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A visão “tudo faz sentido” da realidade /premium

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Ao ver os noticiários televisivos, com a sua infalível superioridade moral, já não ligo muito ao que sai da boca dos adeptos da visão “tudo faz sentido” da realidade.

Tenho um problema que partilho certamente com um vasto número de pessoas: embirro solenemente com a visão do mundo transmitida pelo grosso da comunicação social, da qual a SIC Notícias, que é o canal português que mais vejo, é o melhor exemplo, embora difira dos outros apenas pela sua maior consistência e regularidade. Chamemos-lhe a visão “tudo faz sentido” da realidade.

O que nos diz tal visão, quais os seus principais conteúdos? Que o mundo vive mergulhado em perigos todos eles ligados entre si por afinidades decifráveis, por semelhanças internas que o jornalismo tem por missão essencial, senão única, realçar. O jornalismo deve, de acordo com a escola de pensamento dominante, mostrar que há um sentido indisputável que organiza a totalidade dos acontecimentos do mundo e lhes fornece uma inteligibilidade única e exclusiva.

Assim, por exemplo, vivemos numa “emergência climática”que é o fruto da ganância intrínseca ao “neoliberalismo”. O neoliberalismo promove um pouco por todo o lado, para a satisfação dos seus perversos e nada equívocos desígnios, a extrema-direita e o populismo. Este, por sua vez, manifesta-se através do “discurso de ódio” em todas as suas mais conhecidas expressões: a xenofobia, o racismo, a “islamofobia”, o “fascismo”, e por aí adiante. Dirigentes mundiais vocalizam estes impuros desejos de morte individual e planetária com indisfarçável gozo e encontram submissos aliados nos mais recônditos lugares do planeta que juraram destruir. Exemplos? Trump, é claro, na sua ridícula ignorância, ou Bolsonaro, na sua veemente apetência pela destruição. A Europa é um lugar de eleição para este drama. Da Itália à Polónia, passando pela Hungria, as forças centrífugas do mal, em perfeita harmonia, conspiram para a execução do sinistro plano. E Boris Johnson, na sua obsessão com o Brexit, é o último rosto deste movimento geral que obedece a uma necessidade da qual os seus principais protagonistas se encontram impecavelmente conscientes, por maiores que sejam as suas incapacidades cognitivas. Tudo faz sentido.

Ora, isto é muito curioso. Não porque nenhum dos fenómenos atrás mencionados seja uma pura invenção. Nem um só de entre eles, de facto, é susceptível de escapar a uma análise crítica: há problemas reais que, em graus muito variáveis, eles designam. O que esta visão do mundo tem de falso e opressivo, de artificial e enganador, é apresentá-los como um magma entendido como uma totalidade indivisa. Por isso, o jornalismo salta de um para outro como se estivesse sempre a falar do mesmo. Entre o “discurso de ódio” e a “emergência climática”, praticamente não há diferença alguma. Ambos são a expressão do mesmo, categoria central desta maneira de pensar. Não há causas ou razões específicas a cada coisa, que uma análise cuidada deva procurar compreender e explicitar. Há a alucinação de uma totalidade que faz um sentido absoluto e que se deve tomar como um objecto único no qual investimos negativamente todos os mossos afectos.

Isto faz a vez de pensamento, quando na verdade é a maneira mais eficaz de não pensar. É uma maneira de acreditar, sem dúvida, é mesmo um exemplo maior da nossa necessidade de acreditar a todo o custo, para além de qualquer hesitação ou dúvida, seguindo o exemplo fundador da crença religiosa. Mas como pensamento nada vale. Pensar não é confessar uma fé salvífica que nos garanta a chave mágica para a compreensão da totalidade e para um entendimento definitivo do bem e do mal. É antes, desculpe-se a banalidade, procurar determinar, com a ajuda das nossas limitadas luzes, alguma pouca coisa neste mundo irredutivelmente complexo e contraditório. Pensar é ligar, sim. Mas ligar de um modo que preserve a autonomia e a contingência daquilo que observamos.

Pessoalmente, nunca fui particularmente dado a irritações excessivas, e a danada da idade, com todos os problemas que costuma trazer consigo, atenuou razoavelmente as poucas de que ainda era vítima. Por isso, confesso que ao ver os noticiários televisivos, com a sua infalível superioridade moral, que é, na verdade, reveladora de uma confrangedora inferioridade cultural, já não ligo muito ao que sai da boca dos adeptos da visão “tudo faz sentido” da realidade. Em contrapartida, ouço tudo aquilo como a expressão possível, nos dias que correm, de uma visão primitiva e mítica do nosso mundo. Uma visão em que tudo se encontra intimamente ligado, de forma a que um mundo que é essencialmente fragmentado e atravessado por uma pluralidade de sentidos contraditórios apareça como expressão de um sentido único capaz de ser percebido por uma criancinha de cinco anos. E, nos meus melhores momentos, rio-me. Embirro solenemente, mas rio-me. Há algo de melhor para fazer? Apesar de tudo, o riso é também ele uma maneira, uma maneira indirecta, de fazer sentido, embora nos antípodas do fanatismo ambiente.

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