Qualquer editora e livraria que se preze tem no catálogo livros destinados a resolverem todos os problemas conhecidos pela humanidade. É um bibliotecário tímido? Dale Carnegie ensina como fazer amigos e influenciar pessoas. Tem dificuldade em encontrar o amor (verdadeiro ou temporário) nesta sociedade voraz e cínica? Livros explicam que proferir dois mantras a cada manhã resulta num príncipe encantado cinco meses depois. Pescado o dito príncipe, ou princesa, descobre que felizes para sempre é treta da Disney? Compre o famoso Os Homens São de Marte, As Mulheres São de Vénus para entender os comportamentos da sua cara-metade interplanetária. Quer ficar rico especulando na Bolsa? Banqueiros de renome (alguns entretanto falidos e perseguidos pelo pouco impressionável sistema judicial) contam-lhe a receita secreta (mas que, por alguma razão misteriosa, não tem produzido milionários de geração espontânea pelo menos ao ritmo da proliferação de vulgaridades no Twitter do deputado João Galamba).

Ora há que dizer que as editoras e livrarias nacionais deviam alargar, com urgência, os assuntos dos livros de autoajuda ao discernimento do sentido de voto dos eleitores nacionais. Era pegar numa qualquer lista de uma revista feminina que elenque os traços do valdevinos que nunca aceitará compromissos e transpô-la para políticos tóxicos. Eu dou uma ajuda.

Exemplo: se um partido político está falido e vive da caridade e da disponibilidade de tesouraria dos seus militantes, então há alguma probabilidade de esse partido político estroina com a sua contabilidade ter também maus resultados nas contas públicas. É natural que um partido político que não tem dinheiro para pagar a eletricidade das suas instalações se dedique, quando governo, a atrasar (ainda mais) os pagamentos aos fornecedores do Estado. Quem não gere bem a sua casa não sabe gerir a casa dos outros ou a casa de todos. Sem surpresas, o partido político falido (PS) foi quem governou treze dos dezasseis anos antes de nos oferecer a bancarrota de 2011. É sempre uma alegria observar comportamentos consistentes nos nossos colegas da espécie humana.

Outro exemplo: há melhor metáfora para o Portugal guterrista e socrático do que a vida de Sócrates em Paris? Sócrates – se acreditarmos na sua narrativa oficial, que já é mais que suficiente para lhe indicarmos o caminho do ostracismo político – vivia em casas caras, com roupas vistosas e custosas, educação xpto para o filho, viagens frequentes. O dinheiro vinha de empréstimos descontrolados, sem atentar ao valor, menos ainda pensando na capacidade de os reembolsar. Se por momentos fingirmos todos acreditar que alguém se endivida com um amigo em meia dúzia de anos a ponto de ter de vender a casa para pagar essas dívidas, o que nos diz isso politicamente de uma pessoa? Devemos votar em quem está disponível para espatifar património duradouro (um bem imóvel que poderia até transmitir aos filhos) para poder comprar ténis Prada?

Digam lá se não replica o país que desbaratou os recursos que não tinha, o dinheiro que recebeu através da venda de títulos da dívida pública (não era nosso, portanto), em delírios inúteis como o brinquedo Magalhães, obras públicas ditadas pela necessidade de dar trabalho às construtoras amigas, esbanjamentos irresponsáveis como os da Parque Escolar?

Dou mais um exemplo: é ajuizado ser bairrista na hora de eleger o presidente de câmara. É votar num rebento garboso da terra, se faz favor. Ilustro esta necessidade com Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa. Quando for a votos (desta vez, fica bem dizer em defesa dos lisboetas, não foi eleito) talvez seja útil lembrarmo-nos que o candidato é do Porto e claramente não gosta de Lisboa nem percebe a cidade. Lisboa é para Medina apenas uns degraus no escadote que quer subir dentro do PS.

Se votarem em alguém com ligações difusas ao município, já sabem, correm o risco de lhes sair um Fernando Medina. Lisboa está disfarçada de estaleiro de obras – e agora acabou o verão e para a semana começam as aulas da criançada. Temos de reconhecer: só algum louco ou uma pessoa que quer mal à cidade e aos lisboetas faz, ao mesmo tempo, obras por todo o lado, sem discriminar entre vielas ou artérias daquelas capazes de parar uma cidade. A azáfama é tanta que já há obras à noite, sem respeito pelo descanso dos moradores.

Tenho para mim que Medina percebeu que vai ser castigado (em votos) pelas horas a mais no trânsito que nos próximos meses vai impor aos lisboetas, tanto que encontrou um legalismo para parar as calamitosas obras da Segunda Circular. Obras incompreensíveis, essas – exceto se Medina inscreveu Lisboa num qualquer estudo psicológico internacional para medir, nas populações, o aumento da toma de ansiolíticos provocado por políticos sádicos.

E no fim das obras continuaremos a ter maiores filas de trânsito (é esse o objetivo, com menos vias nas ruas e mais estreitas), horas perdidas dentro dos carros e transportes, passeios largos em zonas de pouco fluxo pedonal e desagradáveis para esplanadas, ciclovias sem ciclistas (ofereço generosamente o meu testemunho: das muitas vezes que passei pela ciclovia da Avenida Duque D’Ávila, vi o total avassalador de zero ciclistas a usá-la). É para os lisboetas aprenderem, por não quererem pedalar por uma cidade cheia de colinas nem usarem apenas os transportes públicos incertos, sem cobertura em algumas zonas nem capacidade de responder a mais procura.

Pois é, necessitamos de livros de autoajuda para identificarmos os políticos problemáticos. Pelo menos em Lisboa. Como Raul Almeida comentava há tempos no Facebook, se no Porto um lisboeta fizesse o que o portuense Medina está a fazer em Lisboa, haveria uma revolução.