Bertil Wedin e a pessoa a quem chamei Jakob Thedelin no livro. Ambos são muito agressivos, muito frequentemente, na forma como se referem a algumas pessoas, incluindo eu. Dizem que trabalho para o KGB, que já nem existe, e, nas entrelinhas, dá para perceber que gostariam de me fazer alguma coisa. Não creio que cheguem a isso, mas gostariam.

Tem cuidados especiais com a sua segurança? Aprendeu alguns com Stieg Larsson?
Tenho alguns. E sim, ele também tinha uma série de precauções, convenceu os colegas a instalarem visores nas portas, para poderem ver quem estava do outro lado, e ensinou-os a abrir cartas se suspeitassem que estavam armadilhadas.

Em Estocolmo há visitas guiadas aos locais da saga Millennium, a trilogia de Larsson que foi adaptada ao cinema na Suécia e nos Estados Unidos

Qual era o método dele?
Era o tempo em que ainda havia listas telefónicas. O que ele dizia era que se devia pôr a carta debaixo de uma [lista telefónica] e só depois abrir o envelope, pelo lado oposto ao que normalmente se abrem as cartas. Não é um método 100% seguro — não tentem isto em casa!

Continua em contacto com a polícia sueca e a trabalhar neste caso, apesar de o livro já estar publicado?
Sim, mas cada vez lhe dedico menos tempo, porque já estou a escrever o próximo, que é sobre um caso ainda maior.

Maior do que o homicídio do primeiro-ministro?
Sim, morreram 270 pessoas. Passa-se no mesmo período de tempo, mas não na Suécia. Um sueco próximo de Palme foi um dos mortos e é alguém que está algures neste livro.

Ainda existe uma recompensa por informações que resolvam o caso Palme?
Existe, são cinco milhões de euros.

Isso significa que vai ficar milionário?
Não, não me parece. Juntei muitas peças neste livro — aliás, a polícia pediu-mo antes de ser publicado e é uma das provas da investigação –, mas muitas das pistas já tinham sido encontradas por Stieg Larsson e por outras pessoas, nunca poderia reclamar essa recompensa para mim. A minha recompensa é ter o meu livro publicado em 27 línguas e 50 países.

Texto de Tânia Pereirinha, fotografia de Francisco Romão Pereira.

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