Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Foi sem surpresa que tomei conhecimento do facto que o presidente da República (PR) aproveitara a sua recente homilia acerca da pandemia para anunciar alto e bom som que não tencionava proclamar um governo de «salvação nacional» capaz de fazer frente eficazmente ao coronavírus e à profunda crise económica e social que aí está. Com efeito, quando escrevi que só uma solução desse tipo permitiria tomar as medidas que não foram tomadas a tempo e gerir de forma séria – no duplo sentido da palavra – a «bazuca» que há-de vir da UE, já calculava que o PR não quereria meter-se em sarilhos com o PS e o resto da «esquerda»…

Só aqui no «Observador» há vários comentadores com ideias diferentes acerca da tomada de posição do PR: há quem minimize o papel da presidência no sistema constitucional, como faz o antigo ministro Leal da Costa, mas então pergunta-se para que é o PR eleito por voto directo? Outros mais ásperos, como André Abrantes Amaral, acham que o PR tem receio de intervir no processo… pelo menos por ora! Mas até quando?

Todavia, não querer é uma coisa e não poder é outra; se não pode, não pode, e não precisa de dizer se quer ou não; mas pode dizê-lo e aquilo que o PR disse foi não querer… Portanto, nega na prática que o país esteja – como obviamente está – mergulhado numa crise profundíssima que, em menos de um ano, não se limitou à pandemia nem às suas consequências sócio-económicas. Apesar da contenção financeira e do aumento da dívida externa, o país não deixou de ter a maior quebra da economia depois das outras três a que o PS já presidiu desde o 25 de Abril!  A «recuperação» do PIB levará tempo e não é tudo: tem de ser diferente dos últimos 25 anos!

Com efeito, a crise também já atingiu os partidos, incluindo o PS, e não é de agora. A partir do momento em que António Costa promoveu o «golpe parlamentar» de 2015, designado como uma «geringonça» que é, as antigas regras de alinhamento do jogo parlamentar deixaram de funcionar. Por esse mesmo motivo, a política propriamente dita, isto é, a governação do país, foi sendo substituída pela guerrilha ideológica mais rasteira, como é agredir violentamente valores tradicionais sem os submeter a referendos que os «esquerdistas» perderiam, como a eutanásia!

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Com a reeleição presidencial, o anterior sistema partidário entrou, pois, em fragmentação crescente. Costa entregou a presidência da República ao candidato da «direita» logo na primeira eleição e reforçou publicamente essa entrega na reeleição, enquanto os três candidatos de «esquerda» mal chegaram a 20% juntos! Entretanto, as novas «direitas» já obtiveram 15%. Quanto aos 60% do presidente eleito ninguém sabe que partidos preferem hoje! É de prever que as próximas eleições autárquicas ainda não reflictam a mudança mas a crise político-partidária já está em curso acelerado e não deixará de se aprofundar antes de o país ter adquirido a remota «imunidade de grupo» e, sobretudo, devido à impossibilidade de a «recuperação» económica e social ser rapidamente atingida pela actual «geringonça»: isso não acontecerá!

A efectiva pulverização do espectro partidário, a qual só reforça aliás a preponderância adquirida pela presidência da República, será inevitavelmente um obstáculo constante à «recuperação» económica e social. Alguém está ver o PS, dividido como já sucede entre «financistas» e «estatistas», a governar com os votos do PCP e do BE? Concretamente: alguém está a ver o capital estrangeiro a investir num país estatizado? Alguém acredita que o turismo mudará a economia? Finalmente, alguém acredita que serão os mesmos a garantir a modernização que nunca fizeram nem quiseram?

Que o PR prefira sobrevoar esta «débacle» sem fim à vista, percebe-se. Mas já não se compreende que confunda presidir e «fazer figas» para que tudo corra bem. Não vai correr. É evidente que, no caso de saber lidar com o mesmo primeiro-ministro que lhe ofereceu duas presidências de bandeja, poderia chamá-lo a Belém e mostrar-lhe que não tem condições para persistir neste «empurrar com a barriga» que não leva a sítio nenhum, ou melhor, só nos leva onde o vírus quer.

A prova imediata é o que se passa com a vacinação. Esta começou mal na UE e assim continua em Portugal, onde todos os dias se misturam as prioridades e se atrasa a vacinação das maiores vítimas da pandemia (quase 90% dos mortos tinham 70 anos ou mais)! O resto é como as vacinas ou pior. Ora, não tem o PR poder para chamar os partidos e convencer a maioria, a começar pelo PS, a aceitar um «governo de crise» com fim marcado, em vez de aguardar penosamente um desfecho ainda pior da profunda crise em que o país se encontra?