Lembro-me de, por volta dos meus longínquos dezasseis anos, ter lido uma entrevista de Raymond Aron (ao Nouvel Observateur, creio) em que ele dizia uma coisa que sempre me ficou na cabeça: em política não se escolhem os amigos, escolhem-se os inimigos. E ficou-me na cabeça porque, ao longo dos tempos, só encontrei razões para a confirmar. Apenas acrescentaria ao que Aron diz que o critério para definir o inimigo político deve ser mínimo, isto é, deve poder estabelecer-se a partir de um número restrito de princípios simples. Caso contrário, vemos inimigos em todo o lado, o que pode divertir um ou outro espírito, mas rouba tempo para pensarmos noutras coisas.

Como há muitas coisas em que me dá mais prazer pensar do que em política, o meu critério é efectivamente mínimo: é, a par da interdição da violência, o do respeito pela democracia representativa. Depois vêm outras coisas, sem dúvida, mas este critério – de uma profunda banalidade, eu sei – é fundamental. E já dá pano para mangas. À pala dele, já me chateei mais do que devia não só com pessoas com quem me era indiferente chatear-me ou não, como também com pessoas com as quais enfaticamente não me queria chatear. Mas que fazer? A vida é feita de fatias que se sucedem umas às outras, cada uma delas representando um mundo que pode ter mais ou menos afinidade com o que se lhe segue. A continuidade que imaginamos é quase por inteiro ideal, a alucinação de uma série de contiguidades. O nosso espírito pode não ser, ao contrário do que pensava Hume, um feixe de percepções, mas a nossa vida é certamente um feixe de mundos. Se me é permitido um conselho, sugeriria que guardássemos em cada mundo, sob a forma da memória, os mundos anteriores, sem pretender que eles são o mesmo mundo do presente. Não são. Mas estou a derivar.

Vamos à cobardia do exemplo, como dizia o outro. A imediata reacção à eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos foi, em muita gente, não apenas de desagrado, o que é, sob vários pontos de vista, compreensível, mas de furiosa recusa, como se ela se encontrasse infectada por uma ilegitimidade irredimível. A democracia que fosse às urtigas: mesmo eleito democraticamente, ele não podia, pura e simplesmente, ser presidente. Não é necessário fazer a longa história dessa reacção, basta repetir que ela começou no próprio dia da sua eleição (o que se passou antes foi diferente, já que ninguém acreditava que ele fosse eleito). Mas convém notar que a reacção não se deu apenas no centro do imaginário Império, mas também nos mais ignotos lugares da periferia. Em Portugal, por exemplo, o que não faltou desde o princípio até hoje foram clamores de indignação. Às tantas, tal é a repetição, uma pessoa habitua-se. Habitua-se à exibição tresloucada de sentimentos anti-democráticos e até já não passa sem os inimigos. Eu, por exemplo, não perco uma só aparição televisiva do correspondente da SIC em Washington, Luís Costa Ribas, e por pouco não o proponho para candidato a Património Imaterial da Humanidade. À sua maneira, ele merece. (Já agora: para onde é que se mandam essas propostas?)

É claro que o critério mínimo é, em si mesmo, pouca coisa no conjunto das questões filosóficas que a política coloca. Mas a maior parte destas, graças a Deus, não se situam no plano em que Aron colocou a decisão política na frase que citei no início. Dito de outra maneira: não nos obrigam a escolher inimigos. Tomemos o exemplo de uma questão que Aristóteles colocou, como em muitos outros casos, de forma definitiva, pelo rigor e clareza da sua formulação: qual é o bem político, o bem supremo, aquele que é inteiramente autárquico, isto é, que se basta a si mesmo? Aristóteles responde que é a felicidade, a eudaimonia. Pessoalmente, creio que a resposta aristotélica é óptima, sobretudo se tivermos em conta tudo o que ele diz sobre a natureza da felicidade e do prazer. Mas a questão foi discutida ao longo dos séculos e nunca faltaram propostas alternativas, como, por exemplo, a de Hobbes, que punha em primeiro lugar a segurança. Ou (outro exemplo aristotélico): o que é a justiça, qual o valor da justiça distributiva e qual a diferença entre justiça e equidade? Nenhuma destas questões exige uma linha de demarcação nítida, elas fazem parte da conversa da humanidade, como lhe chamou Michael Oakeshott, só ganham sentido através dessa conversa.

É claro que o critério mínimo – qualquer critério mínimo – varia com os tempos, as culturas e as civilizações. Não parece que a democracia representativa tivesse muito valor para os astecas e que imperasse em Tenochtitlán. Mas, deixando de lado a vexata quaestio do progresso e os consabidos problemas colocados pelo relativismo, a verdade é que ela é, pelo menos nominalmente, muito bem vista hoje em dia, e eu serei o último a afastar-me dessa benévola crença dos meus contemporâneos. Ao ponto de, como disse, julgar que o inimigo político é aquele que a nega, por método ou quando lhe convém.

E, porque tem tudo a ver com isto, uma palavra sobre André Ventura. A acreditar no que se ouve, ele representa o grande perigo da “extrema-direita” e de um hipotético fascismo a vir. Confesso que, vendo-o na televisão, me parece uma pessoa simpática e bem-educada. Populista? Sim, certamente. Mas “populismo” é, como praticamente todas as noções do vocabulário político, uma noção equívoca. Além de que há populismos para todos os gostos, vários deles muito bem representados na Assembleia da República. Posso concordar ou discordar daquilo que diz, mas não vejo ali nenhuma “extrema-direita”, de tendência fascista ou outra. As analogias históricas puxadas pelos cabelos conduzem regularmente à alucinação. Em contrapartida, vejo com toda a evidência a muito selectiva indignação do Presidente da Assembleia da República por causa da “vergonha” como uma indisfarçada manifestação de vontade de silenciar um cidadão democraticamente eleito que representa os eleitores que nele votaram. Porque é que o Dr. Ferro Rodrigues quer ser inimigo de muitos portugueses?