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Lembro-me de, por volta dos meus longínquos dezasseis anos, ter lido uma entrevista de Raymond Aron (ao Nouvel Observateur, creio) em que ele dizia uma coisa que sempre me ficou na cabeça: em política não se escolhem os amigos, escolhem-se os inimigos. E ficou-me na cabeça porque, ao longo dos tempos, só encontrei razões para a confirmar. Apenas acrescentaria ao que Aron diz que o critério para definir o inimigo político deve ser mínimo, isto é, deve poder estabelecer-se a partir de um número restrito de princípios simples. Caso contrário, vemos inimigos em todo o lado, o que pode divertir um ou outro espírito, mas rouba tempo para pensarmos noutras coisas.

Como há muitas coisas em que me dá mais prazer pensar do que em política, o meu critério é efectivamente mínimo: é, a par da interdição da violência, o do respeito pela democracia representativa. Depois vêm outras coisas, sem dúvida, mas este critério – de uma profunda banalidade, eu sei – é fundamental. E já dá pano para mangas. À pala dele, já me chateei mais do que devia não só com pessoas com quem me era indiferente chatear-me ou não, como também com pessoas com as quais enfaticamente não me queria chatear. Mas que fazer? A vida é feita de fatias que se sucedem umas às outras, cada uma delas representando um mundo que pode ter mais ou menos afinidade com o que se lhe segue. A continuidade que imaginamos é quase por inteiro ideal, a alucinação de uma série de contiguidades. O nosso espírito pode não ser, ao contrário do que pensava Hume, um feixe de percepções, mas a nossa vida é certamente um feixe de mundos. Se me é permitido um conselho, sugeriria que guardássemos em cada mundo, sob a forma da memória, os mundos anteriores, sem pretender que eles são o mesmo mundo do presente. Não são. Mas estou a derivar.

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