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A ameaça de Rio contra si mesmo /premium

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Rio mantém uma visão conflituosa e redutora da comunicação social. Se isso não mudar até 2019, os seus valores democráticos não terão o vigor recomendável a quem exerce o cargo de primeiro-ministro.

Existe uma regra de ouro que tem várias aplicações ao longo da vida: quando se faz asneira, aceita-se a responsabilidade em vez de inventar desculpas ou responsabilizar terceiros. Isto vale para o aluno cábula que chumba e se convence que chumbou só porque o professor não gosta dele. Vale para o jogador de futebol que não treina com afinco mas que crê não jogar no campeonato porque o treinador tem um problema pessoal com ele. E vale para Rui Rio, que a cada mal-entendido gerado no PSD responsabiliza a comunicação social. De tal modo que, há dois dias, Rio ameaçou que pondera um boicote aos jornais: “nós temos vindo a ponderar se é possível continuarmos a dar entrevistas a [jornais em] papel porque sistematicamente deturpam aquilo que é o texto e o que as pessoas dizem”.

A ameaça é gravíssima – sugere retaliação por os jornais prejudicarem sucessivamente o PSD (mas não os outros partidos, que disso não se queixaram). Só que, como vem de Rio, a acusação não surpreende. Se fosse a primeira vez que o líder social-democrata se queixava da comunicação social em termos tão severos, dar-se-ia o benefício da dúvida. Só que não é a primeira vez, nem a segunda ou a terceira. Efectivamente, quando uma notícia o visa, Rio é rápido a disparar sentenças contra uma comunicação social hostil à sua mensagem. Antes que passemos o ano pré-eleitoral a observar tiros-nos-pés, convém assinalar os dois erros que essa atitude representa.

Primeiro, o problema não está na comunicação social (que, óbvio, tem os seus defeitos). O problema é a incompetência de Rio e do PSD na comunicação para o exterior (isto é, incapacidade em adaptar-se ao contexto e em passar uma mensagem política com eficácia). Não é preciso ser-se como Sócrates, obcecado com a imagem e viciado em propaganda, sacrificando para isso o conteúdo das medidas políticas. Mas, se Rio quer diferenciar-se pela solidez e seriedade das suas propostas (um bom princípio), não se pode esquecer que as boas ideias só terão adesão se forem bem explicadas e devidamente difundidas – ou seja, se forem bem comunicadas. Sendo ele o líder da oposição ao governo, essa sua disponibilidade para comunicar é imprescindível para fins de representação política. Só que essa disponibilidade é tímida e gera sucessivos mal-entendidos. Este fim-de-semana houve mais um exemplo, mas os episódios amontoam-se. E por mais que critique os jornais, os factos mostram que, dentro e fora do PSD, Rio e as suas ideias parecem ser indecifráveis.

O segundo erro na atitude de Rio está em fazer bandeira política da guerra à comunicação social. É certo que não é de hoje que Rio identificou nos jornais uma espécie de oposição à sua pessoa (acusou disso mesmo o jornal Público, em 2005), chegando mesmo a afirmar que “a forma como a Comunicação Social exerce a sua função é um dos maiores problemas do regime. Soa-lhe familiar como crítica? É porque o é: temos ouvido diagnóstico similar por parte de vários populismos europeus e esta declaração em concreto está assustadoramente próxima de um tweet de Donald Trump. A coincidência não pressupõe adesões ideológicas, mas impõe a pergunta: que cidadão responsável ambicionará colocar em São Bento um indivíduo que, se pudesse, estrangularia a liberdade com que os órgãos de comunicação trabalham? O ponto é este: Rio, enquanto líder da oposição e candidato a primeiro-ministro, tem de manter uma relação saudável com os pilares do regime democrático. E tem sido sucessivamente incapaz de o fazer.

A relação entre política e comunicação social estreitou-se nos últimos anos: a internet móvel acelerou ainda mais a comunicação, os timings das reacções políticas encurtaram, o escrutínio é mais exigente e plural, as redes sociais interferem na percepção da realidade e a popularidade depende de crescente exposição mediática. Ora, quando se avalia a liderança de Rio no PSD, um debate possível (e conjuntural) poderia ser se este se adaptaria aos novos tempos – e está claro que até agora não se quis adaptar. Mas o seu mau relacionamento com a comunicação social e o recente anúncio de um eventual boicote aos jornais tornaram a questão estrutural e servem de alerta: Rio mantém uma visão conflituosa e redutora do escrutínio imposto pela comunicação social à política. Se isso não mudar até 2019, os seus valores democráticos não terão o vigor recomendável a quem exerce o cargo de primeiro-ministro.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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