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As relações entre russos e europeus foram sempre complicadas. A Rússia não é um país confiável, sendo fácil perceber o porquê. A Alemanha invadiu duas vezes a Rússia no Séc. XX, a França invadiu uma vez no Séc. XIX e antes disso, a Suécia no Séc. XVIII. Essas não foram simples incursões, tinham sim o principal objetivo de capturar o heartland da Rússia permanentemente. A Rússia representa portanto um animal assustado, atormentado pela má memória geopolítica, o que a torna perigosa.

Para compreender a Rússia atual deveremos analisar o mundo pela perspetiva do seu presidente Vladimir Putin. Para Putin o colapso da União Soviética foi uma catástrofe e um erro histórico (não o colapso do comunismo, que é irrelevante para Putin, mas sim a desfragmentação da União Soviética). A construção original do espaço da União Soviética pouco teve a ver com o comunismo, era sim uma ideia arquitetada pelos Czars, um espaço vital que protegia o Império Russo de invasores externos. É preciso compreender primeiro a geografia existente entre Moscovo e Berlim para depois compreendermos os receios dos russos. São as enormes planícies nessas regiões que facilitam a movimentação de exércitos que podem ameaçar a existência da Rússia. Esta geografia facilitadora é a razão para as continuas invasões de exércitos europeus para dentro do heartland russo.

O colapso da União Soviética fez com que a região tampão entre a Europa e Moscovo deixasse de existir. Bielorrússia, Ucrânia e Moldova (e outros proxys) tornaram-se independentes, e a fronteira russa recuou dramaticamente. Havia pouco a fazer, a Rússia implodiu fruto do seu modelo económico insustentável e do continuo gasto de recursos numa guerra que não poderia ser vencida, contra uma superpotência industrial, como era os EUA. No entanto, a Rússia poderia viver com essa perda, caso os europeus e americanos não controlassem essa região. A existência de uma buffer zone poderia assim surgir, com os governos desses países a pender para a Rússia, ou então pelo menos, a constituição de governos neutrais. O que não poderia acontecer foi realmente o que aconteceu, muitos dos antigos satélites soviéticos acabaram por se alinhar com o bloco ocidental, entrando na NATO ou na União Europeia (ou nos 2 em simultâneo). Os bálticos Estónia, Letónia e Lituânia são hoje membros da UE e NATO, tal como Polónia, Eslováquia, Eslovénia, República Checa, Hungria, Roménia e Bulgária, todos países que gravitavam na anterior esfera soviética, atrás da chamada Cortina de Ferro.

Após a queda do muro de Berlim, ao longo de 20 anos, a fronteira contraiu milhares de km a caminho de Moscovo. A Ucrânia passou assim a ter um interesse vital para os interesses geopolíticos russos, o que nos levou à revolução ucraniana de 2014 e a consequente anexação da Crimeia. Putin sabe da importância do espaço vital que o separa do bloco ocidental, e nunca poderia permitir que a Ucrânia entrasse na UE. É mais que possível que a anexação de grande parte do país esteja nos planos de Putin, pelas movimentações militares que observamos nos últimos meses, principalmente em Donbas. Nos media russos ouvimos constantemente referências à “reintegração” da Ucrânia, aliás como foi diretamente mencionado num artigo oficial de Vladimir Putin em julho passado. A Rússia está a ser incentivada a manobras cada vez mais extremas devido a uma série de acontecimentos internacionais, que podem dar uma imagem de um ocidente fraco. Falamos da retirada caótica do Afeganistão por exemplo. Algo que os países ocidentais devem entender é que única linguagem que os russos entendem é a da força, não a das palavras, ou de qualquer soft power. Prova disso foi a retirada imediata de exércitos russos em “exercícios” na fronteira da Ucrânia no passado Abril, logo que foram lançados na região esquadrões de caças da Força Aérea Americana, com capacidade nuclear. Esquadrões esses que estavam estacionados na Polónia.

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Neste momento, para além da Ucrânia existem 2 regiões vitais para a Rússia, que representam as ultimas chances para conseguir com que a história volte ao que era antes. Falamos de uma região especifica na Moldova chamada Transnistria, que tem uma maioria demográfica russa, e falamos também da Bielorrússia. Na primeira, os russos há muito que pressionam uma possível anexação, sendo impulsionados por uma maioria russa na região, que já teve referendos sobre essa questão (com a esmagadora maioria a querer entrar na Federação Russa). No que toca a Bielorrússia, Putin estará incondicionalmente com o ditador bielorrusso Lukashenko, o que é facilmente observável, tendo em conta as ações cada vez mais afirmativas e confrontacionais da Bielorrússia em relação à UE e aos americanos (exemplo do voo desviado da Ryanair). A Bielorrússia é um país pobre, que não poderia se dar ao luxo de tais confrontações caso não tivesse um acordo em absoluto com Putin.

Mas foi a intenção da Ucrânia entrar na UE que foi a gota de água relativamente ao confronto da Rússia com o ocidente. Os russos acreditam que o ocidente quebrou um acordo implícito na região, o de neutralidade de uma buffer zone. Outros aspectos pioraram ainda mais a relação, como o facto da economia russa ter entrado em forte detioração na segunda década do Séc.XXI. Essa situação fez com que Putin tivesse de encontrar alternativas para continuar no poder. O retorno de uma grande Rússia e confrontos internacionais para entreter os russos parecia algo que poderia resultar. Adicionalmente, a falta de portos de águas quentes também fez com que Putin olhasse novamente para os antigos territórios soviéticos a sul, como é o exemplo da Crimeia e o seu Porto de Sebastopol.

Vladimir Putin não tem outra hipótese se não continuar a pressionar para o ocidente, porque foi isso que a maioria dos lideres Czars fizeram no passado. A nível da sua vida privada, Putin também sabe que tem de o continuar a fazer, pois a hipótese de sair tranquilamente do poder para uma reforma é completamente impossível.

Assim, a grande questão que se impõe é, o que é que a Europa e os EUA irão fazer quanto a isso? A relação entre UE e EUA será central na contenção da Rússia. Mais que isso, a própria caracterização do que é a Europa ou a UE será muito importante. Como sabemos, a UE não tem política externa comum sem ser para assuntos de comércio. Uma resposta à Rússia enquanto Europa separada irá beneficiar muito os russos, porque irá impedir uma atuação concreta dos EUA e da NATO relativamente a problemas perpetuados pela Rússia, que irão seguramente continuar a surgir. A NATO é um organismo que funciona com unanimidade, e os EUA não irão atuar sem coordenação concreta dos europeus. Outra desvantagem é o facto da UE ser adversa a questões de segurança que prejudiquem a economia. Essa é a razão pelo facto da UE ter ficado “chateada” pelo incidente da Ryanair na Bielorrússia ou com a situação na Crimeia, mas não o suficiente para entrar num confronto direto com a Rússia, tanto militarmente, como economicamente (não esquecendo que muitos países europeus, inclusive a Alemanha, dependem do gás russo). A fragmentação e os diferentes interesses dentro da própria UE impossibilitam a atuação da NATO, e sem esses interesses alinhados, os EUA apenas irão atuar separadamente, país a país. Tal atuação será mais demorada, menos assertiva, apenas incentivando ainda mais os russos, cada vez mais convencidos da tal fraqueza ocidental.