Crónica

A Caça aos Combustíveis e o Camelinho da Páscoa /premium

Autor
284

Se a geringonça fosse um animal seria um camelo. O grosso do quadrúpede era o PS, e o PCP e o Bloco de Esquerda eram as bossas, coladas ao lombo socialista meio às três pancadas.

Passado o período da Páscoa, é altura para um balanço das novidades que o governo de António Costa introduziu este ano em termos de tradições pascais. A primeira novidade foi a substituição do já estafado jogo da Caça aos Ovos pelo jogo da Caça aos Combustíveis: consiste em percorrer o país à procura do posto de abastecimento que ainda tem gasóleo suficiente para, na melhor das hipóteses, conseguir voltar ao sítio de onde se partiu. Diversão bastante superior à original, porque envolve os pais numa brincadeira que tradicionalmente é só para os miúdos. Miúdos que desta forma, em vez de andarem desenfreadamente de um lado para o outro correndo o risco de caírem, magoarem-se e ainda apanharem por cima, vão também no automóvel a indagar, com a relaxante cadência de um pisca, “Já chegámos?”

A outra novidade levada a cabo por este governo foi a substituição do ancião Coelhinho da Páscoa pelo novel Camelinho da Páscoa. Se o obsoleto coelho era o símbolo da fertilidade e da esperança na vida, o moderno camelo é o símbolo da autonomia que permite percorrer grandes distância sem reabastecer e da capacidade de circular com o depósito na reserva. Talvez ligeiramente menos poético, o camelo, mas sem dúvida mais útil para dias de greve dos motoristas de matérias perigosas. Além de ter as duas bossas, que são muito engraçadas na medida em que parecem uma espécie de acrescento feito à pressa no bicho. Aliás, se a geringonça fosse um animal seria um camelo. O grosso do quadrúpede era o PS, e o PCP e o Bloco de Esquerda eram as bossas, coladas ao lombo socialista meio às três pancadas.

Entretanto, amanhã comemora-se o 25 de Abril. Tempo para celebrar mais uma grande conquista da democracia portuguesa: a proposta para legalizar os convites para viagens feitos por entidades privadas a titulares de cargos públicos, elaborada pela Comissão Eventual para o Reforço da Transparência. A partir de agora é tudo à balda em termos de ofertas de empresas privadas aos políticos. Tanto é que depois da paralisação dos motoristas de matérias perigosas, os próximos a avançar para a greve vão ser os testas-de-ferro: não tarda deixa de haver trabalho para estes clássicos intermediários de negociatas obscuras. A ideia que dá é que esta nova lei é uma espécie de Simplex para a aldrabice. É um Trafulhex. Ou um Moscambilhex, vá.

Já para não falar do azar na escolha do nome para a dita Comissão: ”Comissão Eventual para o Reforço da Transparência” é mesmo a única ordem pela qual estas palavras não fazem sentido. A Comissão podia chamar-se “Eventual Comissão para o Reforço da Transparência”, ou “Comissão para o Eventual Reforço da Transparência”, ou mesmo “Comissão para o Reforço Eventual da Transparência” ou, no limite, “Comissão para o Reforço da Transparência Eventual”. O “Eventual” podia estar em qualquer sítio menos onde o puseram! Mas claro que os deputados não estão nada preocupados em saber onde está o “Eventual”. E muito menos lhes interessa que empresa privada lhe pagou a viagem, obviamente.

Mas atenção. Uma consulta mais atenta a esta proposta revela grande visão dos nossos parlamentares. Hoje em dia quando uma empresa paga a um político está a fazer lobby. À medida que o Estado toma conta de uma parte cada vez maior da economia o lobbying aumenta porque as empresas ficam mais dependentes do Estado para fazer negócios. Com as empresas mais dependentes do Estado para fazer negócios só as que têm capacidade financeira para fazer lobby sobrevivem. Resta pois um Estado gigante e meia dúzia de empresas que fazem lobby. Ao fim de algum tempo as relações entre o Estado e estas empresas são tão intrincadas que já só se vive de lobbying. Na prática, deixa de haver lobbying. É só tudo o Estado. Calhando está-se a legislar com este cenário em perspectiva.

Ao que parece, esta proposta de lei vai contar com a abstenção do PSD e com o voto favorável do PS e PCP. O que no caso do PCP é bastante compreensível. O partido tem mesmo de aceitar todas as viagens que lhe forem oferecidas. Caso os comunistas tivessem de pagar do próprio bolso cada vez que revisitam a União Soviética estalinista não conseguiam financiar o partido nem com uma Festa do Avante bi-diária. É que parecendo que não estas viagens dos comunistas ao reino da utopia acabam por sair bem caras. E ironicamente quem paga o preço mais alto é quem não embarca nelas.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Caixa Geral de Depósitos

Rebentou a Berarda! /premium

Tiago Dores
409

Mais do que a receber Comendas, Joe Berardo é fortíssimo a receber encomendas. Basta lembrar como o governo de José Sócrates lhe encomendou que votasse ao lado do Estado na OPA da Sonae à PT.

Crónica

Portugal, um país à prova de fake news /premium

José Diogo Quintela
206

Porra Vasily! Então, mas o que é que andas a fazer, pá? Portugal não necessita dos nossos trolls, nem das nossas fake news. Os partidos tradicionais encarregam-se de escangalhar a imagem da democracia

Televisão

Os novos gladiadores /premium

Laurinda Alves

Tal como na Roma antiga se juntavam multidões para incitar ver morrer gladiadores, também os espetadores do Jeremy Kyle Show gostavam de ter sangue todas as manhãs e de ver inocentes lançados às feras

Crónica

Ao ministro Cabrita, os carecas agradecidos

Luiz Cabral de Moncada

O que é que se pretende? Um homem novo escorreito, bonito, higiénico e saudável promovido por uma ideologia baseada na boa aparência e no uso da escova de dentes?

Caixa Geral de Depósitos

Rebentou a Berarda! /premium

Tiago Dores
409

Mais do que a receber Comendas, Joe Berardo é fortíssimo a receber encomendas. Basta lembrar como o governo de José Sócrates lhe encomendou que votasse ao lado do Estado na OPA da Sonae à PT.

Crónica

Serei eu um monstro?

Inês Pina

Cultivamos uma dissonância cognitiva. Se algo acontece e se sentimos que podíamos fazer algo, rapidamente sentimos que há alguém que podia/devia fazer mais do que nós. O que é isto?

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)