Abusos na Igreja

A esmagadora maioria são os outros padres /premium

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Em Portugal, que percorro recorrentemente de norte a sul por causas e coisas ligadas a movimentos cívicos, encontro muitos padres de província que são tão bons ou melhores que os das grandes cidades.

Dizem que ser médico é um sacerdócio tão exigente como ser padre. Concordo. Conheço muitos médicos que não descansam enquanto não conseguem salvar os seus doentes, mesmo quando sabem que não os podem curar. Não desistem deles nem os deixam desanimar. Permanecem atentos e disponíveis para os ouvir e validar os seus sintomas. São fiéis aos valores que professaram quando fizeram o Juramento de Hipócrates e declararam, em primeiro lugar, que toda a sua ação médica será para o benefício dos doentes, evitando todo o mal voluntário e corrupção. Sobre o que vêem e sabem, também juraram guardar “silêncio como um segredo religioso”. Tentar curar e não provocar danos nos doentes é, em resumo, a essência do prático.

Um sacerdote que fez votos perante Deus e perante a Igreja, promete o mesmo que um médico. Enquanto um tenta curar o corpo, o outro tenta curar o espírito, mas ambos percorrem caminhos paralelos que, em alturas de maior fragilidade, se chegam a cruzar. Um padre que acompanha no sofrimento, que reconhece as dores do outro, que salva do sem-sentido de tantas desistências provocadas por dramas, perdas, crises, ruturas e acontecimentos trágicos, que faz ‘banco’ na urgência de poder devolver a paz interior e o sentido de vida a quem se sente desistente, também pode ser considerado um ‘médico’ da alma.

A grande diferença entre um e outro é a transcendência. O padre não é um clínico, como é evidente. Enquanto no médico se vê a ação de um homem sobre outro homem, no padre existe a possibilidade do encontro com Deus. E da cura espiritual, que permite aos homens elevarem-se acima das suas circunstâncias e divinizarem-se, humanizando-se. O paradoxo é grande, mas é real. O médico pode curar ou não as doenças. O padre não tenta sequer curar doentes, mas cuida de restaurar neles a esperança, de lhes transmitir fé e confiança num Deus que, ele sim, pode reforçar a fortaleza interior e dar as forças para avançar, mesmo quando o caminho implica atravessar doenças muito graves ou perdas irreparáveis.

Quem já se sentiu doente e vulnerável do ponto de vista da saúde física conhece, por experiência, o poder terapêutico de um bom médico. Quem já esteve como que caído, perdido ou desistente, quem já passou por dores morais e emocionais provocadas por crises devastadoras ou acidentes inesperados, sabe o poder resgatador e curativo de um bom padre. E é por saber tudo isto e também por estar consciente de que a maioria dos padres da Igreja católica dá verdadeiro testemunho de Deus, que escrevo sobre os outros padres.

Penso nos bons padres que existem em todo o mundo e de quem não se fala por só haver espaço nos media para os tarados e os abusadores. Mesmo sendo estes uma ínfima minoria na Igreja, são estes que deixam marcas devastadoras e indeléveis no tempo. Sobretudo nas suas vítimas. Por causa destes levanta-se uma suspeita geral sobre todos os outros. Hoje em dia qualquer sacerdote que seja visto a abraçar, a acolher no seu gabinete ou a caminhar sozinho ao lado de um jovem, rapaz ou rapariga, pode ser considerado suspeito pela comunidade.

Detesto generalizações e escrevo contra toda esta onda de suspeição sobre os padres porque conheço centenas deles e com cada um aprendo alguma coisa. Todos me acrescentam paisagem interior, todos me ajudam a expandir o coração e os horizontes, todos me ajudam a perceber o que me faz mais humana, todos me mostram como posso ir mais longe e chegar mais alto, deixando ao meu critério ir por esses caminhos ou por outros. Conheço alguns destes bons padres por os ouvir em homilias, conheço outros porque os leio e, outros ainda, por ter com eles conversas verdadeiramente iluminantes e transformadoras.

Ao longo da vida entrevistei vários padres portugueses e estrangeiros e todos se revelaram seres humanos incríveis, capazes de dar a sua vida pelos outros. Estou a pensar nos missionários em África, mas não só. Também penso nos que atuam em zonas de guerra e conflito no Oriente e no Ocidente, nos que arriscam pisar campos minados para conseguir alimentos e medicamentos. Nos que são perseguidos e violentados por crerem e falarem de Deus em latitudes onde Deus é uma palavra proibida, impronunciável.

Sou jornalista e sou professora e detestava que só os maus jornalistas ou os maus professores fossem motivo de notícia, a tal ponto que se começasse a generalizar perversamente e, de repente, só se falasse de maus profissionais entre nós. Hoje em dia é fácil ouvir conversas sobre ‘os padres’ e raramente são conversas construtivas. De notícia em notícia, os padres vão ficando rotulados e correm o risco de serem todos enfiados no mesmo saco. É pena e é uma grande injustiça porque, insisto, a esmagadora maioria dos sacerdotes são pessoas altamente resgatadoras e escrupulosamente cumpridoras da sua missão.

Todos os dias há notícias sobre abusos sexuais em todo o mundo, cometidos por todo o tipo de gente, mas é claro que nenhum abusador é tão chamativo como um padre. Percebo, porque realmente nenhum abusador é tão malvado como aquele que é suposto existir apenas para proteger, ajudar, dar bons conselhos e bons exemplos. Por isso mesmo, defendo que todo e qualquer abuso por parte de um padre deve ser noticiado e imediatamente denunciado! Não me passa pela cabeça que seja encoberto pela hierarquia da Igreja e assumo a minha convicção de que deve ser entregue às autoridades eclesiais e civis, para ser julgado e devidamente punido como qualquer outro ser humano.

Por tudo isto é óbvio que não escrevo para defender os padres abusadores, que abomino com todas as minhas forças. Escrevo para falar dos outros. Dos que usam a sua influência, a sua sabedoria, a sua capacidade de oração e a palavra de Deus para salvar do sofrimento e do sem-sentido. Tenho 57 anos, sou crente e estou envolvida em organizações de Igreja e grupos de oração há décadas. Pertenci aos Escuteiros até ser adolescente e, depois, integrei os chamados grupos de jovens. Dos vinte aos trinta anos estive mais afastada da Igreja, mas nunca de Deus. Voltei pela mão de padres jesuítas que perceberam a minha dificuldade em lidar com uma Igreja distante do concreto da vida dos seus fiéis. Identifiquei-me e fiquei até hoje.

Conheço, como disse, centenas de padres em todo o país, mas também muitos estrangeiros que conheci pelo mundo fora, em viagens e reportagens que fiz. Em Portugal, país que percorro recorrentemente de norte a sul por causas e coisas ligadas a movimentos cívicos, encontro muitos padres de província que são tão bons ou melhores que os das grandes cidades. Escrevo esta crónica no Douro, em tempo de Quaresma, num lugar onde as celebrações se multiplicam e requerem a presença constante, ainda mais próxima e disponível dos sacerdotes. Vou à Missa em Almacave, freguesia de Lamego, onde nestes últimos anos fiquei a conhecer diferentes padres, dois deles excecionais. Nesta semana tem celebrado o mais novo dos dois de que falo e as suas palavras fazem eco pelo bom senso e sabedoria, mas também pelos caminhos que aponta.

A Igreja românica de Almacave (que remonta às origens da nacionalidade) enche-se de homens e mulheres mais velhos, mas também de rapazes e raparigas muito novos, que tocam e cantam com uma alegria contagiante. Impressiona ver esta comunhão e tanta energia nesta povoação duriense, mas a capacidade de mobilização dos padres é que é verdadeiramente tocante.

O mais novo, que ouvi agora mais vezes, é muito eloquente e sabe ler os sinais dos tempos. Fala com todas as gerações usando palavras simples que reforçam a confiança e devolvem a esperança a quem porventura a perdeu. Explica e enquadra as leituras, dando-lhe contornos ajustados ao quotidiano dos paroquianos da sua paróquia. Ajuda os crentes a separar o essencial do que é acessório e a transpor para a sua vida os fundamentos do cristianismo. Não se perde em abstrações nem exortações apostólicas indecifráveis. Muito pelo contrário, integra a realidade real, fala de perdão e misericórdia e dá o exemplo. Abraça todos os que se deixam abraçar. No sentido literal e metafórico. Sem medo de ser confundido, felizmente, pois sabe que pertence à esmagadora maioria dos outros padres, os que revelam a verdadeira Igreja e o verdadeiro Deus.

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